São Paulo distribui cargos ligados ao futebol a conselheiros e destoa de G-6

PEDRO LOPES
·8 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Depois de assumir o São Paulo com um discurso de profissionalização e modernização, a nova diretoria presidida por Julio Casares passou a ser alvo de críticas de sócios, conselheiros e torcedores pelo excesso de conselheiros envolvidos diretamente, ou indiretamente, com o departamento de futebol. O Centro de Treinamento da Barra Funda, que acolhe o time profissional, tem três conselheiros no dia a dia e na tomada de decisões. Em Cotia, onde estão as divisões de base, há mais dois. Some-se aí o CAF (Comitê Avançado de Futebol), um órgão consultivo, sem poder de decisão, que está em fase final de formação e terá mais quatro conselheiros, numa novidade política do grupo que assumiu o poder no Morumbi neste ano. Antes de ser eleito, Casares pregava a profissionalização da gestão. "Não existe a possibilidade de um diretor executivo de futebol não vir do mercado. Ele tem que estar no mercado, tem que ser reconhecido pelo mercado com muita experiência. Mais do que isso, a gestão nas áreas fundamentais: futebol, finanças, administração e estádio serão todas do mercado. Nós não podemos imaginar outra coisa a não ser isso", afirmou Casares em setembro do ano passado. O clube contratou Rui Costa para ser o executivo do futebol. Ex-Grêmio e Atlético-MG, ele responde, entretanto, a uma estrutura hierárquica que tem, além do próprio presidente, outros três conselheiros. Carlos Belmonte comanda o departamento como um diretor de futebol de fato e tem, como adjuntos, Nelson Marques e Fernando Bracalle, conhecido como Chapecó —o último está no departamento desde a gestão Leco. Em Cotia, o profissional Marcos Biasotto divide a tomada de decisões com os conselheiros Davi Lisboa e Francisco Moretto. "O departamento de futebol do São Paulo Futebol Clube conta, hoje, com a direção de Carlos Belmonte, de modo a facilitar a integração do trabalho dos três profissionais contratados para atuar diretamente na gestão do futebol do clube: Rui Costa, Muricy Ramalho e Marcos Biasotto. Vale destacar que essa é a primeira vez que o Clube contrata três profissionais para o departamento, sendo um para a base — responsável pela captação de novos talentos", diz o clube, em comunicado enviado à reportagem, e reproduzido na íntegra no final da matéria. "Dão apoio institucional, ao trabalho do Carlos Belmonte, os conselheiros Nelson Ferreira, Fernando Bracalle [na Barra Funda], Davi Lisboa e Francesco Moretto Junior [em Cotia]. A presença de conselheiros na composição institucional do departamento de futebol do clube é uma prática perene no SPFC e se motiva, em principal, com a intenção de blindar os departamentos profissionais de influências externas e/ou políticas", aponta parte da nota. Já o CAF deve fazer sua primeira reunião deve ser na próxima segunda-feira (8). O comitê já tem entre os membros quatro conselheiros: Marcelo Pupo, ex-presidente do Conselho Deliberativo durante a gestão de Leco; Gabriel Aidar Abouchar, ex-diretor de relações internacionais na gestão do ex-presidente e seu primo Carlos Miguel Aidar; Eduardo Alfano, que também ocupou a diretoria de relações internacionais na gestão de Aidar e Dorival Decoussau, ex-diretor de relações institucionais, também na gestão Aidar, e ex-diretor de comunicação e marketing na administração de Juvenal Juvêncio. À reportagem, o São Paulo afirmou que o CAF ainda não está em funcionamento, e será um órgão não remunerado, que terá como objetivo buscar formas de tornar o futebol mais eficiente. "No que diz respeito ao CAF - Comitê Avançado do Futebol -, o mesmo nem sequer foi constituído e oficializado. Até o presente momento, apenas algumas reuniões informais foram realizadas. O CAF será formado por sete integrantes, todos com experiência em diferentes áreas de atuação (gestão esportiva, médica, judicial/legislativa, financeira, administrativa e de governança/compliance), e será um órgão auxiliar, sem poder de decisão, que trabalhará conjuntamente à Presidência do Clube na identificação de oportunidades administrativas que possam tornar a estrutura do Futebol mais eficiente", diz o comunicado. A exemplo do que ocorreu na Barra Funda com Muricy Ramalho, a diretoria do São Paulo procura também completar o CAF com a presença de ídolos do clube: Zetti, Edmilson e Kaká são os nomes na mira —o último, entretanto, chegou a recusar uma posição em dezembro. A reportagem apurou que o comitê surge para analisar, principalmente, questões financeiras ligadas ao futebol. À reportagem, a cúpula são-paulina afirma que o órgão estaria distante das decisões ligadas ao departamento, indo de encontro ao que disse o próprio presidente do clube em entrevista coletiva após a demissão de Fernando Diniz. "Temos um Comitê Avançado de Futebol e a área financeira. Eles vão cruzar números. Se couber dentro de um orçamento geral, os grandes nomes podem vir, mas dentro de uma engenharia financeira para não comprometer o futuro do São Paulo. Se formos buscar a qualquer custo um profissional A, B ou C, vamos agravar a situação", declarou Casares. O clube ainda conta com Conselho de Administração (nove membros), e Conselho Fiscal (mais três membros), ambos órgãos criados pela reforma estatutária de 2017 e que se reúnem frequentemente para tratar de assuntos do dia a dia do clube. O CA trata de questões administrativas, mas já analisou no passado temas do futebol. O segundo órgão trata de questões financeiras, e já passaram por ele diversos contratos de jogadores e funcionários. Sobre as categorias de base, o São Paulo afirma que na gestão anterior, do ex-presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, quatro conselheiros chegaram a atuar no departamento. O clube reafirma o compromisso de profissionalizar a gestão. "É importante destacar ainda que nas categorias de base, durante a gestão de Carlos Augusto de Barros e Silva, quatro conselheiros atuavam no departamento — José Canassa, Sebastião Antunes Duarte, José Innocencio e Waldo Braga. O processo de redução de conselheiros nos departamentos será acompanhado ao longo da gestão". Com pouco mais de um mês da nova gestão, nenhum dos cargos diretamente no futebol profissional (Belmonte, Chapecó, Nelson Marques), em Cotia (Davi Lisboa e Moretto), ou membros do próprio CAF foram discriminados no site oficial do clube. A mesma situação ocorre com as câmaras setoriais, órgãos criados e compostos com conselheiros em diferentes setores do clube. Uma delas, a de segurança, foi designada para acompanhar as investigações do ataque ao ônibus dos jogadores antes do empate em 1 a 1 com o Coritiba, no último dia 23. A presença de conselheiros ou nomes ligados à política interna de clubes no futebol não é novidade no futebol brasileiro, mas tem ocorrido um movimento no sentido de minimizar a prática. O modelo adotado no São Paulo hoje destoa um pouco do que acontece nos seus principais concorrentes do G-6 do Campeonato Brasileiro —dentre esses, o Atlético-MG tem realidade mais parecida com o clube do Morumbi. O Internacional, líder do Brasileirão, tem o vice de futebol João Patrício Hermann e, abaixo dele, o executivo Paulo Brack. No Flamengo, segundo colocado, o vice de futebol Marcos Braz atua com Bruno Spindel, que é remunerado. O Fluminense tem o profissional Paulo Angioni respondendo diretamente ao presidente Mario Bittencourt, que é bastante participativo no futebol. O Palmeiras, sexto colocado, não possui nenhum nome ligado à política do clube em cargo diretivo no departamento de futebol. Mas os vice-presidentes Paulo Roberto Buosi e Alexandre Zanotta participam das principais decisões, em conjunto com o executivo remunerado Anderson Barros e o presidente Maurício Galiotte, em um Comitê de Gestão. No Atlético-MG, nomes ligados ao conselho deliberativo participam diretamente da gestão do futebol. Rafael Menin, vice-presidente do Conselho Deliberativo, e Renato Salvador, conselheiro, atuam diretamente com o diretor de futebol — atualmente Rodrigo Caetano ocupa a posição. Outros dois conselheiros, Rubens Menin e Ricardo Guimarães fazem gestão de investimentos do departamento de futebol. * Veja a íntegra do comunicado enviado pelo São Paulo: "O departamento de futebol do São Paulo Futebol Clube conta, hoje, com a direção de Carlos Belmonte, de modo a facilitar a integração do trabalho dos três profissionais contratados para atuar diretamente na gestão do futebol do clube: Rui Costa, Muricy Ramalho e Marcos Biasotto. Vale destacar que essa é a primeira vez que o Clube contrata três profissionais para o departamento, sendo um para a base — responsável pela captação de novos talentos. Dão apoio institucional, ao trabalho do Carlos Belmonte, os conselheiros Nelson Ferreira, Fernando Bracalle (na Barra Funda), Davi Lisboa e Francesco Moretto Junior (em Cotia). A presença de conselheiros na composição institucional do departamento de futebol do clube é uma prática perene no SPFC e se motiva, em principal, com a intenção de blindar os departamentos profissionais de influências externas e/ou políticas. É importante destacar ainda que nas categorias de base, durante a gestão de Carlos Augusto de Barros e Silva, quatro conselheiros atuavam no departamento — José Canassa, Sebastião Antunes Duarte, José Innocencio e Waldo Braga. O processo de redução de conselheiros nos departamentos será acompanhado ao longo da gestão. No que diz respeito ao CAF - Comitê Avançado do Futebol -, o mesmo nem sequer foi constituído e oficializado. Até o presente momento, apenas algumas reuniões informais foram realizadas. O CAF será formado por sete integrantes, todos com experiência em diferentes áreas de atuação (gestão esportiva, médica, judicial/legislativa, financeira, administrativa e de governança/compliance), e será um órgão auxiliar, sem poder de decisão, que trabalhará conjuntamente à Presidência do Clube na identificação de oportunidades administrativas que possam tornar a estrutura do Futebol mais eficiente. É importante se lembrar de que nenhum dos integrantes será assalariado, tampouco integrará o dia a dia dos CTs da Barra Funda e de Cotia. Fundamental lembrar, também, que o compromisso de austeridade firmado em campanha e que norteará toda a gestão passa, diretamente, por entender alternativas de reduzir riscos e aumentar a eficiência do departamento de futebol, que representa quase 90% dos custos totais do SPFC."