Com Red Bull, Bragantino quer ser 5ª força de SP, diz presidente

Red Bull e Bragantino se enfrentaram no Paulistão (Maycon Soldan/Photo Premium/Gazeta Press)
Red Bull e Bragantino se enfrentaram no Paulistão (Maycon Soldan/Photo Premium/Gazeta Press)

Por Vinicius Pereira

Na próxima semana, quando começar a Série B do Campeonato Brasileiro de 2019, o futebol nacional terá a estreia de uma nova equipe, nascida da fusão de duas outras já conhecidas. O Red Bull Bragantino, resultado de parceria da marca austríaca de bebidas energéticas e o tradicional clube paulista de Bragança Paulista (83 km de São Paulo), fará o primeiro jogo de sua trajetória contra o Brasil de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 26 de abril.

Em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes, Marco Antônio Chedid, presidente do Bragantino e filho de Nabi Abib Chedid, ex-vice presidente da CBF, detalha a parceria. Segundo ele, o clube teria que, eventualmente, fechar as portas caso a parceria não tivesse vingado.

Chedid diz que acontecerá uma “terceirização do futebol”. A Red Bull, cuja equipe brasileira foi campeã do torneio do interior do Paulista deste ano, fará os investimentos, orçados em cerca de R$ 40 milhões por ano, e será responsável pelo futebol do clube. Em contrapartida, conseguirá cortar o caminho disputará a segunda divisão do Brasileiro já nesta edição -- sua equipe não está nem na Série D atualmente.

As metas da parceria são ambiciosas, afirma Chedid. Para 2019, a ideia é subir para a Série A, que o Bragantino disputou pela última vez em 1998. Em 2020, querem conseguir vaga para a Copa Sul-Americana do ano seguinte. No longo prazo, querem se tornar a quinta força paulista.

O novo time passará a fazer parte do projeto global da Red Bull, que inclui escuderias de F-1 (Red Bull e Toro Rosso), equipes de hóquei sobre o gelo (Red Bull Munique e Red Bull Salzburg) e times de futebol (RB Leipzig, New York Red Bulls, Red Bull Ghana e Red Bull Salzburg).

Como vai funcionar a parceria? Quando começaremos a perceber os efeitos da parceria?

É uma terceirização do futebol. A estrutura societária do clube não vai ser alterada agora. A Red Bull vai tocar só o futebol inicialmente. Os investimentos serão todos feitos pela Red Bull e vou deixar a Red Bull ser responsável pelo futebol do clube. O Bragantino tem conselhos, diretores, e presidente. A Red Bull vem só para o futebol, mas o projeto vai evoluindo.

Até qual ponto?

Ah, ainda não sabemos. Evidentemente, a Red Bull terá diretores e eu vou ficar até quando eu desejar. Ainda não penso em sair, não cheguei nesse ponto, mas tem que desapegar e não ter vaidade. O objetivo da minha família [que administra o Bragantino] é o sucesso do clube. Eu posso administrar, saneando as dívidas, dando condição financeira ao clube, mas não havia como fazer investimentos grandes.

Tínhamos uma folha salarial de cerca de R$ 350 mil, mas tínhamos dificuldade em pagar, Pagávamos, em média, R$ 10 mil, R$ 12 mil de salário para os jogadores. O que iria acontecer seria virar o Mogi, o União São João de Araras... Quantos clubes deixaram de investir nesses últimos anos? Isso porque não consegue se bancar apenas revelando jogadores, então a tendência da forma como está, é o interior de São Paulo ficar sem futebol. Quem sobra é Ponte Preta, que enfrenta dificuldades, o Guarani, com muitas dívidas, e times com dono, como o Mirassol e o Novorizontino, por exemplo.

Esse tipo de parceria é a única saída para trazer investimento a clubes pequenos?

Sim. Você não pode chegar e cobrar mensalidade alta de sócios ou torcedores pois não tem mais paixão desse jeito para pagar altas taxas.

Como ficará dividida a administração do clube?

A administração será feita pela Red Bull. Eu participo, mas a palavra é da Red Bull e não vejo problema nenhum, não tenho vaidade nenhuma. Estou abrindo mão praticamente, mas pensando no clube e na sobrevivência. O Bragantino tende a ser um clube internacional.

Como foram as negociações?

Eu fui sondado no final de dezembro. Em janeiro, começamos as conversas. Levantaram tudo, a equipe jurídica internacional, CEO do futebol, me explicaram como trabalha o Red Bull. Ela é dividida. A empresa comercial é uma, os projetos de esporte são outra; são projetos independentes. A Fórmula 1 tem projetos independentes, com dinheiro orçado. Aí tem um CEO para cada tipo de esporte.

A Red Bull veio com auditoria da Delloite [empresa de consultoria e auditoria] total, materializaram todos os débitos do Bragantino. Isso foi um dos pontos que foram positivos para eles apostarem no Bragantino, já não existe esqueleto [fiscal]. A Portuguesa, por exemplo, ninguém sabe quanto deve realmente.

Quais são as metas esportivas de curto, médio e longo prazo?

Subir é a meta, e ano que vem. Faz cerca de 20 anos que o Bragantino caiu [da Série A]. O último campeonato que disputamos foi em 1998 e, se Deus quiser, já já estamos de volta. Subindo para a Série A, automaticamente, queremos já disputar a Sul-americana. Os objetivos da Red Bull são grandes. Veja os clubes internacionais dele e veja a perspectiva de cada um.

E as financeiras?

É trazer uma grande empresa a um time tradicional que já tem torcida e que isso [a parceria] sirva de modelo para o futebol brasileiro, pois a saída é buscar o recurso das empresas já que, nesse modelo de associação, as empresas não têm segurança de investimento.

A Parmalat, com o Palmeiras e o banco Excel [que fez parceria com o Corinthians e Vitória na década de 90] não tiveram segurança, pois não têm segurança no investimento. Eles dependiam de conselho, vários clubes tem o conselho problemático. O Guarani tem um modelo de parceria, mas os conselheiros travam. Os presidentes dos clubes deixam dívidas lá e, depois de dois anos, vão embora. Se fosse uma empresa, não seria assim e nós temos que mudar isso.

Na Europa, os grandes investimentos são feitos pelos times empresa. O Chelsea, o Manchester City e o PSG são todas as empresas, de um investidor só.

O balanço de dívidas dos clubes brasileiros são absurdas, com muitas dívidas e ao longo do tempo o processo é o mesmo: contrata, paga salários altos, aí a diretoria vai embora, o outro pega um bucha com inúmeras ações trabalhistas. Precisa acabar com esse ciclo e os clubes vão cada dia pior.

A minha família faz 62 anos que está a frente do clube. Meu avô, depois meu pai, meu tio e eu. Eu estou há 20 anos entre presidência e vice. Montamos vários times, mas hoje sou só eu que administro.

O restante da família, inclusive seu tio, Jesus Chedid, prefeito de Bragança Paulista-SP (DEM) e seu sobrinho Edmir Chedid, deputado estadual (DEM-SP) não têm ligação com o clube?

Não, nenhuma. O meu tio saiu do Bragantino em 1996. Hoje sou só eu e meu filho. Fomos o primeiro clube a conseguir unificação de ações trabalhistas. Tínhamos 227 ações e pagamos todas. Hoje só temos duas ações. O Bragantino não está no PROFUT. E temos um déficit com a Receita de R$ 300 mil apenas. Então tocamos o Bragantino de forma positiva.

Na cidade, torcedores têm manifestado preocupação com a perda da tradição do Bragantino. Como o senhor encara isso?

O que o torcedor quer? Quer ter o time forte bom para ir para o estádio torcer para o time subir. A expectativa é que o clube dispute títulos, é um clube azeitado, mas precisava de investimento.

Chegarão jogadores de renome? Qual é o perfil de jogador que poderemos esperar?

Eu estou participando, sei quem está contratando, mas deixo para a Red Bull e seus diretores tocarem essa parte. O perfil não é muito esse. Mas, posso afirmar que a tendência do Bragantino é ser o quinto clube de São Paulo. Nós temos estádio, temos tradição, títulos.

O nome do estádio Nabi Abi Chedid (pai de Marco Antônio Chedid) será mantido? E quanto ao uniforme e escudo?

O nome do estádio sim vai ser mantido. As cores, o símbolo e o escudo vão ser preservados por enquanto. Mas, de qualquer jeito, a Red bull vai ter que estar no escudo logo.

Qual é o cronograma de reformas do estádio e da construção do Centro de Treinamento? Serão totalmente custeados pela multinacional? Qual é o tamanho desse investimento em obras?

Isso é uma decisão da empresa, ainda não posso antecipar nada, vou esperar que eles se pronunciem, mas, sim, já há projetos.

A média de público do Bragantino não passa de mil torcedores por jogo. Como fazer para reverter essa situação?

Sempre teve público bom quando tinha time bom. A própria região do sul de Minas Gerais, região bragantina, aquele eixo da [rodovia] Fernão Dias, o Circuito das Águas, vai trazer também a região de Itatiba. Essa parceria anima todo mundo porque vai virar um time competitivo.

Um dos motivos, para ter sucesso isso, é não ter interferência e abrir mão da vaidade. Eu tenho 42 anos de futebol, estou preparado. 42 anos de futebol. Sou um apaixonado pelo esporte e vejo que estamos implantando um modelo europeu e estamos mudando o modelo do esporte no Brasil. Todo o pessoal que era apaixonado foram embora e os clubes morreram. Esses números europeus de compra e negociações são todas empresas. A China, o modelo do Japão quando começou, são industriais que bancam os times.

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