Recluso em BH, Ceni mora no CT no Cruzeiro, muda cara do time e encara primeira decisão

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Treinador celeste não espera vida fácil em Porto Alegre, mas pede time sem pressão para encarar o Inter (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)
Treinador celeste não espera vida fácil em Porto Alegre, mas pede time sem pressão para encarar o Inter (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)


Por Afonso Ribeiro (@afonsoribeiro_)

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Quando desembarcou em Belo Horizonte nas primeiras horas do dia 13 de agosto, Rogério Ceni tinha apenas uma preocupação em mente: trabalhar. A situação delicada do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro e a possibilidade de título na Copa do Brasil eram desafiadoras. Três semanas depois, o treinador ainda não teve tempo para encontrar um lar, mas já conseguiu mudar o estilo do time dentro de campo, segue obstinado em vencer e se prepara para a primeira decisão no novo clube ainda invicto.

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Poucas horas depois da emotiva despedida do Fortaleza, entre lágrimas e agradecimentos, no dia 11, o técnico de 46 anos iniciou a preparação para deixar a capital cearense e assistiu ao empate entre Cruzeiro e Avaí pela televisão. Detectou, então, o que precisaria mudar para melhorar o rendimento da equipe e implantar o desejado modelo de jogo ofensivo.

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Ceni chegou a Minas Gerais acompanhado pelo auxiliar técnico Charles Hembert e pelo preparador físico Danilo Augusto, além do advogado João Henrique Chiminazzo, responsável pela parte burocrática da negociação com a Raposa. O outro auxiliar, Nelson Simões, juntou-se ao grupo dias depois porque ainda atuou na vitória do Fortaleza por 2 a 0 sobre o CSA.

Obcecado por trabalho, Rogério passa 24 horas na Toca da Raposa. E não é exagero: ainda sem alugar moradia na capital mineira, o treinador virou hóspede do CT do clube celeste desde que chegou, mas promete se mudar em breve. As malas, provavelmente, terão que aguardar mais um pouco devido à sequência de jogos nos próximos dias.

"Eu já acrescentei, porque antes conhecia hotel, estádio e aeroporto, agora eu já conheço o centro de treinamento. Aliás, aqui eu já estou conhecendo bem. Mas foi importante essa terceira semana já aqui dentro, porque a gente já acorda aqui e começa a conversar com o pessoal de fisiologia, fisioterapia, análise de desempenho", disse o treinador, em entrevista à Rádio Itatiaia.

"Aqui a comida é deliciosa, os funcionários atendem superbem. Todos aqui no clube têm sido espetaculares nessa adaptação, mesmo porque o convívio é grande. Já são 16 ou 17 dias aqui dentro, já não me suportam mais (risos). Mas acho que nessa semana... Mas eu vim aqui para trabalhar, né? Não conheço pessoas aqui, minha vida é em outro lugar. Eu vim aqui pelo trabalho. Eu gosto de ficar aqui dentro, chegar cedo, descer cedo no vestiário e olhar tudo, conversar, ver jogos... Isso aqui é meu trabalho e é pelo que eu me dedico", completou.

Participativo e agitado à beira do campo nos jogos, Rogério deu liberdade e ofensividade ao time (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)
Participativo e agitado à beira do campo nos jogos, Rogério deu liberdade e ofensividade ao time (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)


Além dos intensos e variados treinamentos – que causaram boa impressão no clube, entre dirigentes e jogadores –, o comandante celeste gasta boas horas na companhia dos analistas André Batista, Antonio Almeida e Brunno Noce observando jogos da própria equipe, dissecando os adversários e estudando possíveis reforços. Os contatos com o diretor de futebol Marcelo Djian também são frequentes sobre logística e contratações.

Velocidade no ataque

A primeira cara nova no elenco sob seu comando foi o atacante Ezequiel, que estava no Sport. Antes, a Raposa já tinha procurado Guilherme, também do time rubro-negro, e Everton Felipe, que acabou emprestado pelo São Paulo ao Athletico. O trio já havia sido indicado pelo treinador na época do Fortaleza, em momentos diferentes.

"Para manter velocidade, você tem que ter trocas. Sem trocas, você não mantém velocidade porque o jogador velocista tende a cansar mais rápido. Aqui tem Marquinhos Gabriel, Pedro Rocha, David e o Tom. Se você tem duas trocas para fazer, mantém a velocidade do time. Quando não tem troca de velocidade, em algum momento você vai cair. E é essa a necessidade. No Fortaleza, por exemplo, nossa linha defensiva de seis, volantes e zagueiros, só por lesão nós trocávamos. As três trocas eram sempre para os quatro homens de frente. Mas tinha a característica para colocar esse jogador. Aqui, nós temos jogador de excepcional qualidade, mas de característica um pouco diferente", disse à rádio mineira.

Ceni vê o grupo celeste bem recheado e com qualidade técnica, mas com carência de peças de velocidade no setor ofensivo para o novo modelo de jogo. O clube ainda vasculha o mercado, mas, após observar treinos e jogos, o treinador já mostra certo conhecimento e enxerga possibilidades na base – inclusive para outras posições.

“Vou conhecendo também os garotos, estou vendo muitos jogos dos meninos em vídeo. Às vezes a gente não tem tanta oportunidade no treinamento do dia a dia, quando abre o campo, porque tem que dar mais atenção àqueles que estão jogando. Assim a gente vai conhecendo para poder, ao longo do tempo, quando precisar das alterações, já ter uma noção melhor de cada jogador", afirmou.

Nova postura e invencibilidade

Desde a chegada, Rogério Ceni comandou a equipe em três partidas, com duas vitórias e um empate. Logo de cara, o líder Santos do ídolo Jorge Sampaoli pela frente, no Mineirão. Não titubeou ao colocar Fred em campo ainda no primeiro tempo, após a expulsão de Gustavo Henrique, do Peixe, e viu o resultado: gol e assistência do camisa 9 no triunfo por 2 a 0. O resultado e, sobretudo, a atuação animaram o ambiente celeste.

"Hóspede" da Toca da Raposa, Ceni aproveita as 24 horas na casa celeste para se aprofundar no trabalho (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)
"Hóspede" da Toca da Raposa, Ceni aproveita as 24 horas na casa celeste para se aprofundar no trabalho (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)


Na semana seguinte, confronto com o vice-lanterna CSA, fora de casa. A Raposa saiu na frente com novo gol de Fred, mas viu os donos da casa empatarem na reta final e saiu de Alagoas com um ponto. No último domingo, voltou a jogar como mandante e recebeu o Vasco. Após Fábio brilhar em defesa de pênalti cobrado por Yago Pikachu, o garoto Maurício, que entrou no segundo tempo, chutou forte para garantir a vitória apertada.

"De imediato, ele já mudou algumas peças. Colocou o Fabrício Bruno, que é um zagueiro um pouco mais rápido, tem utilizado o Robinho como um segundo volante, e a mudança tática mais perceptível desse início de trabalho é a liberdade do time para atacar", pontua o jornalista Vinicius Grissi, comentarista da TV Band Minas e da 98 FM. "Os dois laterais estão liberados para atacar ao mesmo tempo, os volantes têm uma condição maior de chegar à frente, de pisar na área. É um time que ataca com mais jogadores, tem essa liberdade", emenda.

O time celeste ocupa ainda a 16ª posição, mas com margem maior da zona de rebaixamento e já conseguindo vislumbrar outras possibilidades – quatro pontos de diferença para a Chapecoense, uma posição abaixo, e três pontos a menos do que o Fortaleza, que está entre os classificáveis para a Copa Sul-Americana, na 12ª posição.

No entanto, o pouco tempo de trabalho e as peças do elenco montado para outro estilo de jogo ainda dificultam a introdução de outros aspectos do trabalho de Ceni.

"A questão da marcação um pouco mais alta, na saída de bola do adversário, muito por uma questão de tempo de treinamento e física, pela idade do elenco do Cruzeiro. A gente tem visto o Rogério pedir para o time marcar um pouco mais baixo, um bloco médio ou baixo. E também a dinâmica da saída de bola, que é algo que o Rogério aposta muito, e que o Cruzeiro ainda não tem conseguido implementar. Tem repetido um problema que já existia com o Mano, da saída muito lenta, dificuldade para sair da defesa e ocupar o campo de ataque. Acho que vai demorar um pouco mais de tempo", pondera Grissi.

Copa do Brasil é chance de título

Além de estabilidade e carta branca para reformular o grupo para 2020, Rogério Ceni viu o Cruzeiro como uma grande chance de disputar – e conquistar – títulos de expressão nacional. A presença do atual bicampeão na semifinal da Copa do Brasil, apesar do revés no jogo de ida, animou o comandante para buscar o terceiro troféu na temporada – ganhou Campeonato Cearense e Copa do Nordeste pelo Fortaleza em 2019.

No primeiro jogo contra o Internacional, no Mineirão, o time celeste perdeu por 1 a 0. Para avançar, portanto, precisa de um triunfo por dois gols de diferença no Beira-Rio, onde os donos da casa defendem longa invencibilidade na temporada e precisam apenas do empate para avançar à decisão do torneio.


Treinos intensos, com participação ativa do ex-goleiro, causaram boa impressão na Raposa (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)
Treinos intensos, com participação ativa do ex-goleiro, causaram boa impressão na Raposa (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)


"É um jogo difícil, bem complicado, onde o Inter é favorito, mas não temos que carregar peso nenhum. Muito pelo contrário. Nós temos que ir lá soltos, tentar pôr a bola no chão, jogar o jogo e aí tentar uma vitória. É difícil? É. Impossível? Não", frisou o técnico, em entrevista coletiva após a vitória sobre o Vasco.

"Tentar se posicionar bem, se defender bem contra o Inter, tentar armar as jogadas, mostrar os caminhos. O Internacional é uma equipe que eu vejo muito parecida em estilo de jogo. Não estou colocando qualidade nem definindo nada disso. Do meio para trás, normalmente com três volantes, um 9 de área, com um meia e um velocista, dois velocistas ou dois meias. São as opções que o Inter tem. Não vai mudar o estilo de jogar, não vai mudar seu jeito de jogar para enfrentar o Cruzeiro. Deve jogar com aquela linha de quatro, um triângulo e a disposição ao redor do 9 é que pode mudar e é a isso que a gente tem que se ajustar. É difícil? É muito difícil. Ninguém está ganhando do Inter lá, não tem ninguém nos últimos tempos que ganhou. Nem o Flamengo, que jogou tão bem, conseguiu a vitória. Mas é possível conseguir. Nós vamos lá para isso", explicou.

A partida ainda reserva um ingrediente especial para Ceni: o Colorado é o time do pai Eurydes. “Ficava e fico sentido de ter que torcer contra o Inter, meu time do coração, mas meu filho está acima disso. Não tem como ser diferente”, garantiu o genitor do ex-goleiro à Rádio Grenal.

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