Datafolha mostra resiliência do bolsonarismo, com ou sem Sergio Moro

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Manifestante protesta contra Sergio Moro. Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images
Manifestante protesta contra Sergio Moro. Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images

Por mais simplórias e mal diagramadas que sejam suas mensagens, estratégias e articulações, o bolsonarismo exige uma reflexão profunda de contextos e cenários para ser compreendido como fenômeno político. Só assim quem apostava no fim da linha após a demissão de Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) deixará de cair da cadeia toda vez que uma pesquisa de opinião, como o último Datafolha, apontar que Jair Bolsonaro tem hoje, depois de tudo, 33% de aprovação, contra os 30% registrados em dezembro.

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A força deste movimento não reside na solidez do tripé (Lava Jato, liberalismo e militares) que pode manter seu governo vivo ou no limbo operacional. Ela se conecta com sentimentos e desejos enraizados em uma base popular resiliente a qualquer defecção no campo das alianças. 

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Por isso, como mostra a pesquisa, Jair Bolsonaro terá por muito tempo o apoio de cerca de 30% da população, nomeie quem nomear, chute quem chutar, sejam os enxotados o ex-braço direito da campanha, o presidente da legenda que o acolheu, a deputada da sua antiga tropa de choque, o general que caiu atirando ou ministros de alta popularidade como Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro.

O governo pode desandar, mas o bolsonarismo sobrevive sem eles. 

Sobrevive, inclusive, se amanhã houver outro presidente em seu lugar.

Pelo Datafolha, o impeachment divide o país -- 45% apoiam e 48% rejeitam -- e a parcela dos que defendem a renúncia subiu de 37% para 46%. Isso, para o governo Bolsonaro, é um alerta e tanto; para a sobrevivência de sua base, não necessariamente.

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Guardadas as proporções, o bolsonarismo, como o lulismo, é um movimento político abrigado em uma prateleira entre a opção eleitoral e o sentido da vida. Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, não possuem fileiras aparentemente dispostas a viver ou morrer por eles.

Lula, ex-operário que alcançou a Presidência, tem sua própria mitologia.

Bolsonaro é “mito” independentemente de quem marchar com ele nas fileiras, mesmo que esteja só ou divorciado do símbolo máximo da Lava Jato.

Há, claro, afetos políticos organizados em torno do lavajatismo, mas não de sua figura central, hoje desprezada pela esquerda e pela extrema direita; inexiste, até aqui, um fenômeno que se possa chamar de “morismo”.

Mas o bolsonarismo existe, e ele dispensa os jargões técnicos do ex-juiz. Embora tivessem pontos de intersecção no campo da segurança pública e do discurso anticorrupção, hoje em xeque, esses movimentos se distanciam na aderência de fantasias relacionadas a “comunismo”, “ideologia de gênero”, “globalismo” e, agora evidente, “desarmamentismo” — identificados como os males a serem limpados pelo projeto messiânico do ex-capitão e seus asseclas.

Compreender o enraizamento deste movimento em determinada base social exige a compreensão de que Bolsonaro não passava vergonha, mas aprofundava as suas bases ao se dirigir ao público fiel em seu pronunciamento em rede nacional após a demissão de seu ministro da Justiça. 

Para a maioria da população, o presidente desfilou a própria cretinice nos 40 minutos em que repetiu frases desconexas, revanchismo e apego a picuinhas após o nocaute aplicado pelo ex-aliado.

Mas, para o público interno, Bolsonaro apenas “mitou” ao se apresentar como o pai preocupado que chama o filho na chincha e pergunta que história é essa de se envolver com a filha de um ex-sargento detido; que, a exemplo do cidadão comum que fecha as contas na ponta do lápis, se mostra atento com o aquecedor da piscina; e que reforça a posição de homem humilde, perseguido e rejeitado pelos mestres e doutores da lei, ao trazer para a cena de despedida o desprezo de Sergio Moro no vácuo do primeiro encontro entre eles, em uma lanchonete em Brasília.

Na maior crise política, sanitária e econômica de seu governo, o bolsonarismo se mostra resiliente pelo inverso do que um cidadão imune a paixões racionaliza: Bolsonaro ganha força quando tudo conspira contra ele, inclusive os ex-aliados. Para sua base, não é Bolsonaro que se apequena ao se desfazer dos companheiros, mas os companheiros que se mostram oportunistas ao pular do barco. A máscara que cai não é de quem expulsa, mas de quem é expulso da missão divina.

É esta a mitologia que faz do bolsonarismo uma força política em torno da figura mirrada que perambulou pelo Congresso por 30 anos e agora não sabe o que fazer como presidente e nem faz questão. Como uma entidade divina dotada de uma missão, uma missão que sobrevive e já sobreviveu a outras facadas, simbólicas ou reais, Bolsonaro se alimenta do desprezo das figuras desprezadas por seu eleitor mais fanático.

É por isso que aquele seu amigo amedrontado e enraivecido pelas contingência da própria existência que ninguém levava a sério até pouco tempo vai romper com tudo, inclusive com os amigos e a família, para brigar por esse mito que, como ele, só não encontrou a paz e a glória dos justos porque os injustos não aceitam a sua verdade.

Como o pressuposto do primeiro parágrafo, nada é tão simples assim, nem mesmo essa identificação pelo espelho dos desvalidos morais. Para boa parte de seus apoiadores, Bolsonaro é só um homem comum lutando contra gente graúda que se aproveita dele ou não quer ver a sua autenticidade empoderada. Para este grupo resiliente, Moro não é uma baixa; é só um sabotador que se aninhou no bolsonarismo como um cavalo de Tróia e precisou ser expulso em nome de um projeto maior.

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