Romero encontra equipe que teve o seu irmão gêmeo como ídolo

O atacante Ángel Romero deixou de conceder entrevistas quando se sentiu ridicularizado no Brasil. A última brincadeira que o irritou foi motivada por um comentário de um torcedor do Corinthians quando a Seleção Brasileira derrotou o Paraguai por 3 a 0, em 28 de março, em Itaquera.

Na ocasião, Romero teve a felicidade de dividir o gramado do estádio corintiano com o seu irmão gêmeo, o meia Óscar. O clube não desperdiçou a chance de divulgar o encontro no Twitter, com uma fotografia dos jogadores revelados pelo Cerro Porteño lado a lado: “Os Romeros já estão na área! Quem é o Ángel?”.

“Joga uma bola. O que não dominar é o nosso”, respondeu um corintiano, antes de esclarecer que se tratava de uma piada. Um programa da TV Globo achou graça e enviou um repórter ao CT Joaquim Grava também para fazer Ángel Romero dominar uma bola. O atacante falhou na primeira tentativa.

Mais de três meses depois, Romero terá nova oportunidade de mostrar a sua qualidade em um jogo internacional em Itaquera justamente contra o clube que teve o seu irmão gêmeo, hoje no espanhol Alavés, como ídolo. O Racing, rival do Corinthians nas oitavas de final da Copa Sul-Americana, contou com os serviços de Óscar entre 2015 e 2017 e não se arrependeu.

Com a camisa 10 do clube argentino, Óscar teve uma trajetória bem diferente da que o seu irmão construiu no Corinthians. Enquanto Ángel amargava o ostracismo sob o comando de Tite, que demorou bastante a aproveitá-lo, o armador rapidamente conquistava espaço e prestígio em Avellaneda.

joga uma bola, o que não dominar é o nosso

— Dudu ⚫️⚪️ (@SCCP_Eduardo) 28 de março de 2017


“Ele trata a bola como nenhum outro. Vai limpando os rivais com os seus movimentos. Ele é Óscar Romero”, definia a letra de uma música criada em homenagem ao novo ídolo do Racing, paródia de uma cumbia. “Se ele está no meio-campo, o futebol também está.”

Óscar se identificou tanto com o Racing que tinha moral suficiente para confrontar a própria torcida. Na Copa Libertadores da América do ano passado, contra o Bolívar, ele se dirigiu à arquibancada e, com gestos negativos e de silêncio, pediu que cessasse um cântico com insultos xenófobos contra paraguaios e bolivianos – direcionado comumente a torcedores do Boca Juniors, muito deles imigrantes desses países.

“O Racing tem uma torcida maravilhosa, mas, sendo paraguaio, não gostei de ser discriminado. Dói demais escutar algo contra o meu país. Não sou ninguém para mudar o povo, mas pedi que parassem um pouco”, relatou Óscar, após cativar o público com o seu apelo e ser aplaudido.

Ángel já se sentiu discriminado no Brasil – acredita até que parte da implicância com o seu futebol se deva à sua nacionalidade. Quando começou a enfim se destacar no Corinthians, no entanto, ele viu bandeiras paraguaias surgirem em Itaquera. “A minha família fica muito emocionada com essa cena”, declarou o atacante, que gosta de comemorar os seus gols enrolado no adereço tradicionalmente exposto no setor sul da arena.

Contando com o compatriota Fabián Balbuena ao seu lado desde a última temporada, Romero tinha esperanças de que Óscar também faria jus à presença de bandeiras paraguaias em Itaquera. Afinal, o Corinthians tinha se comprometido a trazer posteriormente o seu irmão gêmeo quando o tirou do Cerro Porteño, em meados de 2014.

A negociação não vingou. Futuramente cogitado como reforço de outras equipes brasileiras, como Fluminense e Palmeiras, Óscar acabou vendido pelo Cerro ao Racing depois que o Corinthians perdeu o interesse na contratação. “O meu irmão está muito bem na Argentina, jogando muita bola, então só tenho o sonho de jogar com ele na seleção paraguaia agora”, conformou-se Ángel.

Por algum tempo, especulou-se que as saudades de Óscar prejudicaram a adaptação de Ángel ao Corinthians. Os dois, que sempre viveram juntos, recorriam ao telefone celular para se comunicar quase diariamente. Da Argentina, o destaque do Racing custou a receber boas notícias do irmão que seguiu carreira no Brasil.

“Falei com o meu irmão depois do jogo, e ele parabenizou todo o mundo do grupo. Disse que aguardei muito tempo pela oportunidade que tive. Agora, é comemorar”, sorriu Romero, quando comandou a histórica goleada por 6 a 1 sobre o São Paulo, em Itaquera, no jogo em que o Corinthians foi premiado como campeão brasileiro de 2015.

No ano seguinte, já como titular e com status de maior artilheiro de Itaquera, Ángel colaborou com dois gols em outra vitória elástica do Corinthians, 6 a 0 em cima do chileno Cobresal, outra vez em casa. O resultado ajudou a tirar o Racing, ainda defendido por Óscar, do caminho corintiano naquela Libertadores.

“Não falei sobre isso com o meu irmão, mas comentaram que pegaríamos o Racing depois que fizemos 5 a 0. Então, ficaria difícil para a minha família. Prefiro jogar contra outra equipe, e não contra aquela em que está o meu irmão. Mais para a frente, na final, quero enfrentá-lo e ganhar”, sorriu Ángel Romero, que, com o Corinthians, não foi além do uruguaio Nacional nas oitavas de final do torneio. O Racing parou no Atlético-MG, na mesma fase.

Neste ano, o encontro entre Corinthians e Racing finalmente ocorrerá. Óscar Romero, contudo, já não está mais na agremiação Argentina. O seu sucesso o levou ao Shanghai Shenhua (o mesmo clube chinês do ex-corintiano Tevez), que o emprestou ao Alavés. Camisa 10 também no time espanhol, ele foi procurado pela Gazeta Esportiva para comentar o confronto das oitavas de final da Sul-Americana, mas seguiu o exemplo do irmão gêmeo e não se manifestou.