Retrospectiva: 10 anos de domínio brasileiro no surfe mundial

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Neste exato instante começava a dinastia brasileira no surfe na década
Neste exato instante começava a dinastia brasileira no surfe na década

A década se encerra, e se neste período o surfe mundial pudesse ser definido em uma palavra ela seria Brasil. Afinal, nunca fomos tão vitoriosos e, desde o futebol, não tivemos tamanho domínio em uma modalidade. 

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Os números explicam. Em 2009, na oitava etapa em Mundaka (ESP), Adriano de Souza conseguiu seu maior trunfo - até então - vencer Kelly Slater nas semifinais e, de quebra, vencer o Billabong Pro, em Mundaka. Desde então, o Brasil soma 35 títulos, com uma média de três títulos brasileiros por ano e, com exceção de 2012, todos os anos o Brasil ganhou alguma etapa. 

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No entanto, a tal Brazilian Storm tem tomado proporções assustadoras para australianos, havaianos e americanos. Nos últimos dois anos (22 etapas) a bandeira verde e amarela subiu ao pódio por 15 vezes. Nesta década, entre os sete campeões, quatro eram brasileiros. 

Este retrospecto aponta o efeito, mas a causa está longe da água. A geração que começou ganhando Jogos Mundiais da ISA (International Surfing Association) começou a brilhar no circuito mundial a partir de uma transformação do surfe em esporte competitivo. 

A Brazilian Storm ensaiava surgir com os títulos nos Jogos Mundiais com Medina e Filipe
A Brazilian Storm ensaiava surgir com os títulos nos Jogos Mundiais com Medina e Filipe

O Yahoo Esporte indica três pontos da última década que mudaram a história do surfe no país: 

:: INSTITUTO MAR AZUL

Não importa em qual idade, mas uma coisa é certa: todos os brasileiros campeões do WCT passaram pelo Instituto Mar Azul. E isso não é uma coincidência. Primeiro, paciente de Marcelo Baboghluian – o primeiro “paciente” que encabeçou a nova perspectiva de um surfista que se prepara, que treina o físico e o mental. Antes dele, eram raros os atletas que tinham alguma assessoria física ou psicológica. O surfe era tratado como o esporte que os atletas não tinham assessoria para condicionamento físico ou acompanhamento médico. 

“Os técnicos ligavam no meu consultório e perguntavam: ‘o que os surfista está fazendo aí? Ele tem que estar na água treinando, e não aí (…) E eles sabem que não existe mais aquela coisa de que surfista só surfa. Hoje eles são atletas profissionais e tem que ter disciplina”

Marcelo Baboghluian - em entrevista à Folha de São Paulo, 06/03/2016

Italo Ferreira (2016) começa o condicionamento físico
Italo Ferreira (2016) começa o condicionamento físico

A preparação para o mundial passou a reservar três horas por dia - dividido em dois períodos. Assim ele recupera a forma física e consegue manter a regularidade em sua perfomance durante o ano. O campeão mundial Italo Ferreira iniciou na segunda semana de janeiro. É comum ver nas redes sociais de Gabriel Medina postagens de seus treinamentos. A parte física é importante, pois em uma bateria de 30 minutos, o atleta surfa, de fato, em apenas seis minutos.

:: ABRINDO CAMINHOS

São vários os motivos para vencermos, mas o surfe competitivo parece ser um negócio de família. Não por coincidência, é comum que os pais também sejam técnicos ou, de alguma forma, estejam próximos ao trabalho do filho. Afinal, os técnicos dessa nova geração eram surfistas que disputavam baterias no passado. 

Ricardo Toledo, Leandro Dora e Wagner Pupo são exemplos dos pais, ex-surfistas profissionais e técnicos que ocupam uma função com know-how bem presente em Filipe, Yago e Miguel. Próximos ao ambiente competitivo desde a infância, a chegada ao Mundial de Surfe não foi tão assustadora assim. 

Ricardo é tricampeão brasileiro de surfe e o filho, Filipe seguiu espalhando o sobrenome da família pelo mundo (Arquivo Pessoal)
Ricardo é tricampeão brasileiro de surfe e o filho, Filipe seguiu espalhando o sobrenome da família pelo mundo (Arquivo Pessoal)

Exceção da função pai-técnico, Luiz Campos, o “Pinga” já foi técnico e manager de quatro brasileiros na elite (Adriano de Souza, Italo Ferreira, Caio Ibelli e Jadson André). Dono de uma empresa de marketing esportivo, um dos pontos altos de sua carreira foi trabalhar na equipe da Quiksilver em 1995 e participar do primeiro título mundial de Kelly Slater. Mineirinho e Italo ganharam, indiretamente, muitas lições de como funciona a mente de um campeão. 

Luiz Campos é responsável indireto por metade dos títulos do Brasil; E teve participação no 1º título de Kelly Slater (ArquivoPessoal)
Luiz Campos é responsável indireto por metade dos títulos do Brasil; E teve participação no 1º título de Kelly Slater (ArquivoPessoal)

:: O $URFWEAR FOI AO MERCADO 

A diferença entre uma geração e outra é o momento que a indústria surfwear vivia. Em 1985, surgia a “Big three” (Quiksilver, Billabong e Rip Curl). As três marcas ditaram a moda na Austrália devido ao interesse de consumidores fora do meio, que adotaram aquele como o estilo de vida que eles aspiravam ter. Nos anos 2000, as três marcas já tinham saído da Austrália e dominado o mundo e o mercado financeiro. A Quiksilver registrou vendas de US$ 1,7 bi em roupas. A Billabong entrou na bolsa com uma receita anual de US$ 622,9 milhões. 

Uma questão de grife: estilo despojado e jovem, o surfwear é o desejo de toda a indústria da moda (Chanel)
Uma questão de grife: estilo despojado e jovem, o surfwear é o desejo de toda a indústria da moda (Chanel)

O período dourado em Wall Street coincidiu com a ponta do iceberg no Brasil. A paridade do dólar e real criou um círculo virtuoso: empresas investiam em eventos das categorias de base do surfe e, em troca, jovens atletas tinham maiores possibilidades de surfar em Trestles (EUA), Bells (AUS) ou J-Bay (AFS). Enquanto as marcas procuravam atletas promissores para serem garotos propagandas, os jovens - e suas famílias - podiam escolher as melhores épocas do ano para surfar - uma chance que só o dólar a um real poderia proporcionar. 

Com um mercado recheado de jovens promessas e muito consumo entre o público jovem, a surfwear chamou atenção da gigante de vestuário Nike. Através do seu braço na indústria, a Nike Surfing passou a atuar como Hurley. A empresa americana entrou no mercado inflacionando os preços e formando um time cheio de promessas. Entre elas John John e um garoto de Ubatuba que começou a década abalando o campeonato mais tradicional do surfe (US Open, na Califórnia). Em 2010, o Brasil se apresenta na sede das Big Three com a vitória acachapante de Filipe Toledo que, aos 16 anos, superou todos os locais e pupilos da Nike para vencer seu primeiro título internacional. 

Abrimos e fechamos a década com títulos expressivos, surfistas irreverentes e um domínio como não existe em qualquer outro esporte. Construído por Adrianos, Italos e muitos Gabriéis, nossos atletas mostraram que o Brasil é, na verdade, um país que nasceu pra ser do surfe, mas prefere o futebol. 

O Yahoo Esportes acompanhou essa década vitoriosa e registrou aqui os momentos altos de uma história que segue em pleno desenvolvimento. Por contar tanto com a natureza para montar seu “palco”, o surfe já é especial por essência. No entanto, contar histórias de superação como essas que fizemos ao longo dos últimos dois anos garantem que a máxima de “mar calmo não faz bom marinheiro” foi talhada pro surfe e pra vida. 

É dela que vamos cuidar a partir de hoje. O momento é de tempestade, mas logo o céu abre e o tempo bom estará de volta. Portanto, não daremos adeus a cobertura do surfe, mas um até breve – ou até o próximo bom swell que encostar por aqui. 

Até breve.  

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