Saiba quem foi Dario Alegria, quilombola e jogador do Palmeiras

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O conceito de raça nunca foi estranho a Jurandir Dario Gouveia Damasceno. Mas ele morreu com a lembrança ainda forte do momento em que o racismo o revoltou. Mais até do que todas as vezes em que os zagueiros adversários o chamaram de macaco.

"Foi em um jogo do Palmeiras no Rio Grande do Sul [no final da década de 1960]. Tínhamos acabado de fazer o segundo gol e o Inter já estava pronto para dar a saída de bola. Percebi que nossos zagueiros estavam comemorando, então retardei a minha volta para o nosso campo, impedindo que o juiz recomeçasse a partida. Vendo a minha malandragem, ele falou: 'sai daí, negro vagabundo!'. Aquelas palavras me machucaram muito", disse Dario Alegria em entrevista no início deste ano para a revista oficial do Palmeiras.

Ele não quis revelar o ano do confronto e quem era o árbitro.

Para os familiares do atacante Dario Alegria, morto em 9 de outubro deste ano por complicações causadas por um AVC, aos 77 anos, esse episódio marcou o começo do fim de sua passagem pelo alviverde.

O juiz estava no mesmo hotel do elenco e o jogador passou horas a esperá-lo no saguão, mas não o encontrou.

"Os diretores do clube falaram algumas coisas para ele, tipo para deixar para lá. O Dario se indignou e respondeu: 'foi porque ele não xingou sua mãe, por isso você não sabe o que eu senti'", recorda-se Zelão Portugal, sobrinho do ponta.

Horas depois, já de madrugada, o árbitro bateu à porta do quarto do atleta para se desculpar.

"Ele era muito preocupado com isso [com questões raciais]. Quando parou de jogar, viu a necessidade de levar os negros a um outro patamar", completa Zelão.

Ao se aposentar, a história de Dario Alegria, apelido que lhe foi dado pelo narrador Fiori Gigliotti, se transformou no livro "O Leopardo das Alterosas", escrito pelo jornalista Aroldo Dayrell.

O atacante criou a Fundação Fala Negra. Em parceria com a Fundação Palmares, mapeou os quilombos que já existiram em Minas Gerais e não estavam comprovados. Validou 83. Cinco apenas na área de Paracatu, sua cidade natal.

Neto de escravos e filho de garimpeiro, passou parte da infância no quilombo dos Buriti dos Costa, onde nasceu seu pai, Luis Gouveia Damasceno.

"Desde jovem, o Dario era engajado nessa luta. Nosso pai era músico, e Paracatu era dividida entre brancos e negros. Havia o clube dos brancos, em que os negros eram escorraçados. O pai criou então um clube chamado de Saca-Rolha, para que os negros pudessem frequentá-lo e ir a festas. Aos poucos, os brancos também começaram a ir também", diz Luis Gouveia Damasceno Filho, irmão de Dario e músico que se apresenta com o nome artístico de Luig Strada.

Sanfoneiro que tocou para Juscelino Kubitschek e com Luiz Gonzaga, Luis pai pedia que os negros se vestissem bem para os bailes no Saca-Rolha, como forma de aumentar a autoestima deles.

Dario nem deveria ter sido jogador de futebol. Com a morte do progenitor, assumiu o sustento da família aos 14 anos. Para conseguir trabalhar em uma empresa que construía uma estrada no caminho de Minas Gerais para a recém-inaugurada Brasília, convenceu o cartório de Paracatu a lhe dar um documento atestando que ele tinha 18 anos.

Na nova capital federal, começou a atuar na equipe da companhia. Destacava-se por ser muito veloz. Quando a cidade completou um ano, houve amistoso do Santos contra um combinado local. Pelé não jogou por estar contundido, mas chegou de helicóptero. Dario foi escalado e chamou a atenção.

"Eu não era craque, mas era rápido e sabia finalizar", contou depois.

Convidado por Augusto, defensor da seleção brasileira na Copa de 1950, foi para o Vasco da Gama. Ele não queria porque tinha de ganhar salário para ajudar a família, mas o ex-jogador lhe prometeu que enquanto estivesse em testes no Rio, ajudaria a sua mãe e irmãos em Paracatu.

Dario foi aprovado, mas em uma visita de folga a Belo Horizonte, recebeu oferta do América-MG por um salário muito maior do que a ajuda de custo paga pelo Vasco. Pulou o muro do alojamento de São Januário e fugiu. O clube carioca reclamou à CBD (Confederação Brasileira de Desportos, a precursora da CBF) e o atacante foi suspenso por seis meses. Não fez grande diferença porque em um dos seus primeiros treinos no novo clube, ele fraturou a tíbia.

Chegou ao Palmeiras em 1965 e fez parte do que ficou conhecida como a "Primeira Academia", com Dudu, Djalma Dias e Ademir da Guia. Conquistou o Rio-São Paulo daquele ano, o Paulista de 1966 e o Brasileiro de 1967. Pelo Fluminense, seria campeão carioca em 1969. Pelo América-MG, venceu o Mineiro de 1971.

Vestiu a camisa da seleção brasileira em 1965, na inauguração do Mineirão. O time alviverde representou a CBD em amistoso contra o Uruguai.

"O Palmeiras me deu trabalho, comida, a chance de melhorar a vida da minha família e a honra de jogar pela seleção", constatou.

"Ele era a liderança da família. Por causa dele, os irmãos puderam estudar e se formaram. Ele ajudou todo mundo", confirma o irmão Luis.

Dario Alegria era primo de segundo grau de Joaquim Barbosa, que foi ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal.

Seus familiares reconhecem que o trabalho da Fundação Fala Negra está mais difícil hoje em dia por falta de verba e pela dificuldade de obter apoio de órgãos do governo federal. Mas a questão das terras quilombolas era uma das grandes preocupações do atacante do Palmeiras até sua morte.

"Ele deixou de ser secretário de esportes em Paracatu porque havia uma demarcação de terra quilombola que passava pela fazenda do prefeito da época. Ele não aceitou aquilo", lembra Zelão.

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