Resultado no Pan é alívio, mas não solução para esporte do Brasil

DANIEL E. DE CASTRO
Folhapress
***ARQUIVO***LIMA, PERU, 11.08.2019: Judoca Mayra Aguiar, do Brasil, comemora sua medalha de ouro após cerimônia de premiação do Judô 78kg durante os Jogos Pan-Americanos Lima, no Peru.(Foto: Heuler Andrey/DiaEsportivo/Folhapress)
***ARQUIVO***LIMA, PERU, 11.08.2019: Judoca Mayra Aguiar, do Brasil, comemora sua medalha de ouro após cerimônia de premiação do Judô 78kg durante os Jogos Pan-Americanos Lima, no Peru.(Foto: Heuler Andrey/DiaEsportivo/Folhapress)

LIMA, PERU (FOLHAPRESS) - Desde 2016, após a Olimpíada do Rio, o esporte brasileiro se acostumou a ouvir más notícias: estatais deixaram de patrocinar confederações, dirigentes foram presos em investigações de corrupção e fontes de financiamento importantes, como o Bolsa Atleta e a Lei Piva, ameaçaram secar.

Veja aqui todas as medalhas do Brasil Em meio a esse cenário, a informação de que o Brasil acabou de conquistar o maior número de medalhas em uma edição de Jogos Pan-Americanos e voltou a ocupar a vice-liderança do evento depois de 56 anos soa como alívio. Mas não vai muito além disso.

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O bom desempenho não esconde uma série de problemas de gestão no esporte nacional. Durante o Pan, a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) deu novos passos rumo a uma situação de pré-falência. Essa é a definição adotada pelo conselho de ética do Comitê Olímpico do Brasil (COB) em um processo que envolve a entidade.

Mesmo assim, os nadadores do país saíram do evento em Lima com 32 medalhas, um recorde em Jogos Pan-Americanos. Mas o que explica a convivência entre a penúria administrativa e os bons resultados?

Com a redução drástica do investimento público e privado no esporte, o COB tornou-se uma espécie de interventor em confederações que não conseguem caminhar com as próprias pernas. É ele quem distribui as verbas das loterias federais oriundas da Lei Piva, hoje o principal motor do esporte olímpico brasileiro. Este ano, a previsão de arrecadação do comitê com essa fonte chega a R$ 250 milhões.

Quando as entidades não podem receber a parte que lhes cabe desse bolo por conta de dívidas, o COB assume de forma direta os pagamentos para que os atletas não deixem de participar de campeonatos. Também coloca dinheiro na contratação de treinadores e períodos de treinamentos no exterior, por exemplo.

Isso faz com que os atletas de elite não fiquem desassistidos e continuem em evolução após um ciclo de bolsos cheios antes da Olimpíada do Rio. Por outro lado, não resolve as incertezas sobre o desenvolvimento de novos talentos e o futuro do esporte no país.

Tampouco são capazes de mudar esse cenário os investimentos do governo federal com o Bolsa Atleta e o programa de alto rendimento das Forças Armadas. Mais de 70% dos medalhistas em Lima recebem a bolsa, uma importante ajuda, mas que por si só não é um programa de formação.

Assim como ocorreu no Pan, na Olimpíada de Tóquio-2020 é possível que a performance do país não seja afetada por esse cenário e até melhore na comparação com a Rio-2016. Se isso acontecer, o Brasil será a segunda nação a elevar o desempenho logo após sediar os Jogos, a exemplo do que fizeram os britânicos na última edição.

As boas perspectivas para o Japão se justificam também pela inclusão no programa olímpico de modalidades em que o país tem boas chances de medalha, como skate, surfe e caratê.

Já sobre os Jogos de Paris-2024 e Los Angeles-2028 paira uma carregada nuvem de incertezas. Sem dinheiro não há como formar novos atletas de qualidade, e por enquanto nada indica que ele voltará a pingar na conta do esporte brasileiro.

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