Retrospectiva Bolsonaro: Você lembra o que o presidente fez em dezembro?

(Foto: AP Photo /Eraldo Peres)
(Foto: AP Photo /Eraldo Peres)

por Anny Malagolini

O 2019 que começou com “Ninguém solta a mão de ninguém” termina com “Você que lute”. Este foi o ano que o Brasil não tirou os olhos da presidência de Jair Bolsonaro – que teve que lidar com os muitos lados de uma laranja –, e a política brasileira chamou atenção ao redor do mundo. Boa parte das expectativas daqueles que esperavam um governo brutal não se concretizou. A retrospectiva de dezembro mostra que o mês não fugiu a regra. 

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Assistimos à turbulência das questões ambientais, com a alta do desmatamento, queimadas na Amazônia e óleo no litoral. Em meio ao caos climático, o fato que mais gerou interesse foi a preservação do meio ambiente e a protagonista do assunto, a ativista ambiental Greta Thunberg, de 16 anos, foi eleita a personalidade do ano pela revista Time um dia após ter sido chamada de “pirralha” pelo presidente brasileiro. No final das contas, Greta Thunberg é uma “pirralha” com cabeça de adulta. Jair Bolsonaro é um adulto com cabeça de pirralho. 

O pirralho grandão falou o que falou, mais uma vez, diante do Palácio da Alvorada, onde costuma ficar tirando selfies com meia dúzia de gatos pingados de apoiadores. Cercado pela imprensa, ele se irritou com perguntas sobre o assassinato de dois indígenas no Maranhão. “Qual o nome daquela menina lá de fora? Greta! Já disse que índios estão morrendo porque defendem a Amazônia. Impressionante a mídia dar espaço para uma pirralha dessa aí, uma pirralha”.

Depois disso, a ativista sueca atualizou a definição de seu perfil no Twitter para "pirralha". O problema de Bolsonaro é que a adolescente representa o antídoto daquilo que ele defende: desmatamento, queimadas, desprezo total pelos indígenas, repúdio à preservação do meio ambiente. Mas na cruzada contra o meio ambiente, Bolsonaro perdeu. 

Mas o presidente chegou ao fim do primeiro ano de mandato dizendo que “a esperança voltou ao Brasil”, após um período de “crise moral” e que o ano termina “sem qualquer denúncia de corrupção” e que “o mundo voltou a confiar no Brasil”.

Chocolate com laranja

Mas a sombra de corrupção ainda atingia o clã Bolsonaro com a retomada das investigações do Caso Queiroz. Enquanto a pirralha virava gente grande, Flávio Bolsonaro dava trabalho para o pai. O filho 01 é acusado de ter chefiado uma organização criminosa que lavava dinheiro e desviava dinheiro público, de acordo com investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro. 

O político teria comandado um esquema de “rachadinha” em seu gabinete de deputado estadual, que consiste na devolução integral ou em parte dos salários dos funcionários ao parlamentar. O dinheiro chegava aos mãos do policial militar aposentado Fabrício Queiroz e outros ex-assessores, na tentativa de despistar o crime. 

O MP afirma também haver indícios de que a loja de chocolates primogênito do clã Bolsonaro tenha sido utilizada para lavagem de recursos ilícitos provenientes do esquema da organização criminosa. O desempenho de Flávio Bolsonaro com a compra e venda de imóveis e a chocolateria era espetacular e acumula milhões; um salto para quem começou na vida política declarando um automóvel do modelo Gol 1.0, ano 2001, no valor de R$ 25.500. Talvez, a sobremesa do natal deste ano não tenha sido tão doce assim. E não foi por falta de laranja. 

A história azedou o presidente, que reagiu com agressividade ao ser questionado pela imprensa sobre as suspeitas em torno de seu filho. Jair Bolsonaro respondeu a um repórter de forma agressiva: “Você tem uma cara de homossexual terrível, nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”, retrucou o presidente.

Podia ser mais um daqueles discursos caricatos de Bolsonaro, sempre disposto a atingir a imprensa e atacar direitos comunidade LGBT, mas se assemelhava ao medo de um fantasma que, de forma cíclica, ronda a família presidencial. 

Bolsonaro também reuniu dificuldades de articulação política que levaram o governo federal a sofrer reveses em matérias consideradas bandeiras de campanha, como os decretos que flexibilizavam o porte de arma. Para 2020, ainda deve passar pelo Congresso a pauta sobre prisão em segunda instância, mudanças na CNH, ensino domiciliar e escola sem partido.

Apesar do discurso contrário ao viés ideológico, não foi isso que o presidente mostrou até aqui. Seus secretários foram escolhidos entre evangélicos e católicos militantes, contrários aos direitos LGBT e ao aborto. Bolsonaro ainda conseguiu reunir ministros que pensam como ele. O Meio Ambiente de Ricardo Sales confronta ONGs, relativiza problemas ambientais, enquanto Damares Alves conduz a pasta conforme o presidente quer ao defender a ‘família brasileira’. Abraham Weintraub, da Educação, tem posições ideológicas barulhentas como Bolsonaro, contudo, seu futuro no governo é frágil. 

A afeição maior de Bolsonaro é pelo ministro Sérgio Moro, que apesar da imagem desgastada com as mensagens vazadas do Telegram neste ano foi eleito uma das 50 pessoas que marcaram a década pelo jornal “Financial Times”, justificada a escolha pela liderança do então juiz na Lava Jato. Inclusive, é dele o conjunto de medidas que endurecem a legislação contra o crime, apelidado de “Pacote Anticrime”. 

A medida tira, por exemplo, o direto à saída temporária de presos condenados por crimes hediondos que resultam em morte. Entre outros pontos, o pacote amplia de 30 para 40 anos o tempo máximo em que uma pessoa pode ficar na prisão. Bolsonaro já está de olho em 2022 e não descarta uma chapa com Sérgio Moro; um ‘adiós’ ao General Mourão, que na corrida eleitoral foi sua quarta opção.

Quando Paulo Guedes assumiu a economia, as expectativas do mercado eram positivas com sua promessa de implantar um plano neoliberal. A recuperação econômica até deu sinais de vida, mas muito distante dos dados distorcidos apresentados por Bolsonaro em seu discurso de fim de ano. O ciclo econômico de 2019 se encerra com poucas ações concretas, frustrando quem esperava uma guinada.

O desemprego, tão citado pelo presidente em suas bravatas contra as gestões petistas, esteve entre os assuntos de maior interesse entre os brasileiros e o termo “vagas disponíveis” apareceu entre os mais buscados no Google neste ano. O retrato do Brasil em 2019 é a alta informalidade, que bateu sucessivos recordes enquanto os brasileiros buscavam uma ocupação no trabalho por conta própria, totalizando 38 milhões de pessoas sem emprego. 

Pátria Armada, Brasil 

As guerras, as armas e a ideologia andam lado a lado no discurso de Bolsonaro. Talvez por isso o silêncio diante as mortes de 9 jovens durante uma ação policial na favela de Paraisópolis, em São Paulo, no início de dezembro. O presidente se limitou a dizer dias depois que lamentava a morte de inocentes, na portaria do Palácio do Planalto, enquanto atendia apoiadores e só. 

Já o filho Eduardo Bolsonaro, que queria ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, publicou um vídeo em seu perfil do Twitter, onde oferece “total apoio” à Polícia Militar e afirma que frequentar bailes como o de Paraisópolis aumenta a probabilidade da vida ficar em risco. O político conclui o vídeo com um conselho para os mais jovens: “Quer preservar sua vida? Frequente outros lugares”.

A aposta na radicalização ideológica e o ultraconservadorismo empurraram Jair Bolsonaro ao Planalto e se tornaram o cartão de visita do governo, mas a receita já não faz sucesso na hora de governar e tem caído em desaprovação a cada pesquisa. Em dezembro, chegou a 38%, mostrando que um aspecto continua o mesmo desde a sua eleição: o país continua dividido. 

É que Bolsonaro veio com uma narrativa repleta de imprecisões, distorções e mentiras diretas, de acordo com verificadores de fatos. Em vez de uma força de unidade ou uma voz calma em tempos turbulentos, a presidência agora é outra arma em uma campanha permanente de divisão. Ele é o 38º presidente do Brasil, mas passou grande parte de seu primeiro ano no cargo desafiando as convenções e normas estabelecidas pelos 37 anteriores e transformando a presidência de maneiras que antes eram inimagináveis.

O 2019 foi tão do contra que entre os números escolhidos por Jair Messias Bolsonaro para a Mega da Virada está o 13. Esse foi o primeiro ano do primeiro presidente de extrema direita a assumir o comando do Brasil desde a ditadura e 2020 promete ser de pernas para o ar. 

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