Roger diz que vai torcer por Felipão e contesta falta de comando no vestiário palmeirense

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Roger Machado à época em que era técnico do Palmeiras. Foto: Marcello Zambrana/AGIF/Gazeta Press
Roger Machado à época em que era técnico do Palmeiras. Foto: Marcello Zambrana/AGIF/Gazeta Press

Roger Machado foi contratado como técnico do Palmeiras, em dezembro de 2016, com a esperança de implantar um estilo de jogo diferente, deixando o time pronto para a conquista de títulos. Não foi isso que aconteceu. No dia 26 de julho, Roger foi dispensado pela diretoria, mesmo com um aproveitamento de 68% em 44 jogos disputados. Em entrevista exclusiva ao blog, Roger admitiu a surpresa pelo desligamento, pediu um calendário melhor para a valorização dos trabalhos dos treinadores e garantiu que vai torcer por um título de Felipão. Confira.

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Você ficou surpreso com tua dispensa do Palmeiras?

Dizer que é surpresa no futebol brasileiro, você ser desligado dos clubes, a gente não pode afirmar, né. Afinal de contas, a média de permanência de um treinador no cargo, é de cinco meses. Mas, de todo modo, naquele momento, ainda no retorno da parada da Copa, depois de ter feito uma intertemporada muito boa, vindo de uma sequência de seis resultados, empatando três e vencendo três, ou seja, numa possibilidade de seis jogos, perdemos fora de casa para o Fluminense e o desligamento me deixou pego de surpresa, sim. Mas, foram sete meses de trabalho, uma construção que já estava bem desenhada, mas essas instabilidades e instâncias do futebol brasileiro, muitas vezes faz com que o trabalho seja abreviado antes do tempo. E até a dificuldade de avaliação, em função disso.

Quando você saiu, o presidente Galiotte disse que precisava de uma mudança de postura, uma espécie de choque. Isso também te surpreendeu?

Na verdade, eu não tive conhecimento disso, Praetzel. Estou tendo agora. Na medida que eu me desligo, eu não fico acompanhando mais nada porque não é da minha alçada. Fico imaginando o que seria um choque no sentido do jogo, do futebol ou do clube. Porque na Libertadores, muito bem classificado, na Copa do Brasil também, o Brasileiro na quinta ou sexta posição, na 14² rodada, não me recordo bem, com a perspectiva de um segundo turno do mesmo nível, aumentando obviamente em função de ter parado e ter feito um processo de intertemporada, que foi considerado muito bom. Não consigo visualizar o que seria esse choque. Talvez, a mudança, possa significar esse choque que foi atribuído pela mudança no comando.

Você concorda que rodou menos o elenco em relação ao que o Felipão está fazendo?

Não é verdade, porque na Libertadores, a metade eu botei time completamente diferente. No campeonato estadual, quando houve a necessidade, também, a gente colocou um time diferente. O fato é que o Brasileiro iniciou quando só estávamos disputando o Brasileiro. Já tinha acabado a fase de classificação da Libertadores e da Copa do Brasil, também já tinha sido decidida a fase das oitavas-de-final. Então, estávamos acompanhando e vendo o desenvolvimento do time dentro de campo e, de acordo com a necessidade, seria feito isso. O planejamento seria para essa fase e momento do Brasileiro, onde haveria a Copa do Brasil e Libertadores, novamente. O planejamento era feito para ver essa rodagem do elenco. Agora, não tenha dúvida, com o elenco que o Palmeiras tem, você pode lançar mão, como o Felipão lançou e cair pouco a qualidade do jogo, porque são jogadores de alto nível.

Te conforta o fato do Felipão ter dito que pegou uma boa base de trabalho?

No futebol brasileiro, dificilmente, tu consegues pegar um trabalho do zero. Sempre herda algo importante dos outros treinadores, assim como eu herdei lá no começo, quando estreei no Juventude, substituindo o Dellamore. Herdei um trabalho consistente, que me permitiu queimar etapas, assim como eu substituí o Felipão no Grêmio e ele já havia testado muitos jogadores jovens, me dando oportunidade de, a partir dali, implementar muita coisa, em cima daquilo que ele já havia experimentado. Obviamente, que deixa a gente satisfeito, mas também há a qualidade e o trabalho do treinador que está chegando e coloca sua forma de jogar. A gente fica feliz e satisfeito de que o trabalho é feito a várias mãos no futebol brasileiro, com cinco meses de permanências no cargo, é inevitável você herdar um trabalho, posteriormente, vindo de um outro comandante.

Você é visto como muito bom de treinos e dia a dia, mas rotulado como alguém que não consegue gerir o grupo, no vestiário. Como você vê isso?

Mas o que seria isso na gestão? No tipo de gestão, na forma de condução da gestão? Para mim, a gente vive uma dicotomia no futebol brasileiro, uma separação pouco saudável dos jovens, que entraram no mercado e entendem muito de táticas, mas têm pouca habilidade na gestão, e da geração mais velha, que prestou grandes serviços para o futebol brasileiro e continua prestando, que é boa de gestão, mas não é boa de campo. Isso é uma falácia, uma grande mentira. Nem tão pouco, os treinadores da geração mais antiga deixaram de entender do jogo, e nem tampouco nós, assim como eu, que vivenciei 20 anos no vestiário e fui para a Academia para entender um pouco do jogo, não consegue gerir grupos. Talvez, o que se entende muito disso, remanescente, é de que só indivíduos coléricos ou sanguíneos tenham habilidade de gerir grupos, ou os mais expansivos à beira do campo, ou aqueles que cultuam o imaginário do ambiente, do torcedor, que precisam jogar junto com o time, se não denota uma pouca habilidade para gerenciar esses processos. Uma das críticas que eu recebia, em determinado momento, era a forma como eu me conduzia à beira do campo. Que eu sempre entendi que eu deveria me manter concentrado para extrair as melhores informações do campo para o atleta, e muitas vezes se entendia que eu deveria ser mais agitado ou a minha personalidade mais tranquila, me impediria de gerir ou cobrar os atletas dentro campo, no treinamento ou no dia a dia, quando necessário. Justamente, em função de entender que esse modelo que foi vigente durante muito tempo, não só no futebol, mas de um modo geralno que diz respeito à gestão. Sempre se entendeu desta forma. Então, eu tenho 20 anos de prática dentro do vestiário como líder de muitos grupos formados e, evidentemente, quando você está lidando com seres humanos, você usa suas habilidades como profissional e pessoa. Sempre consegui gerir muito bem. Até o sétimo mês, tudo andava bem, como de um momento para outro, foi se definir uma incapacidade ou uma forma de gerir, que não fosse compatível, talvez, com o que se desejava. Isso para mim, está muito claro.

A perda do Paulista te deixou muito pressionado? Você enxergava desta maneira?

Para contextualizar isso, é importante a gente ir lá atrás, na minha chegada. Na coletiva, respondi muitas perguntas relacionadas à pressão de trabalhar no Palmeiras, a minha relativa possível inexperiência ou pouca rodagem para lidar com um grupo com indivíduos com muito talento, um grupo muito forte e dado ao alto índice de rejeição, naquele momento. Nas preferências dos torcedores, estavam a minha e a do Abel. Fui muito bem acolhido, mas a gente sabe que no futebol você vive da pressão sempre pela vitória, ainda mais de um grupo que foi formado para vencer tudo e não ter uma aparente dificuldade nas vitórias, porque se investiu num grupo para vencer os compromissos. E daí, passa pela derrota no clássico e pela derrota, também dentro de casa, e isso aumenta a pressão, porque se imaginava vencer o campeonato. Isso foi atenuado pelas campanhas na Libertadores, Copa do Brasil e início do Brasileiro, mas a cada insucesso, vai jogando um pouco de pressão, não tenha dúvida.

As derrotas para o Corinthians deixaram uma imagem de que você não sabia enfrentar o Carille. Isso te incomodou?

Nem um pouco. Nem um pouco. Essas comparações fazem parte do futebol, mas elas ficam muito a nível externo e voltadas muito para o ambiente externo que fomenta isso. Dos clássicos disputados, nós vencemos o primeiro na decisão do Paulista e perdemos outros três, inclusive o que deu o título para o Corinthians. Vencemos o Santos, o São Paulo, mas eu sei a rivalidade que há entre Palmeiras e Corinthians, e isso vai parar na comparação entre os treinadores, inevitavelmente, mas em nenhum momento, me incomodou.

Você acha que o Palmeiras ganha algum título?

Eu vou torcer muito para o Felipão vencer, até porque, depois de 2014, se atribuiu muito a ele como símbolo de uma derrota dentro de casa pela Seleção, e junto com ele, toda uma geração de treinadores que prestaram e continuam prestando um grande serviço ao futebol brasileiro. Decretaram o fim de uma geração de treinadores e ele vencendo, prova que muitos que o criticaram estavam e continuam equivocados sobre a capacidade do Felipão. Não é saudável para o futebol brasileiro, haver esses rótulos em cima da nossa geração e dessa geração de grandes treinadores. O Palmeiras é o time que teve bons resultados, junto com o Inter após a parada para a Copa. Não tenho visto jogar, nem números, mas é candidato a títulos, sem dúvida nenhuma.

Foi difícil trabalhar com Felipe Melo?

Nem um pouco, pode acreditar. Um cara extremamente profissional. Um cara que trabalha muito no dia a dia, muito atento e exerce uma liderança muito forte dentro do vestiário e grupo de jogadores. Liderança extremamente positiva. Na parada para a Copa, falei para ele. A pergunta que eu mais respondi em Porto Alegre, sabe qual foi? Ele disse, como é trabalhar comigo. Problema nenhum, nenhum. Um cara 100%, 100%.

Você continua com a ideia de pegar trabalhos apenas em janeiro, ou mudou um pouco de ideia?

Essa pergunta é recorrente, mas é bem interessante e me dá a oportunidade de falar sobre isso. A minha decisão de iniciar trabalhos, foi pautada em três pilares, bastante importantes. A gestão da minha carreira porque entendia desde o início, que eu saísse do meu trabalho, dada a instabilidade que a gente no futebol e pegasse outro, logo em seguida, com cinco, seis anos de futebol, eu teria atravessado o país. Entendia que, para melhor gerir a minha carreira, eu deveria pegar os trabalhos no início do ano, onde eu pudesse organizar os elencos, iniciar de fato uma temporada e poder finalizar um processo. Esse é o primeiro pilar. O segundo é bem familiar. Tenho duas filhas de dez e 12 anos, vivi como jogador durante 17 anos e não me imaginava como treinador, mas como o futebol é sempre uma cachaça, o Daniel me puxou de novo para o campo, novamente. Desejo muito vê-las crescer e isso me faz, a cada término de ciclo, se assim for, eu poder estar presente no dia a dia delas, acompanhar, poder levar para a escola, ter finais de semana e viver minha vida familiar, que eu prezo muito. O terceiro pilar, não menos importante, é também um posicionamento político e uma contribuição que eu acredito que eu possa dar para minha profissão e categoria. Se eu entendo que não é justo a gente ser demitido com três, quatro meses de trabalho, também não acho correto sair de um emprego e engatar em outro, sem fazer uma devida avaliação, um balanço entre as coisas que foram boas e as que poderiam ter sido melhores, para evoluir na carreira, fazer esse feedback para poder melhorar. Acredito que desta forma, a categoria possa se valorizar mais. Então, essa é a parte que me moveu até esse momento. Porém, o que me fez refletir também, em função disso, em ter os trabalhos interrompidos na metade ou no desenrolar deles, em início do ano, todas as expectativas dos grandes clubes são sempre pautadas em cima das conquistas e resultados imediatos pelo time. Assim que a temporada vai passando, essas expectativas vão diminuindo. Você pega um trabalho na metade do ano ou no início do Brasileiro, por vezes você não alcança o título no final da temporada, mas você tem o teu trabalho avaliado positivamente, porque os objetivos que foram revistos, foram conquistados. Se não o título, mas uma vaga na Libertadores, livrar do rebaixamento ou alcançar uma colocação mais próxima dos líderes ou renovar um grupo de trabalho, então, isso me fez refletir com relação a isso. Até porque, cada vez mais e, principalmente, pela forma como mudou o calendário, com a Copa do Brasil e Libertadores, que eram decididas na metade do ano, e quando você as conquistava, pegava um fôlego para o final do ano, elas foram transferidas para o final e esse ano foi o ano que mais se demitiu treinadores e isso vai acontecer mais vezes porque agora a possibilidade de vencer títulos na metade do ano, não existe mais. Por vezes, quando você inicia o Brasileiro, que é duro, por uma equipe que é postulante ao título, você não vai vencê-lo no primeiro turno e isso faz que essas instabilidades possam gerar uma pressão que pode terminar no desligamento do clube.

É ruim para a categoria dos técnicos, um profissional pular de clube em clube?

Cada um sabe onde aperta seu calo. Cada pessoa entende das suas necessidades. Não quero pautar ninguém. Só quero falar o que eu entendo que é bom para mim. Eu vejo a necessidade de, ao fim de um trabalho, poder fazer um balanço, incorporar e incrementar algo a ser evoluído e estudado para os próximos compromissos. Também para descansar, porque não me vejo saindo de um clube no domingo e assumindo outro, logo em seguida. Agora, tudo isso vai melhorar, no dia que nós organizarmos nosso calendário. Grande parte desta instabilidade e todas as consequências do nosso futebol, parte do calendário extremamente desorganizado.

Depois do Palmeiras, quiseram te contratar?

Teve umas sondagens, sim. O mercado de uma certa forma já foi comunicado das minhas decisões e não foi a primeira vez. Foi assim desde que eu saí do Grêmio, que eu adotei essa postura. A aproximação não acabou acontecendo em função desta minha decisão. Agora, se haverá essa aproximação em janeiro, eu gostaria né(risos), mas prefiro não dizer o clube.

O Grêmio do Renato, tem muito de você?

Como eu disse na resposta relacionada ao comentário do Felipão. A gente sempre deixa algo, quando você fica um ano e meio à frente do clube. O Renato, durante dois anos, implementou sua forma de trabalhar e conquistou muitos títulos. Eu sou suspeito para falar do Renato porque eu fui jogador dele, fui auxiliar dele por duas vezes, aprendi muito com ele e tenho certeza que esses dois anos que o Grêmio venceu, venceu porque ele colocou todas suas virtudes à frente do clube.

Ouça a entrevista na íntegra:

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