Retrospectiva 2019: ‘O outro campeão’: Sainz enfim ganha posto de piloto de ponta

EVELYN GUIMARÃES

Carlos Sainz chegou à Fórmula 1 pela mesma mão que trouxe Max Verstappen. Bem menos badalado que o holandês, apesar do pai famoso e multicampeão no rali, o espanhol teve de cavar aos poucos seu espaço no grid e ganhar o respeito de seus pares e do paddock. Carlos ainda teve de lidar com a incômoda preferência da Red Bull por Max e com o fato de a marca austríaca ter acedido em renunciar a seus serviços para que fosse possível costurar o acordão entre Honda, Renault e McLaren. Com isso, Sainz acabou deixando a Toro Rosso antes do fim da temporada de 2017, para juntar à equipe francesa, onde permaneceu até o ano passado. Mas aí Fernando Alonso decidiu deixar a equipe de Woking, abrindo uma oportunidade que, na época, não parecia das mais promissoras. Afinal, o icônico time inglês vinha de campeonatos muito fracos, mesmo depois do fim da parceria com os japoneses. Era como se Sainz estivesse trocando seis por meia dúzia, além do risco de estagnar a carreira – a saída do bicampeão era um sinal. Só que o jovem viu um cenário diferente. E de fato, o jogo virou rapidamente em 2019. A real é que o #55 soube aproveitar o momento. Certamente, a experiência de tantas reviravoltas o fortaleceu e o fez enxergar mais claramente o que deseja ser na F1. O resultado está no título de ‘melhor do resto’ conquistado neste ano.

"É ainda melhor", respondeu Sainz ao ser questionado pelo GRANDE PRÊMIO se a McLaren era tudo que esperava. De fato, Carlos caiu como uma luva na nova estrutura desenvolvida pela esquadra chefiada por Zak Brown. A verdade é que o espanhol teve paciência para entender o momento de transição vivido pela equipe e tirou proveito de tudo. Enquanto a McLaren trazia gente de peso para a área técnica, como Andreas Seidl, que fez a Porsche campeã no Mundial de Endurance, e James Key, ex-Toro Rosso, o jovem se aliou ao novato Lando Norris, e ambos criaram uma atmosfera leve e descontraída dentro das garagens, o que mudou a cara carrancuda da escuderia britânica e ajudou no vertiginoso crescimento do time em 2019.

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Dentro dessa proposta, Carlos acabou por se firmar como um líder na McLaren, ainda que o início do campeonato não tenha sido dos melhores, com uma quebra logo de cara, na Austrália e no Bahrein. A China foi uma etapa também longe do ideal, mas a coisa engrenou a partir do Azerbaijão, com a conquista dos primeiros pontos de um sétimo posto. Depois, veio uma sequência de corridas no top-10, entre Espanha e Hungria – apenas no Canadá, Sainz ficou fora da zona de pontuação. Destaques para dois quintos lugares: na caótica corrida em Hockenheim e em Hungaroring, uma semana depois. Quer dizer, junto com a recuperação absurda da equipe inglesa, havia ali também um ótimo piloto.

Lando Norris e Carlos Sainz tornaram o ambiente no time menos estressante (Foto: McLaren)


A segunda fase do campeonato teve um início frustrante novamente: dois abandonos, na Bélgica e na Itália, além de um apagado 12º em Singapura. A coisa não ia nada bem na McLaren nesta parte da temporada, apesar das atualizações do carro e de uma nova versão do motor Renault. Porém, o cenário de novo mudou. Com exceção do GP do México, Sainz voltou bem à zona de pontos, com desempenhos mais fortes em classificação, além de um ritmo consistente em corrida.

O ponto alto da temporada foi, claro, o pódio no GP do Brasil. Interlagos testemunhou uma das melhores atuações do jovem espanhol. Largando da última posição do grid, Sainz foi rápido e consistente, fez uma leitura precisa da prova e tirou proveito de cada incidente. No fim, acabou beneficiado pela punição dada a Lewis Hamilton pelo toque com Alex Albon a duas voltas do fim. A festa no pódio improvisado depois refletiu toda a confiança que a equipe deposita nele.

E na derradeira etapa de 2019, o madrilenho ainda obteve uma ultrapassagem no giro final para garantir a sexta colocação no Mundial de Pilotos. A posição é emblemática porque o infiltra no território da F1 A, uma vez que Albon e Pierre Gasly, ambos defendendo a Red Bull em diferentes fases da temporada, ficaram para trás.

Sainz, na verdade, poderia até ter feito melhor não fossem algumas falhas da McLaren, em termos de operação/estratégia, e a problemática confiabilidade da Renault. Mesmo assim, Carlos foi brilhante com o equipamento que tinha nas mãos e é justo que tenha sido o responsável por reconduzir o time de Woking ao pódio depois de cinco anos. Ainda que tenha perdido em posições de grid para colega Norris – 11 a 10 –, o espanhol foi mais regular, terminando o ano com 96 tentos, de longe sua melhor temporada na F1.

Festa da McLaren no pódio do GP do Brasil de Fórmula 1 (Foto: McLaren)


"Ainda existem muitas áreas em que temos de melhorar e seria um erro tremendo perder esse foco que conseguimos manter durante toda a temporada. Em termos de desempenho geral, sempre fomos uma das poucas equipes que mais lutaram para dominar o pelotão intermediário todo fim de semana e fomos recompensados com o quarto lugar no Mundial de Construtores. Além disso, terminar em sexto no Mundial de Pilotos, provavelmente, era impensável no início da temporada, por isso é ótimo alcançar nossos objetivos mais ambiciosos este ano", resumiu bem o piloto do carro #55.

De fato, Carlos foi além do esperado, mas não deveria ser uma surpresa. E se a McLaren tem o desejo de voltar a vencer na F1, o homem a fazer isso é Sainz, que agora prova, enfim, que é um piloto de ponta.


Paddockast # 45

OS MELHORES E OS PIORES PILOTOS DA F1 2019


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