Renascimento da Itália na Euro: uma história de tradição, legislação e influências

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A Eurocopa 2020 está repleta de histórias únicas e uma delas, sem sombra de dúvidas, é o retorno da Itália ao foco das grandes competições do Velho Continente. Depois da sentida ausência na Copa do Mundo de 2018, a Azzurra voltou aos holofotes do futebol mundial e fez bonito: se classificou às oitavas de final do torneio com 100% de aproveitamento, sete gols marcados e nenhum sofrido.

A exibição impressionante dos comandados de Roberto Mancini tem caráter 100% coletivo. Contudo, não podemos deixar de notar que alguns "líderes" ficaram responsáveis por comandar o ataque do tradicional time nacional: Manuel Locatelli, Domenico Berardi, Ciro Immobile e Lorenzo Insigne tiveram papel fundamental nos metros finais. Coincidentemente, nenhum dos membros do quarteto joga nos gigantes mais conhecidos dos brasileiros: Juventus, Milan e Inter de Milão. No entanto, isso pouco importa.

Um renascimento de tradição

Insigne e Immobile são dois dos principais jogadores da Azzurra até aqui. | Mike Hewitt/Getty Images
Insigne e Immobile são dois dos principais jogadores da Azzurra até aqui. | Mike Hewitt/Getty Images

Em contato com Alessandro Eremiti, head de conteúdo do 90min Itália, ele comentou sobre a equivocada noção de grandeza com relação aos times do Campeonato Italiano: "Apesar de não serem jogadores da Juventus, Milan ou Inter, eles ainda estão em clubes poderosos da Série A. Insigne é o capitão do Napoli, ele tem um forte sentimento pela cidade, e o Napoli sempre lutou por uma vaga entre os quatro primeiros, inclusive conquistando a Copa Itália na temporada 2019/20. Immobile também é uma lenda da Lazio."

Napoli e Lazio terminaram a última temporada da Série A nas respectivas 5ª e 6ª colocação, confirmando presença na fase de grupos da Europa League. Ídolos atemporais dos seus clubes, os atacantes são adorados por uma legião de fãs e, eventualmente, contribuem para quebrar hegemonias no País da Bota. O camisa 17, por exemplo, venceu duas Supercopas e uma Copa da Itália desde que chegou ao time de Roma, em 2016.

Se olharmos para o futebol italiano na última década, era quase tudo a Juventus, exceto quando Napoli, Lazio e Milan ganharam alguns títulos. Insigne e Immobile desempenharam um papel crucial nesses sucessosAlessandro Eremiti, ao 90min Brasil

Immobile é ídolo da torcida da Lazio | ISABELLA BONOTTO/Getty Images
Immobile é ídolo da torcida da Lazio | ISABELLA BONOTTO/Getty Images

Locatelli e Berardi, outros dois integrantes do imponente quarteto da primeira fase da Eurocopa, pertencem ao Sassuolo. Desde 2014, a melhor campanha do clube neroverdi foi um 6º lugar conquistado na temporada 2015/16. Ainda assim, Emeriti ressalta que se trata de uma instituição esportiva com boas condições financeiras: "Eles têm uma propriedade sólida e rica, seu próprio estádio - na Itália não é tão comum. Berardi teve a chance de deixar o clube nas últimas temporadas (Juventus, Roma e Milan estavam ligados a ele), mas preferiu ficar para jogar mais partidas. Locatelli jogou muito bem nas últimas campanhas."

De fato. Na temporada 2020/21, o Sassulo foi o 8º time da Série A com maior valor de mercado total, segundo informações do Transfermarkt. As cifras totais chegaram a 223,40 milhões de euros, ficando atrás de Inter de Milão, Juventus, Napoli, Milan, Atalanta, Roma e Lazio. Os vencimentos da atual campanha, que irá se iniciar no dia 13 de agosto deste ano, ainda não foram selados, visto que há toda uma janela de transferências para ser cumprida. No entanto, as expectativas já estão nas alturas, sobretudo após quebra da hegemonia da Velha Senhora depois do eneacampeonato consecutivo.

Inter e Juventus mudaram de treinador. Depois temos José Mourinho e Sarri em Roma (que derby!). São grandes treinadores e se aceitaram estes desafios é porque pensam que podem vencer mais cedo ou mais tarde. Spalletti está no Napoli e é um dos melhores técnicos italianos, além de Simone Inzaghi que deixou a Lazio. Todos esperamos a melhor Série A das últimas duas décadas. Alessandro Eremiti ao 90Min Brasil

Mudanças na legislação e influência da Série A

Lukaku, da Inter de Milão, é um dos destaques da Euro até agora. | Isosport/MB Media/Getty Images
Lukaku, da Inter de Milão, é um dos destaques da Euro até agora. | Isosport/MB Media/Getty Images

No ano futebolístico 2020/21 houve 65 jogadores estrangeiros na Série A, segundo apuração do Transfermarkt. Dentre essa gama de atletas, alguns nomes chamaram atenção do público ao longo das 38 rodadas, como: Cristiano Ronaldo, Lautaro Martinez, Christian Eriksen, Romelu Lukaku, Sergej Milinković-Savić, entre outros.

A leva de grandes atletas chegando ao país da pizza não aconteceu por acaso. A partir de 2018, uma mudança legislativa permitiu um salto no valor gasto em contratações. Cesar Grafietti, especialista em gestão e finanças do esporte, explicou um pouco dos desdobramentos da lei em entrevista ao ge: "O governo passou a dar um benefício fiscal a todo atleta, treinador ou componente de comissão técnica de qualquer esporte, com um desconto no imposto de renda a todos estes indivíduos. Desta forma, o valor que o clube gasta com imposto passou a ser menor, e eles puderam pagar salários maiores aos atletas. Assim começa a ter um crescimento de atletas indo jogar na Itália e melhora a qualidade".

Com isso, até agora, testemunhamos uma Eurocopa que funciona enquanto extensão da grandeza vista no Campeonato Italiano e seus principais jogadores. O prêmio Star of the Match, concedido ao melhor atleta de cada partida da Euro, contemplou 10 nomes que disputaram a última temporada de clubes na Série A. Lukaku, Robin Gosens, Federico Chiesa, Locatelli, Ronaldo... são apenas alguns exemplos dos escolhidos pela própria Uefa.

Ainda sobre a Azzurra e sua suntuosa exibição na primeira fase, Emereti destaca outro personagem crucial, embora nem sempre tão popular: "Roberto Mancini. Ele assumiu o cargo depois do drama da Itália - Suécia, quando não nos classificamos para a Copa do Mundo, e construiu uma seleção nacional administrando-a como se fosse um clube. Ele mudou totalmente a mentalidade dos jogadores e a Itália provavelmente está jogando o melhor futebol de sua história. Obviamente, há qualidade, principalmente no meio com Jorginho, Barella e Verratti, mas Mancini deve levar o crédito aqui", concluiu o head de conteúdo.

A Itália inicia sua jornadas nas oitavas de final da Eurocopa neste sábado (26), às 16h de Brasília, contra a Áustria. A partida terá Wembley como palco.

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