Rival da Seleção em sua estreia na Copa, Sérvia tem história marcada por conflitos


Em sua terceira Copa do Mundo como uma nação independente, a Sérvia, que é a primeira adversária do Brasil, possui um histórico de conflitos em uma região marcada por muitas rivalidades internacionais. Um dos territórios pertencentes à antiga Iugoslávia, o país já foi império, reino e também passou por domínios estrangeiros.

AS MUDANÇAS ENTRE O PERÍODO MEDIEVAL E O MODERNO

A fundação da Sérvia remete ao ano de 610 a.C, na Idade Média. Neste período, a Sérvia foi um reino por dois séculos até tornar-se um estado medieval por 150 anos. Depois disto, se tornou um império. No século XII, o reino sérvio teve um curto apogeu. Porém, após seu declínio, a região foi tomada pelos otomanos em 1389 e, a partir de 1459, foi anexada ao Império Turco-Otomano.
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Em cinco séculos sob controle do Império Turco-Otomano, a região sérvia sofreu três invasões austríacas. O domínio Otomano chegou ao fim após uma revolta sérvia.

O país voltou a ser um principado a partir de 1815, semi-independente do Império Turco-Otomano. Só em 1878 conquistou sua independência e, quatro anos depois, voltou a ser um reino. O Tratado de Berlim tornou a Sérvia independente, assim como com Montenegro. Já Bósnia e outras nações foram controladas pelo Império Austro-Húngaro até um conflito ocorrido entre 1912 e 1913.

Professor de Relações Internacionais da UERJ, Paulo Velasco apontou onde houve os primeiros conflitos na região dos Bálcãs. A Sérvia desempenhou um papel importante no desencadeamento da Primeira Guerra Mundial.

- Para entender o surgimento da Sérvia como estado soberano independente, temos de olhar um pouco para a realidade histórica nos Bálcãs. É uma região onde já no início do século XX havia disputas muito fortes, intensas de caráter nacionalista. A própria Primeira Guerra Mundial teve como estopim estas disputas nos Bálcãs. O exemplo mais nítido é o assassinato do príncipe austríaco Francisco Ferdinando (o príncipe do Império da Áustria-Hungria e sua esposa Sofia foram assassinados em um atentado em Sarajevo, na Bósnia) - disse, ao LANCE!.

Tito
Tito

Marechal Tito foi o líder da Iugoslávia por 50 anos (AFP/arquivo)

Nem mesmo o fim da Primeira Guerra Mundial foi suficiente para fazer com que a situação na região dos Bálcãs se tornasse mais amena. Em 1918, se formou o reino da Iugoslávia. Em 1941, ocorreu um golpe de estado, que elevou Pedro II ao posto de no novo rei.

- O pós-Primeira Guerra é um período de intensas lutas entre sérvios, bósnios, croatas... Há uma realidade historicamente de tensões e de rivalidades de caráter étnico, nacionalista que marcam aquele período - declarou Velasco.

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Neste período, os sérvios se tornaram os mais importantes para a Iugoslávia (do mesmo modo que a Rússia foi para a União Soviética). A região foi praticamente o epicentro do estado iugoslavo. O país esteve envolvido na Segunda Guerra Mundial e Belgrado, que é sua capital atual, foi bombardeada pela Alemanha no período Nazista.

- Havia clara prevalência territorial, populacional e militar. A Sérvia dava robustez à Iugoslávia e tinha nítida ascendência sobre as demais províncias - disse.

A aparente união da Iugoslávia ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. O professor de Relações Internacionais da UERJ apontou que uma figura política foi relevante para isto.

- Durante a Guerra Fria a Iugoslávia ficou sob o comando do Marechal Tito (Marechal Josip Biroz Tito). Ele conseguiu, numa lógica de "mão de ferro" manter aquelas províncias unidas sob o mesmo estado, um mesmo governo, como a antiga Iugoslávia - declarou Paulo Velasco, acrescentando:

- Porém, as rivalidades e disputas de caráter étnico, religioso e nacionalistas se mantiveram latentes e voltaram a eclodir depois do fim da Guerra Fria - completou.

Slobodan Milosevic - ex-presidente da Sérvia e da Iugoslávia
Slobodan Milosevic - ex-presidente da Sérvia e da Iugoslávia

Slobodan Milosevic presidiu a Sérvia entre 1989 e 97 (Foto: Reprodução/TV)

O declínio do bloco socialista, contudo, se tornou crucial para que houvesse reviravoltas na região dos Bálcãs. Pouco a pouco, os povos que formavam a Iugoslávia entraram novamente em atrito e alguns países foram se tornando independentes.

- O fim da Guerra Fria e, naturalmente, o fim daquele período do marechal Tito, se tornou uma oportunidade para aqueles povos buscarem se afirmar como um estado soberano de independência. Temos na década de 1990 um cenário de guerras. A Guerra da Bósnia é a mais importante neste contexto, mas temos conflitos ali em outras áreas - declarou Paulo Velasco.

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Gradualmente, houve a dissolução da Iugoslávia em outros países. Surgem a Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovênia... Muitos deles já entraram na União Europeia e inclusive aderiram à OTAN. Em 2003, inicialmente existia o país Sérvia e Montenegro. Paulo Velasco detalhou o que pesou para esta união inicial entre sérvios e montenegrinos.

- Trata-se de uma prática comum para aplacar movimentos nacionalistas. Concede-se autonomia relativa, mas não soberania. É uma forma de preservar a integridade territorial. Algo semelhante se vê entre China e Taiwan, por exemplo - afirmou.

guerra na bosnia
guerra na bosnia

Guerra da Iugoslávia marcou o país na década de 1990 (AFP)

Na Copa do Mundo de 2006, Sérvia e Montenegro protagonizaram uma situação insólita. Na estreia diante da Holanda, em 16 de junho, o país já não existia mais. Um referendo ocorrido cerca de um mês antes havia definido a separação de sérvios e de montenegrinos.

- Os montenegrinos corriqueiramente se percebiam como uma espécie de subgrupo dessa etnia-nacionalidade. Por isto, houve esta decisão dos montenegrinos - destacou o especialista em Relações Internacionais.

Em sua única participação (foi eliminada na primeira fase, com três derrotas), o país Sérvia e Montenegro teve apenas dois atletas montenegrinos e o restante dos convocados formados por sérvios.

Porém, a região da Sérvia ainda passa por outros conflitos internos que rendem preocupação.

- A própria Sérvia teve um cenário de conflagração muito importante. Houve a violência aplicada por Milosevic contra os albaneses kosovares. O Kosovo se tornou independente, embora outros países não o reconheçam - disse Paulo Velasco.

A seleção da Sérvia inicia na quinta-feira (24) sua terceira participação em uma edição na Copa do Mundo. E, assim como em 2018, terá o Brasil e a Suíça pela frente.