Referência, Brasil exporta jogadores cada vez mais cedo

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O futebol brasileiro é um mercado tradicionalmente conhecido como grande exportador de jogadores. Segundo o levantamento mais recente do Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES), o país tem o maior número de atletas atuando no exterior. De acordo com os dados, são 1,2 mil jogadores atuando em 23 campeonatos pelo mundo. Aproveitando essa vitrine mundial, as equipes da Série A enxergam a venda de talentos da base como uma boa oportunidade de arrecadar e gerar mais receita aos cofres dos próprios clubes.

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Nos últimos anos, alguns atletas foram vendidos antes mesmo de completar 18 anos, caso de Vinícius Júnior, revelado pelo Flamengo, e Rodrygo, cria da base do Santos. Em 2017, o atacante da gávea foi negociado aos 16 anos com o Real Madrid e permaneceu no rubro-negro até atingir a maioridade, rendendo R$ 165 milhões ao clube. A joia da Vila Belmiro também foi vendida à equipe merengue aos 17 anos, por 45 milhões de euros, e se transferiu seis meses depois de completar 18 anos.

Apesar desses valores significativos arrecadados com as transferências, uma questão importante foi levantada pelos torcedores na época: Flamengo e Santos poderiam segurar esses jogadores por mais tempo visando um retorno esportivo, além do financeiro? Para Júnior Chávare, gerente do futebol do Bahia, com vasta experiência em futebol de base, o momento certo de aceitar uma proposta por esse perfil de jogador é depois que ele devolver um retorno técnico e, consequentemente, proporcionar um retorno financeiro.

'O ideal é usufruir tanto na área esportiva quanto na área financeira. Esse seria o melhor dos dois mundos e os clubes deveriam focar cada vez mais nessa questão'. O dirigente analisa que, em alguns casos, os clubes acabam queimando etapas para conseguir a venda o mais rápido possível e sanar pendências financeiras. 'Na maioria absoluta das vezes, essas vendas ficaram aquém do que poderiam ser realizadas se tivesse um desempenho dentro de campo. Porém, cada dirigente sabe a realidade do seu clube e onde isso afeta no seu dia a dia'.

No futebol, Chávare tem experiência com trabalhos voltados à captação e formação de atletas ao profissional. Em fevereiro, deixou a coordenação das categorias de base do Atlético Mineiro, depois de dois anos de serviços prestados, e se despediu após levantar a inédita taça de campeão Brasileiro Sub-20. Além da recente experiência no Galo, o dirigente trabalhou em dois gigantes do futebol brasileiro, São Paulo e Grêmio. Por esses clubes, ajudou na revelação de jogadores importantes, inclusive para a seleção brasileira, como o zagueiro Éder Militão (Real Madrid), o meia Arthur (Juventus) e os atacantes Everton (Benfica) e David Neres (Ajax).

O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, segue uma linha de raciocínio semelhante em relação ao aproveitamento dos talentos da base na equipe principal antes de uma eventual venda. 'Quando o atleta consegue ter um nível de performance e minutagem no time profissional, isso o valoriza para ser vendido por um valor ainda maior. Ele dá algum retorno esportivo ao time de origem e consegue monetizar a venda. Esse é o timing perfeito. Retorno esportivo e depois financeiro'.

Na elite do futebol brasileiro, alguns clubes tentam retomar o protagonismo em relação a venda de atletas para o exterior e buscam a valorização das categorias de base. Paulo Bracks, diretor-executivo do Internacional, admite que essa é uma das metas do clube. 'O ideal é que, quando sai um atleta cria da casa, outro já esteja preparado para entrar. Mas esta linha de sucessão demanda um certo tempo e exige planejamento. Estamos trabalhando para isto todos os dias'.

Bracks também reconhece que a atual situação econômica dos clubes brasileiros é um fator que facilita ainda mais a saída precoce desses atletas. 'Em um cenário que a instituição esteja tranquila com suas finanças, é possível sustentar o assédio e cifras para decidir pelo melhor momento. Mas a maioria dos clubes brasileiros, hoje, estão à mercê da proposta', completa o dirigente.

A arrecadação com venda de atletas costuma estar entre as prioridades de determinados clubes para atingir a receita planejada na temporada. No entanto, nem todos detêm a visibilidade necessária para atrair o interesse de compradores. O diretor-executivo Marcelo Segurado, com passagens por Goiás e Ceará, entende que só o talento dos jogadores não é o suficiente para chamar atenção de um grande clube europeu. Nesses casos, o peso da camisa também é relevante.

'Hoje, temos poucos clubes brasileiros com essa grife de exportação. Para as equipes de menor expressão, a alternativa buscada é de colocar suas promessas em instituições maiores, com mais visibilidade, para que eles possam resguardar um percentual de futura venda, lucrar com essas transações posteriores e também com projeto de formação'. argumenta o dirigente.

Segurado cita o Fluminense como um caso de sucesso no quesito de arrecadar com os talentos feitos em casa. No início do ano, o tricolor encaminhou a venda do atacante Kayke e do volante Metinho ao City Football Group, que administra o Manchester City, da Inglaterra. Os jovens, que só deixarão o tricolor em 2022, são dois dos principais destaques da “Geração de Sonhos” de Xerém, que conquistou o Brasileirão Sub-17.

Além do valor da transferência, as ações de marketing desenvolvidas pelos clubes, como venda de camisas, campanhas com torcedores, entre outras, também são alternativas para lucrarem com o poder de mídia dos atletas. Para Renê Salviano, ex-diretor comercial, marketing e novos negócios do Cruzeiro, e há mais de 20 anos com experiência no mercado, a necessidade de venda desses jogadores faz parte do negócio esportivo e, em alguns casos, as instituições precisam disso para sobreviver. 'Geralmente estas vendas acontecem em confidencialidade e com prazos que não possibilitam criar produtos, produzir e vender. Além do mais, é mais fácil criar produtos na chegada de um atleta do que na venda'.

Marcelo Palaia, especialista em marketing esportivo, define os jogadores recém-promovidos ao profissional como um potencial menor de exploração comercial. 'Os mais novos possuem um potencial menor de exploração comercial, já que ainda não estão concretizados como ídolos. Sou a favor de boas propostas comerciais. Se os clubes vendem suas promessas por valores consideráveis e não temos como competir com o mercado internacional, que seja feito negócio', opinou.

Salviano acredita que o fortalecimento econômico dos clubes brasileiros é a única maneira para mudar esse cenário de saída precoce dos atletas para o exterior.

'Devemos fortalecer nosso futebol como um todo, com grande projeção internacional, principalmente com campeonatos transmitidos por todo o mundo, que conseguiremos mudar este cenário. Atualmente é necessário a venda precoce das joias pelo cenário que o futebol brasileiro vive, mas acredito que todos têm buscado a profissionalização para cada vez mais termos campeonatos fortes e nossas joias atuando aqui por mais tempo'.