Nascido na Alemanha, cria do Bangu vira sensação em Portugal

Marcus Alves
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GUIMARAES, PORTUGAL - JANUARY 31: Rodrigo Pinho of CS Maritimo in action during the Liga NOS match between Vitoria Guimaraes SC and CS Maritimo at Estadio Dom Afonso Henriques on January 31, 2021 in Guimaraes, Portugal. Sporting stadiums around Portugal remain under strict restrictions due to the coronavirus pandemic as government social distancing laws prohibit fans inside venues resulting in games being played behind closed doors. (Photo by Octavio Passos/Getty Images)
Rodrigo Pinho durante jogo do Campeonato Português (Octavio Passos/Getty Images)

LISBOA (PORTUGAL) - Logo que se desembarca em Funchal, na ilha da Madeira, em Portugal, um detalhe chama a atenção: a onipresença de Cristiano Ronaldo para onde quer que se olhe. Em seguida, o número incontável de túneis espalhados pelos 600 km de sua rodovia. E, por fim, a reverência que existe para com um brasileiro que, por obra do acaso, nasceu na fria e pacata Henstedt-Ulzburg, na Alemanha, mas se criou verdadeiramente em Bangu, no Rio de Janeiro.

Ele tem nome e sobrenome: Rodrigo Pinho.

É o principal jogador do Marítimo, virou uma das maiores sensações do futebol português na atual temporada e, na última janela de transferências, com o seu contrato se encerrando em seis meses, teve o seu futuro disputado por diversos clubes.

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No fim das contas, após se consultar por diversas vezes com o seu pai e grande mentor, o ex-jogador Nando Pinho, que atuou por Flamengo e Inter, ele se decidiu pelo Benfica. Pesou, entre outros fatores, o contrato mais longo de cinco anos e o pagamento de luvas de 800 mil euros (R$ 4,9 milhões).

Os sete dígitos têm motivo de ser. Aos 29 anos, o atacante faz a grande temporada de sua carreira e desandou a marcar gols no campeonato local.

Foi parar, inclusive, na capa dos jornais esportivos do país.

A sua influência no Marítimo é tamanha que, ao fim do primeiro turno, ele ocupa o quarto lugar na tábua de artilheiros, com sete gols, atrás apenas do sucessor de Bruno Fernandes no Sporting, Pedro Gonçalves, 14, e da dupla do Porto, Sérgio Oliveira e Mehdi Taremi, 8. É em outro dado, no entanto, que Rodrigo se desvencilha de todos eles.

No total, o camisa 9 canhoto é responsável por 44% dos gols do seu time na Liga Portuguesa.

Em sua melhor fase, ele balançou as redes contra os três grandes, levou a equipe a brigar na parte de cima da tabela e a conduziu para as quartas de finais da Taça de Portugal. Com o também brasileiro Milton Mendes no comando, era um dos contos de fadas do país.

Ele durou exatamente até o momento em que Rodrigo acabou sendo afastado primeiramente com Covid-19 e depois com uma lesão, no mês passado. O Marítimo, então, despencou ladeira abaixo com quatro derrotas consecutivas e resolveu se fechar para tentar retomar o ritmo de outrora. Proibiu entrevistas, entre elas, a do seu goleador para a reportagem.

Agora de volta, Rodrigo quer aproveitar os últimos seis meses para fazer uma despedida à altura antes de partir em definitivo para Lisboa.

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O seu sucesso não chega a surpreender o pai, Nando, que defendia o Hamburgo na Bundesliga quando a esposa, Giselle, engravidou e o filho nasceu na Alemanha. Os três não ficaram nem um ano no país antes de voltarem ao Brasil. Ele se acostumou a frequentar vestiários ao lado de nomes como Zico, Júnior e Mauro Galvão no Rio.

A semente do futebol estava plantada, ainda que não tenha sofrido qualquer pressão para seguir o caminho dentro de casa.

“Nunca forcei nada. O Rodrigo sempre gostou de jogar bola, fez tudo por conta própria. Pegava a chuteira e saía pela rua. Quando notei que era mesmo sério o negócio, resolvi, então, dar uma ajuda, colocando ele no Bangu. Depois, com o tempo, passei a ser mais rigoroso e crítico, querendo sempre o melhor para o meu filho”, contou Nando.

Ao longo do percurso, houve momentos em que o atleta do Marítimo quase trocou a bola pelos estudos. Ele chegou a fazer o curso de matemática e também de engenharia ambiental, porém, o esporte falou mais alto.

Em 2011, Rodrigo foi artilheiro do Carioca Sub-20 com o Bangu, com 20 gols, e ganhou o seu primeiro contrato profissional. A partir dali, imaginava que iria deslanchar, mas um problema grave no joelho, logo em sua primeira partida no time principal, retardou a sua explosão. Ele teve de esperar até a ida para o Madureira, em 2015, quando brigou com Fred, do Fluminense, e Alecsandro, do Flamengo, pelo posto de goleador para, enfim, se sobressair no estadual e selar a ida para fora.

“O melhor dele é a finalização, é a sua maior qualidade. Sempre teve esse faro de gol, bate muito bem na bola. Está pronto para estourar na carreira, vejo que agora é a hora certa. Está preparadíssimo para assumir toda e qualquer responsabilidade”, concluiu Nando.

Depois de conquistar a terra de Cristiano Ronaldo, Rodrigo se prepara para outros desafios no continente dessa vez.