Rua com ar condicionado chama a atenção no Catar; veja como a sede da Copa tenta driblar o calor

Um grupo de torcedores equatorianos pára de braços abertos para se refrescar enquanto olha para o chão, curiosos com o ar fresco que sai de uma estrutura retangular de cerca de 2 metros, espalhada ao longo da calçada. Em uma Copa do Mundo em que os termômetros permanecem em torno de 30°C ao longo do dia, mesmo a apenas três semanas do inverno, chegar à luxuosa 21st High Street é como se deparar com um oásis no deserto. O ar condicionado a céu aberto, em plena rua, refresca na mesma medida que surpreende quem passeia pela região da Katara, em Doha.

A 21st High Street é um dos metros quadrados mais badalados de Doha. Ao subir pela escada rolante do metrô, o visitante se depara com uma loja da Chanel e, ao dobrar a esquina, com uma Galeria Lafayette, a tradicional loja de departamentos francesa. Ao longo da rua, exclusiva para pedestres, é possível visitar relojoarias, joalherias e tomar um espresso no russo Café Pouchkine por 40 riais (cerca de R$ 60), enquanto relaxa ao ar fresco.

O Catar vem tentando lidar de várias formas com o calor que, no verão, chega aos 46°C. Em 2019, por exemplo, a cidade tentou um projeto experimental com uma película azul para absorver o calor do asfalto na região do Souq Waqif. A refrigeração a céu aberto foi uma alternativa encontrada. Além de Katara, o parque Aspire, ao longo da orla, conta com ele, bem como sete dos oito estádios desta Copa do Mundo.

— Nossa tecnologia usa uma combinação de isolamento e resfriamento pontual; isso significa que resfriamos apenas as áreas onde as pessoas precisam, como no campo e nas arquibancadas, de forma que cada estádio age como uma barreira, que contém uma bolha fria dentro — conta o engenheiro Saud Abdulghani, conhecido como Dr. Cool (algo como “doutor em refrescar”, em inglês), o homem por trás do ar condicionado dos estádios. — A técnica esfria o ar, filtra-o e o empurra para os jogadores e torcedores. Essa tecnologia é usada em outros espaços abertos do Catar, como nas passarelas refrescantes em Katara e Aspire Park.

Calor não é assunto novo em Copas do Mundo. Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, jogos foram realizados com sol a pino por questões comerciais. Na abertura daquele Mundial, Alemanha e Bolívia tiveram que aguentar uma temperatura de 33°C em Chicago, em partida que começou às 14h (horário local). Os termômetros na final entre Brasil e Itália, que foi ainda mais cedo, às 12h, chegaram a 38°C. México-1970, Espanha-1982 e até o Brasil-2014 (especialmente pela umidade em Manaus) também tiveram o calor em pauta.

Esse debate se intensificou no Catar, sobretudo porque a Fifa precisou mudar seu calendário, levando o Mundial para o fim do outono no Oriente Médio (novembro e dezembro) em vez do tradicional verão europeu (junho e julho). Isso mexeu com a programação das ligas nacionais e continentais, atletas e até turistas, já que não é período de férias escolares no Velho Continente. O objetivo foi poupar todos do calor que praticamente inviabiliza a população local de transitar e trabalhar nas ruas durante o verão — imagina jogar futebol em alta performance.

O Catar, assim como todo o Oriente Médio, tem experimentado os efeitos das mudanças climáticas. Segundo reportagem do “Washington Post”, a temperatura média em Doha subiu 2,8°C nos últimos 60 anos, período em que experimentou uma urbanização acelerada impulsionada pela riqueza do petróleo e gás.

Dos oito estádios da Copa, o único que não é climatizado é o 974, palco de Brasil e Coreia do Sul, hoje, às 22h (16h de Brasília). Por causa da estrutura de contêineres e por ser às margens do Golfo, a arena temporária foi planejada para aproveitar o vento, que passa pelas suas frestas e deixa o clima mais agradável.

Nos outros locais de jogos, a temperatura varia entre 20° e 23°C, embora a sensação térmica nas arquibancadas, por vezes, pareça até mais baixa.