Retrospectiva 2019: Em pior ano da história, Williams vive dias de Andrea Moda

FERNANDO SILVA

Exatamente no mesmo ano em que a Williams iniciou seu domínio na F1 com o FW14, o ‘carro de outro planeta’, a Andrea Moda tentava seu lugar ao sol no grid com um amadorismo poucas vezes visto na história da categoria. Coube ao valente Roberto Pupo Moreno o milagre de colocar a equipe italiana na sua única corrida no Mundial, o GP de Mônaco de 1992. De resto, o time foi um fracasso retumbante. A Andrea Moda, claro, saiu de cena pouco depois e entrou para os anais pelo seu folclore.

Quem poderia imaginar que, 27 anos depois, aquela Williams que entrou para a história como uma das mais vitoriosas equipes da F1, fosse viver um drama parecido com o da famigerada Andrea Moda? Foi o que aconteceu, de certa forma, desde os testes de pré-temporada. Um atraso no projeto do carro e no desenvolvimento das peças levou a lendária escuderia de Grove a ficar fora do início dos trabalhos em Barcelona. Fiasco total.

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Quando o novo FW42 foi à pista, a performance foi um horror. Na primeira sessão, com o carro ainda ‘virgem’, George Russell tomou quase 7s para Daniil Kvyat, o líder dos trabalhos do dia 3 de pré-temporada. Um começo nada animador de carreira para o prodígio britânico, que foi alocado na Williams pela Mercedes.


Seu companheiro de equipe, Robert Kubica, chegou sob a sombra da desconfiança por conta do longo tempo de inatividade na F1 e também pelas lesões severas sofridas no braço direito em decorrência do acidente que quase o matou em 2011 e comprometeu sua carreira nas pistas.

Os atrasos no projeto do FW42 não passaram batido. Paddy Lowe, que voltou à Williams em 2017 como diretor-técnico e acionista após passagem de sucesso pela Mercedes, deixou a função ainda em março.

Foi assim, em frangalhos, sem diretor-técnico, com um carro com baixíssima quilometragem e performance quase nula, que a Mercedes chegou à Austrália para abrir aquela que seria sua mais difícil temporada na F1.

Russell até que fez um papel bem aceitável considerando todas as condições e ficou ‘só’ 2s3 atrás do melhor tempo do Q1 em Melbourne. Kubica ficou bem mais atrás, 4s. Esta seria a tônica da temporada como um todo: o prodígio britânico muito melhor que o veterano polonês em ritmo de classificação. 

Na corrida, o único trabalho foi o de se manter na pista e abrir passagens aos mais rápidos com as inúmeras bandeiras azuis acenadas. Russell terminou em 16º e penúltimo entre os pilotos que completaram a prova, duas voltas atrás do vencedor, Valtteri Bottas. Kubica foi o último, com três voltas de desvantagem.

George Russell viveu um duro ano de aprendizado em sua estreia na F1 (Foto: Williams)


Como desgraça pouca foi bobagem, a Williams ainda teve de conviver com o azar. No fim de semana do GP do Azerbaijão, uma tampa de bueiro solta em uma das ruas de Baku atingiu o assoalho do carro de Russell e causou avarias graves até no motor. Na classificação, para completar o cenário horroroso, Kubica bateu.

Com pouco dinheiro em caixa e sem a perspectiva de se associar a uma montadora ou fazer da Williams uma equipe B, algo veemente rejeitado por Claire Williams, restava à equipe de Grove, outrora gloriosa, se arrastar no grid. Para Russell, mesmo no fim do pelotão, era a chance de acumular um aprendizado importante, mesmo a duras penas. Kubica, contudo, não escondeu a sua insatisfação e insinuou que seu companheiro de equipe era favorecido.

Na esteira das reclamações de Robert, a Williams decidiu trocar o chassi do polonês. Na verdade, foi uma inversão, com Robert passando a usar o carro que era de Russell e vice-versa. Em Barcelona, palco do GP da Espanha, o primeiro com a troca de chassi, o britânico acabou com as dúvidas sobre o equipamento e enfiou 1s2 no companheiro de equipe no Q1, além de terminar na frente também na corrida.

O GP de Mônaco foi um raro momento em que a dupla da Williams conseguiu mostrar alguma performance em ritmo de corrida. As características da pista de Monte Carlo ajudaram, de certa forma, o FW42 a andar mais próximo dos carros concorrentes do meio do pelotão. E Kubica, mesmo com notórias dificuldades por conta das limitações, não fez feio e conseguiu terminar à frente da Alfa Romeo de Antonio Giovinazzi.

Durou apenas uma temporada o retorno de Robert Kubica à F1 (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)


Levou um bom tempo para a Williams ter algum motivo para sorrir. O insano GP da Alemanha, que teve até Lance Stroll liderando e Daniil Kvyat no pódio, foi a grande chance de a equipe pontuar. Russell vinha à frente de Kubica, mas cometeu um raro erro, por conta do asfalto molhado, e viu o companheiro passar. O polonês terminou a prova em 12º lugar, seguido pelo companheiro de equipe. 

Mas, horas depois, Kimi Räikkönen e Giovinazzi perderam o sétimo e oitavo lugares, respectivamente, por conta de um erro no ajuste de embreagem na largada. Assim, Kubica, de longe superado por Russell ao longo de todo o ano, herdou o décimo lugar e marcou o único ponto da Williams em 2019.

Na volta das férias de verão, a Williams conseguiu encaixar alguns resultados até razoáveis, sobretudo com Russell, que terminou à frente de Räikkönen no GP da Bélgica e superou não apenas o ‘Homem de Gelo’, mas também a Haas de Romain Grosjean em Monza. Foi graças a Grosjean, aliás, que Russell abandonou pela primeira vez na temporada, por conta de uma colisão. O primeiro abandono da Williams em todo o ano abriu uma série negativa.

Russell também abandonou o GP de seguinte, na Rússia, por conta de uma batida, ocasionada por uma quebrada suspensão. Na mesma corrida, voltas depois, Kubica foi chamado pela equipe via rádio para encerrar sua participação em Sóchi. Pouco depois, veio a notícia: o abandono foi motivado pela falta de peças sobressalentes. Uma vergonha. O cenário foi a gota d’água para o polonês, que semanas depois anunciou a sua saída da equipe ao fim da temporada.

O momento em que a Williams mais se aproximou da zona de pontuação até o fim do campeonato foi no não menos insano GP do Brasil, onde Russell finalizou em uma boa 12ª colocação. 

Kubica saiu de cena como um vitorioso por ter contrariado todas as expectativas e ter voltado à F1 depois de quase todo mundo ter dado sua carreira na categoria como encerrada. Nas pistas, porém, não foi nem sombra daquele piloto que despontou como futuro campeão do mundo. Levou de 21 a 0 do companheiro de equipe em classificações.

Russell, ao contrário, conseguiu notável destaque mesmo correndo no fim do grid e tendo um parâmetro de referência pouco conclusivo. Mas o britânico conseguiu aprender lições importantes, que só são aprendidas em momentos de sofrimento, o que pode ser de grande valia para a sua sequência na F1.


No fim do ano, Claire Williams anunciou Nicholas Latifi para ser o novo titular, substituindo Kubica, em 2020. Na prática, a chegada do novato canadense, visto como uma espécie de novo ‘Lance Stroll’ por também contar com um pai bilionário, reforça o caixa de Grove, mas, ao mesmo tempo, reafirma a única motivação de momento de quem um dia foi grande na F1: somente sobreviver. Nem que seja de maneira constrangedora.

 

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