Reconhecida atriz pornô Alana Evans mostra seu lado gamer e geek

Alana Evans com seu lado geek. Foto: Divulgação
Alana Evans com seu lado geek. Foto: Divulgação

A veterana atriz pornô americana Alana Evans, 46, conquistou um reconhecido nome na área na qual adentrou em 1998 o intuito de sustentar a família já que o então marido havia se lesionado no trabalho. E há mais de uma década abraçou seu lado geek e gamer.

Evans ascendeu em sua profissão de tal modo que em 2015 entrou para o Hall da Fama da AVN (Adult Video News) e em 2019 para o da XRCO (X-Rated Critics Organization), e mostrou seu lado humano quando entrou para os noticiários em 2018 ao revelar em entrevista à americana CNN sentir-se culpada por não apoiar a amiga, e, também, atriz pornô, Stormy Daniels que expôs os supostos desvios de conduta de Donald Trump, então presidente dos EUA. Outro episódio árduo foi o bloqueio de sua conta bancária e ela acredita que ocorreu por ser uma trabalhadora do sexo (sex worker).

Tais passagens fazem Evans defender sua classe como presidente da Adult Performance Artists Guild (Guilda de Artistas de Performances Adultas, em tradução livre), cargo que ocupa desde 2018 na entidade reconhecida pelo governo americano.

Evans é tanto conhecida por suas performances como seu ativismo, porém seu lado nerd e gamer é uma parte mais colorida e ao mesmo tempo pouco explorada pelo grande público e imprensa.

A entrada neste universo se deu na infância e pré-adolescência nos anos 1980, já demonstrando inteligência acima da média. “Sempre amei games e tecnologia”, relata Evans em entrevista exclusiva ao Yahoo Brasil.

“Eu tinha um Atari 2600 e adorava programar por conta própria com meu Macintosh, lembro de ter sido a primeira criança a ter um computador (no meu bairro) e isto nos anos 80 significava muita coisa”, me conta Evans que na época tinha como game predileto ‘Kings Quest’ (1984), jogável em computador.

A artista teve seus contatos iniciais com as diversões eletrônicas, quando jogava na pizzaria local títulos como ‘Pac-Man’ (1980), ‘Centipede’ (1981) e máquinas de pinball nas quais deixou muitas fichas, na época os games ainda eram maus vistos por muitos pais e tutores, inclusive sendo demonizados, mas seus familiares apoiavam este entretenimento.

Hoje aponta como seus games favoritos na seguinte ordem: ‘The Legend of Zelda: A Link to the Past’ (1991), ‘Gears of War 3’ (2011), ‘Silent Hill’ (primeiro e segundo capítulos; 1999, 2001), ‘Resident Evil 2’ (1998) e ‘The Legend of Zelda: Majora’s Mask’ (2000). Gosta tanto de ‘Zelda’ que tatuou seu símbolo, e, também tem carinho por ‘Injustice: Gods Among Us’ (2013) e ‘Streets of Rage’ (1991).

O que a atraiu cada vez mais para este mundo foi a evolução dos roteiros dos jogos e a interação com a comunidade gamer, a qual conheceu este seu lado em 2011 quando lançou junto da colega de profissão Misti Dawn o canal ‘PwnedbyGirls’ (Esculachado por Garotas, em tradução livre) no qual fãs jogavam com suas atrizes pornôs favoritas.

Alana Evans em premiação de 2016 da AVN Awards. Foto: Albert L. Ortega/Getty Images
Alana Evans em premiação de 2016 da AVN Awards. Foto: Albert L. Ortega/Getty Images

O ano de lançamento coincide com o da plataforma Twitch, a usada pelos streamers atuais, mas que então ainda não tinha estourado. Evans recorda que para transmitir suas sessões tinham de apontar uma câmera para a TV e outra para elas.

“Nós tivemos uma queda no nosso site no primeiro dia! Tivemos muitos acessos, foram 5 milhões em dois dias, tanto que tivemos de fazer um upgrade no nosso host para dar conta do tráfego. A IGN publicou uma matéria e também aparecemos em muitos portais grandes de notícias, foi divertido e excitante”.

Mas cruzar do pornô para outros universos ou mesmo o mainstream sempre foi difícil senão impossível. A pesquisadora, cientista política e educadora social Carolina Bonomi, referência no meio acadêmico quanto pesquisa sobre trabalhadores do sexo, levanta que estas pessoas enfrentam dentro da sociedade preconceitos, e em particular estigmas.

“O pouco conhecimento sobre trabalho sexual leva as pessoas a entenderem as atrizes (pornô) e trabalhadoras sexuais como ilegais”, aponta Bonomi ao Yahoo, a acadêmica crê que reportagens retratando apenas casos de violência e atividades ilegais criam “esse imaginário de mulheres que só vivem em contextos de violência e abuso”.

Questiono Bonomi porque alguns setores do feminismo se opõem ao trabalho sexual e a pensadora pondera: “Olha, é uma questão difícil porque envolve muitos grupos sociais, diferentes vertentes feministas e não quero correr o risco de homogeneizar o debate. Mas de modo geral, a crítica mais contundente é a visão do trabalho sexual como uma violência unilateral. Ou seja, qualquer forma de exercer esse trabalho é considerado uma exploração, uma dominação e uma opressão contra as mulheres, já que o corpo seria considerado uma mercadoria. A isso, se une informações turvas sobre as condições de trabalho, aliando o meio com pedofilia, exploração de crianças e adolescentes, ‘escravidão sexual’ e traumas.”

Com sua paixão pública por games, Evans ajuda a romper tais imagens, mas apesar do sucesso, PwnedbyGirls teve sua última postagem em 2019. Evans me explica que vinham realizando um podcast e que estava trabalhando sob contrato para diferentes empresas de camming para jogos, então a atriz mudou seu foco. Entretanto, o PwnedbyGirls será reformulado com novos streamings e conteúdo, e a produção mais sexualizada de Evans vai para seu site voltado para tais trabalhos que leva seu nome.

Bonomi, doutoranda do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ressalta outras dificuldades de atrizes pornôs como Evans em alcançar o mainstream ou mesmo em se manter no próprio meio, já que “o mercado vem se ampliando, aumentando, tanto em plataformas como também trabalhadores no ramo. Como todo mercado: demanda e oferta aumentam e criam um mercado altamente competitivo”.

Como tantas pessoas no mundo, as atividades profissionais e pessoais de Evans foram afetadas pela pandemia de Covid-19, seu país, os EUA, é o primeiro no ranking de mortes e infecções conforme estudo da instituição americana John Hopkins University, já o Brasil aparece em segundo lugar em mortes e quinto em infecções. Sendo assim, seu streaming de jogos foi afetado já que Evans se preocupou mais com seus trabalhos adultos dadas as incertezas econômicas que vieram com a crise de saúde que agravou problemas econômicos e políticos.

Esta crise assim como outras, como a econômica de 2008, fizeram mais pessoas considerar o mercado do sexo, e Bonomi explica que no cenário atual o ‘sucesso’ está relacionado ao número de seguidores, plataformas, monetização de conteúdos, alcance, engajamento e outras atividades online e offline.

“Ao contrário de um ditado horrível, trabalho sexual não é um trabalho fácil. Exige muitas horas de esforço, redes de contato e trabalho corporal”, afirma Bonomi. A precarização das condições eclodiu no mundo da pornografia e do erotismo que já não eram conhecidos por serem oásis de direitos trabalhistas.

Alana Evans tem um lado gamer. Foto: Divulgação
Alana Evans tem um lado gamer. Foto: Divulgação

O mundo gamer abriu Evans para Dungeons & Dragons

Apesar das dificuldades que vivencia seja por seu trabalho ou pelas crises que o mundo atravessa, Alana Evans não perde seu lado lúdico e antes da pandemia conheceu o fantástico universo do RPG ‘Dungeons & Dragons’ (D&D), um dos pilares da cultura geek e peça fundamental da narrativa do popular seriado ‘Stranger Things’ (2016 -).

Nesta fantasia medieval Alana Evans assumiu a identidade de Eleanora, uma guerreira meio-elfa, a qual descreve como “uma durona independente”, filha de uma artista elfa e de um humano que se apaixonaram, porém tiveram de tomar rumos distintos. “Eu gostava muito de interpretá-la”.

Eleanora não era um lado de sua personalidade, mas alguém pela qual sentiria empatia, as sessões de jogos também foram transmitidas, porém o grupo abandonou as reuniões após serem massacrados e Evans lamenta, pois se esforçou para aprender as regras de D&D.

Além dos games e RPGs, a artista também é engajada em cosplay e já se vestiu como Ciri, personagem do game ‘The Witcher 3: Wild Hunt’ (2015). Bonomi acredita que Evans e suas colegas que entraram no universo geek encontraram um diferencial para seu trabalho ao unir seus gostos por fim diversificando e expandindo seu alcance. De certa forma, tais entretenimentos e hobbies ajudam Evans a lidar com o lado sombrio e ameaçador que enfrenta em sua rotina.

O preconceito e o ódio são vilões piores que dragões ou chefões finais

Ao lançar o PwnedbyGirls, Misti Dawn e Alana Evans sofreram uma intensa campanha de ódio, “ninguém se importava que estávamos recebendo ameaças de morte ou imagens deploráveis enviadas aos nossos e-mails. Toda minha família sofreu com doxxing (quando nomes, endereços e demais dados são expostos na internet), e expuseram a escola de meus filhos, foi realmente horrível. Mas na época por ser uma trabalhadora do sexo muitos acreditaram que eu merecia tal tratamento. Fui resiliente e superei todo o ódio”.

É uma infeliz coincidência que haja vozes tóxicas entre os geeks uma vez que esta mesma cultura já sofreu e ainda sofre muito preconceitos e também já foi vilipendiada como ao ser demonizada, um cenário abordado na quarta temporada de ‘Strangers Things’. Para Bonomi é importante tanto para os geeks quanto para os que trabalham com sexo terem seus meios desassociados das ideias de “doença, violência e crime”. Os golpes que afligem Evans e suas colegas partem muitas vezes daqueles que consumem seus conteúdos.

Do seu jeito, Evans busca ignorar as mensagens de ódio, às vezes tripudia usando trolling contra seus agressores para que outros não pensem em assediá-la, “a este ponto não há nada que possam me dizer que já não tenha sido dito, tenho muita prática ao lidar com isto. Se eles passam de todos os limites, os denuncio para a polícia por importunação, o que infelizmente tive de fazer mais de uma vez”.

Considerando o contexto de mensagens de ódio, pandemia e outros problemas, a saúde mental tornou-se um ponto importante para Alana Evans. “Você tem de ter uma pele mais grossa que Kevlar. Quando você se apresenta para o mundo, seja a indústria adulta ou games, as pessoas vão criticar você. É a natureza da fera que são as redes sociais. Entretanto, faço o meu melhor para não cair nisto, passo o máximo de tempo possível valorizando minha felicidade e isto ajuda a afastar o ódio”.

Ao apresentar seus hobbies, Evans pode ter tido de lidar com outros problemas além dos vivenciados dentro do mundo do pornô, porém com isto ajuda a apresentar outros lados dessas pessoas que como tantos outros possuem uma complexidade maior do que as narrativas anteriores representavam.