Regra nova, mas os desafios.... Rodízio de técnicos continua intenso nas Séries A e B

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A primeira edição das Série A e B do Brasileirão sob vigência da regra que limita o número de demissões de técnico por cube pouco mudou o ritmo da "dança das cadeiras". Só no último fim de semana, Fábio Carille fez sua estreia no comando do Santos, Tiago Nunes começou seu ciclo no Ceará e, na Arena da Baixada, Paulo Autuori foi interinamente para a beira do campo após António Oliveira ter deixado o Athletico-PR na semana anterior. Já na Série B, Fernando Diniz foi apresentado na última segunda-feira como novo técnico do Vasco.

As "brechas" no regulamento falaram mais alto e contribuíram para manter a alta rotatividade, tornando o mecanismo pouco efetivo. Até o momento, 25 dos 40 clubes das duas divisões trocaram de comando ao menos uma vez.

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NA SÉRIE A, TROCA DESDE A PRIMEIRA RODADA

Montagem - Valentin e Jorginho
Montagem - Valentin e Jorginho

Cuiabá 'inaugurou' mudanças, ao trocar Alberto Valentim por Jorginho (Montagem LANCE!)

A elite do Campeonato Brasileiro viu sua primeira mudança de comando acontecer logo na rodada inaugural: o Cuiabá anunciou a demissão de Alberto Valentim. Embora tenha sido campeão estadual, o técnico saiu após o empate por 2 a 2 com o Juventude. A demissão, por "decisão técnica", segundo o dirigente Cristiano Dresch, foi a primeira de 12 mudanças de comando na Série A nas 19 rodadas do primeiro turno. Jorginho foi o escolhido para substitui-lo.

O número supera o ano de 2019, quando houve dez trocas de comando no turno inicial (de um total de 24 na temporada). Em 2018, aconteceram 19 saídas (uma a cada rodada). Já no ano passado, 15 técnicos deixaram clubes nas primeiras 19 rodadas.

Presidente do Fortaleza, um dos oito clubes que mantêm o mesmo técnico desde o início da competição, Marcelo Paz expôs ao LANCE! seu ponto de vista sobre como estão as Séries A e B após esta nova regra.

- Não cheguei a ver tantas mudanças. O que tem me chamado atenção é que quando é anunciado o motivo das demissões, tanto na Série A quanto na Série B, mais vezes os treinadores estão pedindo para sair. Isso me soa um pouco estranho - declarou.

AS 'BRECHAS' NA REGRA

Umberto Louzer
Umberto Louzer

Umberto Louzer saiu em 'comum acordo' com a diretoria do Sport (Anderson Stevens/Sport)

O vai e vem de treinadores consta no artigo 32 do regulamento da competição. A diretriz destaca:

"Somente será permitida uma demissão de treinador sem justa causa, por iniciativa do clube, durante o CAMPEONATO. Caso o clube demita um segundo treinador sem justa causa após ter demitido o primeiro nessa mesma condição, deve necessariamente utilizar um treinador registrado pelo menos seis meses no clube. Eventual pedido de demissão por parte do treinador, demissão por justa causa por iniciativa do clube ou rescisão por mútuo acordo não serão computados para os efeitos deste artigo".

Em suma, caso o técnico peça demissão (seja para mudar de clube ou porque não quer seguir no cargo), não é incluído na regra. O "comum acordo" é privilegiado.

Com isto, alguns clubes que já passaram por mudança de comando seguem com direito de continuar a contratar. América-MG e Athletico-PR viram os técnicos Lisca e António Oliveira, respectivamente, pedirem demissão. Em outros clubes, houve saídas por mútuo acordo: no Grêmio, aconteceu a saída de Tiago Nunes e no Sport, na de Umberto Louzer.

MEDALHÕES RETORNAM À CENA

Renato Gaúcho - Ceará x Flamengo
Renato Gaúcho - Ceará x Flamengo

Renato Gaúcho: de volta à cena, agora para comandar o Flamengo (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

As mudanças de cargos colocaram de novo em evidência alguns medalhões. Meses após sair do Grêmio, Renato Gaúcho foi o escolhido para colocar o Flamengo nos trilhos na sequência da temporada. Ele sucedeu Rogério Ceni, um dos comandantes que foram de fato demitidos.

Luiz Felipe Scolari também regressou à elite do futebol nacional. O Grêmio recorreu ao seu trabalho após Tiago Nunes sair "em mútuo acordo" com a diretoria. Outro medalhão que voltou a ter espaço foi Vagner Mancini, à frente do América-MG.

Na lista de treinadores demitidos consta Jair Ventura. O técnico, que iniciou seu trabalho na Chapecoense apenas na quinta rodada, não resistiu ao fraquíssimo início de competição da equipe e deixou um desempenho com quatro empates e dez derrotas.

CASOS INUSITADOS NA REGRA

Paulo Autuori
Paulo Autuori

Paulo Autuori, diretor-técnico do Furacão, analisa novos nomes para o cargo deixado por António Oliveira (Divulgação/Athletico-PR)

O Brasileirão também tem clubes que recorreram ao expediente "interno" autorizado pelo regulamento. Embora tenha efetivado Marcão após a demissão de Roger Machado, o atual comandante do Fluminense é "registrado por pelo menos seis meses no clube".

Diretor-técnico do Athletico-PR, Paulo Autuori, que comandou a equipe na derrota por 2 a 0 para o América-MG, não esconde o desejo de contratar um novo técnico para o clube, mas admite.

- Não temos pressa na escolha do treinador. A quantidade de nomes a chegar é enorme e temos tranquilidade para escolher o perfil. O Athletico vai pegar um mês difícil - disse.

DO 'COMUM ACORDO' À MUDANÇA DE ARES

Montagem - Tiago Nunes
Montagem - Tiago Nunes

Tiago Nunes: já em seu segundo clube (Montagem LANCE!)

Consta outra questão no regulamento das Séries A e B do Campeonato Brasileiro. No Artigo 32 - Parágrafo Único, há limitações impostas aos técnicos para evitar mudanças recorrentes por conta própria.

"O treinador inscrito por um clube para a disputa do CAMPEONATO poderá se demitir uma única vez sem justa causa para dirigir outra equipe participante do CAMPEONATO. Caso se demita uma segunda vez sem justa causa, não poderá ser novamente inscrito no CAMPEONATO. A demissão por iniciativa do clube, a rescisão indireta por iniciativa do treinador ou a rescisão por mútuo acordo não serão computadas para os efeitos deste parágrafo".

Atualmente, há um técnico que mudou de ares, mas segue na Série A do Brasileiro. Após o início ruim que culminou com sua saída "em comum acordo" do Grêmio, Tiago Nunes começou seu trabalho no Ceará.

SÉRIE B: MUDANÇAS EM MAIOR ESCALA

Fernando Diniz - Vasco
Fernando Diniz - Vasco

Fernando Diniz é o terceiro técnico do Vasco na competição (Rafael Ribeiro/Vasco)

Após 23 rodadas, a Série B é marcada por um rodízio maior, pois até agora são 18 mudanças, e por peculiaridades. Quando o Vasco entrar em campo nesta quinta-feira (16), no Rei Pelé, contra a CRB, Fernando Diniz será o terceiro comandante diferente da equipe na competição.

O Cruz-Maltino iniciou a Série B sob o comando de Marcelo Cabo, que foi demitido em 19 de julho. Depois, Lisca ficou no cargo durante 12 partidas (dez delas pela Série B), até pedir o boné. Depois de ter sido demitido do Santos, Diniz será o segundo comandante vindo da Série A com a missão de dar um norte à caravela vascaína.

Outro clube tradicional também está em seu terceiro técnico. O Cruzeiro iniciou a Série B com Felipe Conceição, que foi demitido em junho. Aposta para sucessão no cargo, Mozart pediu demissão após cerca de um mês. Um medalhão velho conhecido da torcida entrou em cena na Raposa: Vanderlei Luxemburgo.

DEU ATÉ IMBRÓGLIO...

Rodrigo Chagas
Rodrigo Chagas

Rodrigo Chagas, afastado do cargo na segunda rodada, esperou cerca de um mês para definir sua situação no Vitória (Reprodução/Vitória TV)

O ajuste à nova regra causou até um impasse no Vitória. Rodrigo Chagas foi afastado do cargo após a segunda rodada, mas a diretoria do clube optou por mantê-lo como funcionário após a chegada de Ramon Menezes.

Diante da incerteza sobre a sua situação, Chagas ameaçou recorrer à Câmara Nacional de Resolução de Disputas da CBF e esperou cerca de um mês para definir sua relação com o Vitória. Sua saída foi de "mútuo acordo". Posteriormente, Ramon foi demitido em agosto e, em seu lugar, entrou Wagner Lopes.

'TROCAS INTERNAS' TAMBÉM NA SÉRIE B

Marcelo Cabo
Marcelo Cabo

Marcelo Cabo: das oscilações do Vasco rumo à briga pelo G4 no Goiás (Tiago Caldas/CNC)

A rotatividade continua também na Série B. Depois de encerrar seu trabalho no Botafogo, Marcelo Chamusca fez as malas e aceitou a missão de reerguer o Náutico. O Timbu viu o declínio na competição custar o emprego de Hélio dos Anjos.

Equipe que vem em alta e passou por mudanças de rota foi o Goiás. Mesmo com apenas duas derrotas em 13 jogos, Pintado foi demitido após a atuação fraca do Esmeraldino diante do Londrina no empate em 0 a 0. Marcelo Cabo, que tinha saído do Vasco, desembarcou no Serra Dourada e mantém os goianos na briga pelo acesso.

Curiosamente, Pintado entrou na lista de técnicos que alternaram de divisão ao assumir o comando da Chapecoense. Lisca também comandou equipes das duas divisões: América-MG na Série A e Vasco na Série B.

CARTADA VISTA COMO 'CERTA'

Waguinho Dias - Brusque 4x0 Juazeirense
Waguinho Dias - Brusque 4x0 Juazeirense

Waguinho Dias retorna ao Brusque com a 'aura' do técnico campeão da Série D (Divulgação Brusque)

Entre as mudanças mais recentes, o Brusque chamou a atenção. Um dos treinadores mais longevos nas duas divisões (97 partidas em dois anos), Jerson Testoni sucumbiu à seca de nove jogos sem vitórias e acertou sua saída em "comum acordo".

O Quadricolor recorreu a uma solução mais típica: Waguinho Dias, que sagrou-se campeão da Série D na equipe dois anos atrás, retorna em nova divisão.

FIRMES NO CARGO

Oller celebra gol pelo Operário com técnico Matheus Costa
Oller celebra gol pelo Operário com técnico Matheus Costa

Matheus Costa: no Operário desde outubro (Reprodução/Premiere)

Em meio a este turbilhão, sete clubes ainda mantêm o mesmo comandante que começou a Série B. O mais longevo é Matheus Costa, à frente do Operário-PR desde 21 de outubro de 2020. A equipe está no meio da classificação na competição.

Em seguida, vem o trabalho de Claudinei Oliveira à frente do Avaí. Ele assumiu o cargo em 9 dezembro de 2020.

Líder da competição, o Coritiba conta com o paraguaio Gustavo Morínigo desde 4 de janeiro. Do G4 vem outro treinador prestigiado: Allan Aal, que o CRB contratou dias antes da bola rolar para a competição. Felipe Surian, do Sampaio Corrêa, e Gilson Kleina, figurinha fácil na Ponte Preta, completam a lista.

PRESIDENTE DA FBTF PEDE MUDANÇA NA MENTALIDADE DE DIRIGENTES

CBF sede
CBF sede

'Adaptação leva um certo tempo para acontecer', afirma Zé Mário Barros (Divulgação)

Passado o primeiro turno do Brasileirão, o presidente da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol (FBTF), Zé Mário, reconhece que há arestas a serem aparadas.

- Toda mudança na regra leva um certo tempo até que todos se adaptem. Os técnicos ainda estão um pouco amarrados também nesta questão de pedir demissão. Acredito que o futebol brasileiro acabe prejudicado com este tipo de cultura de mudanças de técnicos. O treinador começa seu trabalho em uma equipe, depois sai, ele muda para outro clube e deixa para trás todo um trabalho perdido - e destacou:

- A gente colocou na reunião da CBF que o futebol só vai melhorar quando houver dirigentes mais capacitados, que deixem de lado suas paixões ao decidirem as coisas. Essa mudança na regra traz uma certa vantagem, brigamos para ela ser incluída, e no início vamos lidar com desafios. Essa adaptação leva tempo - complementou o ex-volante de Flamengo, Vasco e Fluminense.

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