Primeira mulher a comandar a Seleção Brasileira de Rúgbi em Cadeira de Rodas, Ana Ramkrapes sofre com machismo de árbitros

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(Foto: Reprodução/Instagram)
(Foto: Reprodução/Instagram)

Por Stephanie Calazans

Ela começou como estagiária, depois assumiu um time independente e, em pouco tempo, já estava à frente da Seleção Brasileira de Rúgbi em Cadeira de Rodas. Ana Ramkrapes é a primeira mulher a assumir o comando da Seleção e, mais que isso, é a grande responsável por trazer visibilidade ao esporte e tornar o nosso país competitivo na modalidade: desde que assumiu, em 2016, o Brasil já chegou a subir dez posições no ranking mundial. Apesar disso, ela ainda passa por situações de machismo e tem que provar, dia após dia, a sua capacidade.

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Antes de comandar os doze homens que integram a Seleção (que, apesar de ser uma modalidade mista, não conta com mulheres na equipe), Ana fez história e começou a trilhar seu caminho no Gigantes, um time que resultou da vontade dos atletas da Unicamp (Universidade de Campinas) de montarem uma equipe independente.

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“Eu sempre fui apaixonada pelas batidas do Rúgbi. Comecei a conhecer alguns atletas durante a graduação, me interessei pela modalidade e acabei me inserindo no meio. Eu ainda era estagiária. No fim de 2012, os atletas saíram da Unicamp, montaram um time independente e me convidaram para ir com eles”, conta a técnica. “Como minha área era fisiologia do exercício, sempre gostei muito dessa parte de treinamento, então eu trabalhava na parte da preparação física dos atletas, mas, como eu fui a única profissional a acompanhar a equipe, a ajudar a montar o Gigantes, por muitos momentos eu tive que assumir a posição de técnica”.

Ana conta que a posição de treinadora surgiu da necessidade. “Por várias vezes eu tive que puxar os treinos e vi, ali, que era uma situação que, mais cedo ou mais tarde, alguém teria que assumir. Por isso comecei a estudar a parte técnica e tática do esporte e, naturalmente, aconteceu”, para a sorte da nossa Seleção!

Apesar de o Rúgbi ainda ser uma modalidade nova no Brasil, Ana sempre foi apaixonada pelo esporte, assim como sua família. Ela conta que seus pais e seus irmãos começaram a acompanhá-la antes mesmo de ela virar técnica da Seleção.

“Minha família adora Rúgbi! Eles conheceram a modalidade quando eu estava no Gigantes e passaram a ir aos jogos, a me acompanhar. Sempre me deram muito apoio”, conta, com tom de orgulho em sua voz. “O Gigantes já passou por muitos momentos de dificuldades. Já passei por situações em que eu não tinha dinheiro nem para ir para os treinos, e era a minha mãe quem me ajudava nessa parte – mesmo ela mesma estando passando por apuros financeiros”, se emociona. “Minha família é muito pobre, eles jamais imaginariam um dia ter uma filha no comando da Seleção. Eles têm muito orgulho do meu trabalho e de tudo que conquistamos!”.

Ana começou sua trajetória na Seleção em 2014, quando foi convidada para ser auxiliar técnica. Em 2015 ela recebeu a proposta de comandar a Seleção B, que é uma seleção de acesso à Seleção A e, junto com Antônio Manoel Pereira, com quem trabalha até hoje, começou um projeto que visava o desenvolvimento da Seleção B. Assim, eles passaram a implantar a própria linha de trabalho que, naturalmente, caiu no gosto da diretoria. O resultado foi tão positivo que já no final de 2016 ela assumiu o comando da Seleção A.

Parece fácil, não é? Mas segundo a própria treinadora, o Rúgbi é realmente uma modalidade que distribui oportunidades. 

“Oportunidade tem, o que falta é profissional querendo se qualificar e agarrar essas oportunidades. No Rúgbi temos até hoje times que não possuem um treinador especializado na modalidade”.

Mas mesmo provando sua competência através da rápida ascensão que teve na carreira, dos resultados dentro de quadra, dos avanços de posição no ranking mundial e de sua consistência (essa é a primeira equipe técnica que se mantém por um ciclo paralímpico inteiro: quatro anos de projeto e três anos de seleção), Ana ainda tem que lidar com o machismo e provar, todos os dias, que é tão ou mais competente que treinadores homens.

“Machismo é uma questão de ignorância (no sentido de não-conhecimento), insegurança, ou uma mistura dos dois”, diz. “Eu tento sempre conversar com os atletas. Não me iludo achando que eu vou conseguir fazer com que alguém mude, mas pelo menos transmito conhecimento. Se depender de mim, o machismo não vai mais se criar pela ignorância”, diz. “E dá certo: pela posição que eu ocupo eles, no mínimo, são forçados a me ouvir. E, com isso, é possível notar uma evolução tanto do grupo de atletas quanto da equipe técnica, pois eles se forçaram a deixar o ego machista de lado até para não comprometer a qualidade do trabalho”.

Ana conta, inclusive, que muitas vezes se sentiu culpada – mesmo sem ter qualquer culpa – por ver sua própria equipe prejudicada por atitudes machistas.

“Já passei por incontáveis situações em que enfrentei times comandados por homens e acontecer de em alguma situação do jogo eu falar ‘A’ e o outro técnico falar ‘B’ e o juiz acatar a atitude que beneficiaria o outro time sem hesitar, muito provavelmente pelo simples fato de eu ser mulher. E não foi uma ou duas vezes, isso é bem corriqueiro, na realidade”.

Mas, se por um lado isso demonstra o machismo que ainda existe no meio esportivo, por outro, Ana consegue ver que a desconstrução que ela trabalha diariamente com sua equipe tem surtido efeito. “Eu sinto que os prejudico, mas ao mesmo tempo os atletas acabaram por se unir a meu favor. Eles conseguem enxergar a situação com os próprios olhos e sempre me apoiam. Sempre dizem que estão comigo”, declara, satisfeita. 

Em outra ocasião positiva, Ana relata o dia em que um árbitro a chamou, a apresentou a outros árbitros e ainda contou que um dos juízes nunca havia ouvido falar dela, ao que, de prontidão, o árbitro então rebateu “como você não sabe quem é a Ana? A única técnica mulher que temos na modalidade!”.

“Ele se sensibilizou, falou de mim em tom de orgulho, me destacou por ser uma mulher e eu fiquei muito feliz por saber que cada vez mais temos pessoas nadando contra a maré junto conosco”, disse a treinadora.

Mas por que, então, dentro de uma modalidade mista, há apenas homens na equipe? Segundo Ana, aproximadamente 5% dos atletas de Rúgbi em Cadeiras de Rodas são mulheres – o que já é uma estatística muito abaixo da masculina. 

“É uma questão de qualidade técnica. No Brasil, nós ainda não temos mulheres no mesmo nível técnico que os homens, mas elas estão na Seleção B, se desenvolvendo e vindo em uma crescente”, conta. “Olhamos sempre em pé de igualdade: sem prejudicar nem beneficiar ninguém”.

Além de fazer história no comando da Seleção (que ocupa o 10º lugar no ranking mundial - o que significa que a equipe brasileira integra, hoje, a elite da modalidade), Ana acabou deixando um legado para as mulheres no esporte, já que hoje é possível ver outras mulheres comandando times de Rúgbi pelo Brasil. “Estamos conseguindo alcançar um equilíbrio”, diz ela. “Estamos conquistando nosso espaço”.

Apesar disso, o incentivo ainda deixa a desejar: os treinadores, por exemplo, não recebem salários – eles recebem por evento, semana de treinamento ou competições. Segundo Ana, “a estrutura ainda é muito fraca, levando em consideração que não só o esporte em si ainda é muito novo no Brasil, como a junção esporte e deficiência também é”.

Mas, apesar de tudo ser uma novidade e não haver incentivo proporcional à visibilidade que o esporte vem ganhando, Ana ressalta que o País “está sempre melhor nas Paralimpíadas do que nas Olimpíadas”.

“No Parapan-Americano, o Brasil ganhou disparado no quadro de medalhas, enquanto no Pan, não”.

Isso se deve não só à qualidade dos atletas e de toda a comissão e equipe técnica, quanto a uma “paixão sem explicação” que Ana faz questão de ressaltar.

“Temos pouco incentivo, mas alguma coisa move a gente. Quando você entra no mundo da deficiência, dificilmente você sai: há uma energia, uma paixão diferente”, conta. “O que me levou ao mundo paralímpico foi isso. Me faltam até palavras para descrever. Entrei de cabeça e o que me fez optar e permanecer nessa área é exatamente o brilho que existe no esporte paralímpico; o brilho por vencer as adversidades e estar sempre pronto para recomeçar”, finaliza a treinadora brasileira.

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