Estudante e ex-candidato sonha com medalha no para esqui cross-country

Robelson durante período de treinos na Europa (Foto: Reprodução)
Robelson durante período de treinos na Europa (Foto: Reprodução)

O testemunho de luta de Robelson Moreira Lula, de 28 anos, é algo comovente e inspirador. O atleta do para-esqui cross country poderia tomar rumos diferentes na sua jornada pessoal. Graças à força de vontade para viver e a crença evangélica (“guiado por Deus”, como diz) conseguiu superar as barreiras. E acima de tudo: ter colocado o esporte como instrumento para tocar de outra forma os problemas e sequelas de um câncer que teve aos 11 anos.

O paraibano de Juru, que vive na cidade de São Carlos (interior paulista), necessitou amputar a perna direita acima do joelho. “Não foi nada fácil para um adolescente ter de passar por quimioterapia, sentir muita fome e enfrentar processos dolorosos e incômodos como a alimentação contínua por sonda”, lembra o estudante de Educação Física na UNICEP (Centro Universitário Central Paulista).

Ex-candidato a vereador pelo partido Cidadania na mesma cidade onde vive, será um dos seis nomes da modalidade que disputará os Jogos Paralímpicos de Inverno entre 4 e 13 de março. Será a primeira participação de Robelson, conhecido como Robinho, na mega competição. Da Suécia, onde estava, concedeu entrevista exclusiva. Depois de competir no Mundial na Finlândia, no ano passado, seria a vez da Itália.

Robinho se classificou com 91 pontos, o que garantiu sua ida junto com o Time Brasil à disputa. Ele está há apenas quatro anos praticando a modalidade na neve. Entre as de neve existem ainda o snowboard, esqui alpino e biatlo. Já os esportes de gelo são para hóquei e curling em cadeira de rodas.

A iniciação no cross-country de Robelson se deu após participar de uma palestra na UNICEP ministrada pelo coordenador da CBDN (Confederação Brasileira de Desporto na Neve), o ex-esquiador Leandro Ribela. O estímulo o levou ao projeto Brasil na Neve. E vieram as primeiras viagens conhecendo, por exemplo, Vuokoatti, no mundial da Finlândia. Foi considerado revelação nas temporadas 2018/2019 e número 1 do ranking nacional no para rollerski (esqui sobre rodas). Antes do esqui cross-country, iniciou na natação e participou de modalidades paraolímpicas handebol de cadeirantes e atletismo (saltos).

Patrocínio

O desempenho nestes jogos pode representar também divulgação pessoal, pois Robelson não tem patrocínio. Suas viagens e despesas são custeadas pela CBDN da qual recebe o bolsa-atleta. E da UNICEP o apoio em bolsas de estudo. Para disputas extras no exterior precisa viabilizar do próprio bolso.

Sua tentativa de entrada na política visava o cargo de vereador voltado à plataforma de projetos para deficientes e divulgação do esporte por diversos bairros, espalhando assim um programa em várias frentes. Não foi feliz no seu intento apesar do esforço, chegando a suplente de vereador. Seu mantra pessoal é sempre praticar esporte como forma saudável. E ser orientado pela força divina. Ele alerta também as pessoas interessadas. “O esporte de alto rendimento exige muitas variáveis, o que não é fácil especialmente para quem carece de recursos”. Por isso precisa contar com apoio para a manutenção em competições. “É preciso ir além de gostar muito”, avalia o paratleta.

Pela sua classificação funcional (w12-2), Robelson disputa as provas na classe (de cadeira adaptada com par de esquis). Os treinos são executados no asfalto com o sit ski (desenvolvido para pessoas com limitações de movimentos inferiores e evoluem para adaptado a quem tem amputações em membros).

Nos treinos, a dedicação é integral em dois períodos cada dia da semana. Atrapalhado pela pandemia em 2020, ele utilizou o esqui erg (equipamento simulador de esqui que pode ser adequado tanto para foco cardiovascular quanto de força). E na parte superior fortalece com exercícios aeróbicos. Além, deste trabalho, treina no asfalto com o rollerski (esqui em rodas). Algo que pode ser contestado, mas alternativa também adotada por atletas de outros países. O diferencial fica mesmo por conta da participação nas provas internacionais que gabaritam o competidor.

Ele elenca uma série de procedimentos além dos treinos propriamente ditos para começar a pensar em êxito. Por exemplo: chegar dias antes das competições; estar bem agasalhado, aquecido e observar a condição de pista e da neve (leve ou pesada). São dicas focadas no bom resultado. Segundo o paraleta, que também trancou matrícula na Faculdade de Educação Física pensando na dedicação integral, “só assim teria mais chances em conquista”. Seu suporte ainda vem de atendimento especializado em nutrição e do lado emocional com psicólogos.

Sem se esquivar, diz nunca ter sofrido preconceito de qualquer natureza. Robinho, no entanto, destaca algo que julga mais relevante no momento: a importância de estar imunizado com três doses e vários cuidados no combate à Covid-19, especialmente com a presença da variante Omicron.