Recuperado de doença, Gilmar Fubá lembra histórias da época de Corinthians

Gilmar Fubá atuou no Corinthians entre 1995 e 2000 (Gazeta Press)

Por Sandro Biaggi

Uma das figuras mais folclóricas da história do futebol paulista, Gilmar Fubá passou por grave problema de saúde. No ano passado, foi diagnosticado com mieloma múltiplo, um câncer na medula óssea. Recuperado e incentivado pelos amigos do mundo da bola, voltou a trabalhar com futebol em 2017. Foi contratado pelo Corinthians como olheiro e dá plantão todos os dias no Parque São Jorge.

Considerando viver um recomeço na vida, Fubá falou com o Yahoo Esportes sobre a recuperação, as histórias do tempo em que ganhou dinheiro e até de quando tratou o rei dos Emirados Árabes como se fosse melhor amigo.

Como está o processo de recuperação?
Está encerrado. Passei pela última sessão de quimioterapia e preciso me cuidar, mas o pior já passou, graças a Deus.

Como descobriu a doença, Fubá?
No ano passado, eu tive uma pneumonia. Isso foi estranho porque eu nunca fiquei doente. Começaram a aparecer uns caroços no corpo. Fiquei preocupado. Fui no médico, o doutor (Joaquim) Grava me ajudou. Fizeram a biópsia e ficou constatado o tumor. Me internaram na hora.

Consta que você perdeu muito peso.
Rapaz… Perdi mesmo. Não sei quanto, mas uns 20 quilos. Eu sempre fui forte e me sentia bastante fraco, sem força para nada. Agora comecei a recuperar o tempo perdido para comer as coisas que gosto.

Mas você pode comer o que quiser, Fubá? Não é assim, não…
(Rindo) É verdade, eu vou devagar. Não estou exagerando, não.

Sua doença mobilizou muita gente para te ajudar. Esperava por isso?
Essa é a coisa que emociona. As mensagens, as visitas deixam feliz. Porque você está ali, na cama do hospital, com uma doença grave e não sabe o que vai acontecer. As palavras de quem te procura, de quem quer te ver bem ajudam. Pode parecer besteira, mas não é, não. Essa moral ajuda você a se recuperar. O seu Paulo (Garcia, dono da Kalunga) me ajudou demais. Todo dia tinha uma visita no hospital. Vampeta, Ronaldo (ex-goleiro), Marcelinho (Carioca), Batata, Neto. É engraçado porque você sai de time grande, fica um pouco escondido e acha que as pessoas te esqueceram. Você se sente bem quando percebe que isso não aconteceu.

Você pensou que ia morrer?
Não. Nunca. Eu tinha certeza que ia sair dessa. Nos primeiros dias você não quer aceitar. Fica questionando por que aconteceu contigo. Mas depois de pouco tempo eu já estava focado em me recuperar e fazendo brincadeira no hospital. Era o único jeito de levar. A gente precisa ter sempre alegria na vida.

Gilmar Fubá atuou no Corinthians entre 1995 e 2000 (Gazeta Press)

Que tipo de palhaçada?
Eu fazia umas piadas quando estava sozinho com os médicos e as enfermeiras. Mas quando chegava visita era uma festa. Meu Deus do céu! Nem parecia que aquilo era hospital. Os médicos ficavam bravos porque era muita bagunça. O pessoal só queria me animar. Todo mundo entendeu.

Você virou evangélico por causa do Marcelinho Carioca?
Não. Eu virei porque estava me perdendo na vida. Tinha abandonado minha família e foi uma forma de me salvar. Depois que minha mãe morreu (em 2004), eu passei um bom tempo perdido. Não queria mais saber de nada.

Eu pensei que você tinha virado evangélico no dia que o Marcelinho te levou para a igreja dele com a Carla Perez (ex-dançarina do “É o Tchan”)…
Foi o Vampeta que te contou essa história, né?

Não. Ele disse na Jovem Pan.
Ele contou isso no rádio? Não acredito!

Contou.
Meu Deus do céu!

Então conta você como foi.
É que eu estava com uma lesão na coxa e toda vez que tentava voltar a treinar, a dor aparecia. Eu estava ficando desesperado. Foi quando o Marcelo sugeriu ir na Igreja dele, dizia que iam rezar por mim. Aceitei. Mal não ia fazer. E ele levou a Carla Perez também.

O Vampeta conta que todo mundo fechou os olhos na hora do culto, menos você, que ficou olhando para as pernas da Carla Perez.
(Gargalhando) Nããããão! Ele disse isso? Não é verdade. Vampeta gosta de aumentar. Não olhei, não.

Mas e a história do dinheiro na sacolinha?
Isso é verdade. Passou o rapaz com aquela sacola para fazer doação, eu olhei na carteira e só tinha uma nota de R$ 50. Pensei: “pô, 50 é muito né?”. Coloquei o dinheiro e o moleque já ia saindo. Chamei e falei que só ia dar R$ 10 e ele tinha de me dar R$ 40 de troco. Marcelinho ficou bravo porque eu estava emprestando a Deus. Mas eu fui lá para me curar, não para emprestar dinheiro.

Como está hoje sua vida financeira, Fubá?
Olha, não estou passando fome. Mas não estou nadando em dinheiro.

Aquela época da BMW já foi?
Ah, já foi! Isso eu não soube aproveitar mesmo. Não tinha cabeça. Imagina, um moleque de São Mateus (zona leste de São Paulo) de repente vira titular do Corinthians e começa a ganhar dinheiro. Eu sempre conto essa história: quando a gente ganhou o Mundial (em 2000), dois dias depois caíram R$ 200 mil na minha conta. Eu cheguei a ter dois carros importados morar em cobertura, dava churrascada para… Sei lá quantas pessoas! Não soube guardar.

Mas foi nessa época que você dormiu na BMW?
Não, isso foi antes. Primeiro dinheiro de verdade que ganhei no futebol, em 1999, cheguei no gueto com a BMW. Minha mãe endoidou. Como eu podia comprar aquele carro? Iam roubar. Para garantir que ninguém ia levar, eu dormia dentro da BMW.

Como foi a experiência de jogar no exterior? Você passou por Coreia e Emirados Árabes.
Mais diferente foi nos Emirados Árabes (ele atuou pelo Al-Ahli). Nós não estamos acostumados com os costumes do país. Não pode beber na rua. É muito rigoroso. As pessoas também não vão tanto ao estádio.

Mas você ganhou um título lá.
Ganhei! Foi uma Copa que não lembro o nome (Copa Abu-Dhabi). O rei entregou as medalhas. Todo mundo se curvava quando ficava de frente para ele. Os mais chegados, ele cumprimentava encostando nariz com nariz. Mas era só para os muito amigos. Eu já estava alegre com o título, falei para os caras: “eu vou encostar no nariz no rei”. Disseram que eu era louco, que o rei ia mandar me prender. Quando chegou a minha vez, não tive dúvidas: puxei pelo braço e encostei meu nariz no nariz dele. Ninguém acreditou. Ele deu risada.

Como está o trabalho no Corinthians?
Está bom. Estou muito feliz por estar de volta ao clube, trabalhando na observação de novos jogadores. Faz bem, depois de tudo o que aconteceu, estar de volta ao futebol. Vou te falar: quando entrei no estádio pela primeira vez depois que saí do hospital, chorei. Mas chorei de alegria. O Corinthians me deu tudo e agora me dá uma nova chance. Estou muito alegre com isso.

Quando você olha para trás, como avalia sua carreira?
Foi vencedora. Na questão material, eu poderia estar melhor. Mas eu saí de onde saí, joguei no Corinthians, em um time que ganhou tudo e disputava posição com Vampeta, Rincón… Só craques. E mesmo assim, eu consegui jogar. Não tem como eu falar que foi ruim. Foi um grande sonho.

Gilmar Fubá atuou no Corinthians entre 1995 e 2000 (Gazeta Press)