Rivais históricos, Newcastle e Sunderland estão agora separados por um rio de dinheiro

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O relógio marcava 32 minutos do segundo tempo e o Manchester City ganhava por 3 a 0 do Newcastle United pela Premier League no último dia 19. O placar não era fiel à facilidade que os comandados de Pep Guardiola encontravam em campo.

Alheia a tudo isso, a torcida da casa no estádio St. James Park se levantou e começou a gritar:

"Foda-se Man City, nós somos mais ricos que vocês."

Um dia antes, o Sunderland havia jogado fora de casa diante do Ipswich pela League One, a terceira divisão inglesa.

"Como é ser Geordies? Como é ser pequeno? Como é não ganhar nada?", cantavam os visitantes, em uma paródia da música "This Is how to feel", da banda Inspiral Carpets.

Geordies é como são conhecidos os habitantes de Tyneside, onde Newcastle está localizado.

Encravados no norte da Inglaterra, próximos à fronteira com a Escócia, os times protagonizam uma das maiores rivalidades do futebol mundial. Uma animosidade de séculos entre as duas cidades que têm raízes no século XVII, quando ficaram em lados opostos na Guerra Civil Inglesa. O sentimento encontrou no futebol a válvula de escape perfeita.

"É uma rivalidade gigantesca. Você tem de vivê-la para entender. Eu participei de vários clássicos e nunca vi nada igual nem mesmo depois que parei de jogar. Quando a gente ganhava do Sunderland, virávamos os donos da cidade", afirma o meia Lee Clark. Ele jogou pelos Geordies por dez anos e hoje é treinador.

Durante as Olimpíadas de Londres, em 2012, o Brasil enfrentou a Nova Zelândia no St. James Park. Depois da partida, um jornalista brasileiro foi hostilizado por torcedor do Newcastle. Ao ver o repórter com uma camisa vermelha e branca, as cores do Sunderland, achou que ele vinha da cidade vizinha.

"Havia certo equilíbrio. Mas agora a tendência é que isso acabe. Quer dizer, se o Sunderland voltar à Premier League", completa Clark.

A raiz da afirmação do ex-jogador é a mesma do grito da torcida do Newcastle contra o City. Em outubro, o clube foi comprado pelo fundo soberano da Arábia Saudita por 300 milhões de libras (R$ 2,26 bilhões pela cotação atual). A equipe pertence agora, na prática, à família real do país, com patrimônio avaliado em US$ 500 bilhões (R$ 2,8 trilhões).

Seria até possível, até então, vislumbrar um encontro entre os rivais em 2022. O Newcastle é o penúltimo colocado da Premier League e corre risco de rebaixamento. O Sunderland está em segundo na 3ª divisão e briga para subir.

A expectativa geral é que a situação melhore para o Newcastle em janeiro, na primeira janela de transferências do clube depois de ganhar na loteria e virar o mais rico do planeta. Espera-se que reforços sejam contratados para tirar o time da zona de rebaixamento.

"Aconteceram questionamentos sobre de onde vem o dinheiro da compra do Newcastle. Mas não acho que os torcedores estão muito preocupados com isso", constata o atacante Ally McCoist, que atuou no Sunderland nos anos 1980.

A venda do time se tornou polêmica porque a Arábia Saudita é uma monarquia absolutista. Não há democracia na nação e organismos como a Anistia Internacional denunciam falta de respeito aos direitos das mulheres, comunidade LGBTQIA+ e desrespeito aos direitos humanos.

O Manchester City pertence a empresa subsidiária do fundo soberano dos Emirados Árabes, país que também recebe críticas semelhantes.

"Se você olhar o histórico, sempre houve equilíbrio nos confrontos. Isso é o que torna Sunderland e Newcastle um dos maiores clássicos da Europa. Mas se são equipes parecidas na história e na tradição, agora parecem ir em direções opostas", analisa McCoist.

O primeiro confronto entre os rivais aconteceu em 1898. São 155 partidas no total, com 53 vitórias para cada e 49 empates.

Os dois partilham sofrimentos em campo. O Sunderland tem seis títulos de primeira divisão (o mais recente em 1936). O Newcastle venceu quatro vezes, mas não levanta o troféu desde 1927. Sua última taça de expressão é Copa da Uefa de 1969.

Para o Sunderland, é a Copa da Inglaterra de 1973.

Até a negociação com o fundo soberano da Arábia Saudita, os rivais compartilhavam também problemas com dirigentes. Os torcedores do Newcastle detestavam o empresário Mike Ashley, dono do clube. O Sunderland entrou em crise financeira que o fez ter diferentes proprietários, sair da Premier League e cair para a terceira divisão.

O Newcastle é considerado um gigante adormecido do futebol britânico. Apesar das poucas vitórias, leva cerca de 50 mil torcedores a cada rodada ao seu estádio. O seu inimigo se tornou mais conhecido, nos últimos anos, pela série do Netflix, Sunderland 'Till I Die (Sunderland até eu morrer, em inglês), que mostra os bastidores do time e suas desilusões, que não são poucas.

No final da segunda temporada, após a derrota na final do playoff que impediu o acesso do time para a segunda divisão, uma torcedora do Sunderland fala, às lágrimas, ao ver a festa do Charlton após fazer o gol da vitória aos 49 do 2º tempo:

"Por que nunca somos nós quem comemoramos?"

Era uma frase que unia, na dor, os rivais históricos. Mas agora o Newcastle pode mudar isso.

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