Recepção ou interferência: qual é a pior era dos árbitros da NFL?

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Jogada na decisão da NFC da última temporada ajudou na tentativa de mudança da regra de interferência de passe (John David Mercer-USA TODAY Sports)
Jogada na decisão da NFC da última temporada ajudou na tentativa de mudança da regra de interferência de passe (John David Mercer-USA TODAY Sports)

Por Charles Robinson (@charlesrobinson)

Durante boa parte da década, a NFL pegou um aspecto simples do futebol americano – a recepção – e transformou em uma das maiores controvérsias de arbitragem da história da liga. Comissões técnicas, diretores, jogadores e até torcidas inteiras, aparentemente todos os observadores da NFL se viram presos na insensatez da pergunta mais básica.

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Quando uma recepção é realmente uma recepção?

Por anos, a resposta foi sempre mudando, mas nunca deixou de ser frustrante. Quando um pequeno ajuste nas regras em 2018 trouxe uma resposta definitiva a essa dúvida, imaginou-se (ou esperava-se, pelo menos) que a NFL não fosse encontrar outra polêmica de arbitragem tão paralisante. No entanto, a apenas seis semanas do início da temporada 2019, o problema da interferência no passe já se transformou na nova fonte de dor de cabeça para a arbitragem da NFL.

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A pergunta não é mais se o jogador tem o controle da bola enquanto cai.

Agora, é um teste ocular ainda mais enlouquecedor: "O que é uma evidência visual clara e óbvia"?

A impressão é de que os árbitros da NFL têm cada vez menos certeza conforme a temporada avança. Flanelas sendo jogadas quando não deveriam, ou permanecendo imóveis na cintura do árbitro quando praticamente todo mundo no estádio que não usa roupa listrada em preto e branco consegue enxergar uma infração. Até quando os técnicos usam o sistema de desafio, pelo qual lutaram durante a offseason, a confusão aumenta ainda mais, chegando a fazer da nova regra uma completa inutilidade. A ponto de, mesmo quando está claro que os juízes tomaram a decisão errada em campo, a devida correção ser anulada pelo vice-presidente sênior de arbitragem Al Riveron, que dá a palavra final em seu trono em Nova York e que, aparentemente, se recusa a deixar que os técnicos possam de fato reverter os erros.

Esse é o resumo da Semana 6. Um intervalo de três dias, de quinta-feira a domingo, que gerou mais reclamações sobre interpretações de interferência de passe do que a regra da recepção conseguiria produzir em um mês. Se continuar assim, essa pode se tornar a temporada mais frustrante em termos de arbitragem na história da liga. Agora, os torcedores não só estão atentos aos erros de interferência de passe, como também costumam ter razão quando veem um. Isso vai enlouquecer todo mundo ainda mais, porque o mecanismo usado para corrigir o problema está sendo sabotado por Riveron. Os técnicos sabem disso, os executivos também. E o comissário Roger Goodell será questionado sobre isso até o dia de sua iminente aposentadoria ou até que o desafio da interferência de passe seja derrubado na próxima offseason. O que acontecer primeiro.

Essa é a dimensão da bagunça. O problema é tão grande que vai fazer os torcedores implorarem pela simplicidade dos dias em que se discutia se Dez Bryant conseguiu a recepção ou não.

Se você não acredita, vamos dar uma olhada nos desafios de interferência de passe da tumultuada semana 6. A confusão começou com Golden Tate do New York Giants sofrendo claramente uma interferência na derrota de 35 a 14 para o New England Patriots diante de todo o público do "Thursday Night Football", e o erro foi mantido inexplicavelmente por Riveron depois que o técnico dos Giants, Pat Shurmur, atirou a flanela de desafio. Foi um mau começo, e só piorou.

Agora, vamos analisar três outros desafios que ilustram como os problemas de interferência de passe provavelmente causarão transtornos nos próximos jogos, só que de formas diferentes. Dois deles aconteceram no mesmo jogo e envolveram o mesmo jogador, o tight end do Kansas City ChiefsTravis Kelce:

  • No primeiro quarto da derrota em casa dos Chiefs por 31 a 24 para o Houston Texans, Kelce barrou o safety do Texans, Jahleel Addae, que deveria marcar o running back Darrel Williams enquanto disparava pelo campo para uma jogada de passe. Foi um caso claro de interferência de passe ofensiva de Kelce, que bloqueou Addae antes que a bola saísse das mãos do quarterback dos Chiefs, Patrick Mahomes. O resultado foi uma recepção de Williams em uma corrida de 52 jardas para a end zone. Os Texans atiraram a flanela de desafio, reclamando, com razão, de uma interferência de passe ofensiva. Mais uma vez, Riveron manteve o erro, continuando a tendência desta temporada de corroborar as decisões que se provaram incorretas pelo replay.

  • No segundo quarto do mesmo jogo, Kelce tentou dar dois cortes em um defensor do Texans, mas foi segurado pelo pescoço depois das cinco primeiras jardas da linha de scrimmage e jogado ao chão. A flanela foi atirada, supostamente indicando uma interferência de passe ou holding. Após o contato, Mahomes lançou a bola para a end zone e levou sua primeira interceptação da temporada. Pela forma como a jogada aconteceu, Mahomes pareceu ter visto o contato em Kelce e jogou a bola para longe, esperando a flanela.

    Inexplicavelmente, os juízes ignoraram a flanela e permitiram que a interceptação fosse mantida, alegando que não poderia ter sido holding porque a bola estava no ar quando o contato ocorreu (não estava), e que não poderia ser uma interferência porque o passe não era destinado a Kelce. Este último argumento impediu que o técnico dos Chiefs, Andy Reid, desafiasse a jogada por causa das novas regras de interferência de passe. Os replays mostraram que Kelce foi claramente agarrado. Mesmo assim, não houve revisão nem como interferência, nem como holding, em mais um equívoco dos árbitros.

  • No terceiro quarto da derrota do Dallas Cowboys por 24 a 22 para o New York Jets, uma recepção para touchdown de Jason Witten foi anulada após os juízes marcarem incorretamente uma interferência de passe ofensiva no wide receiver Cedrick Wilson na end zone. No replay, fica claro que Wilson seguiu uma rota vertical e foi barrado por um defensor dos Jets, criando um verdadeiro congestionamento que pode ter parecido uma jogada de interferência. Apesar de o replay mostrar o contrário, o treinador Jason Garrett decidiu não desafiar a decisão, muito provavelmente por já ter perdido outros desafios, o que indicou que os técnicos sabem que nem mesmo desafios corretos anularão decisões equivocadas nessa temporada, gerando uma dúvida sobre quando usar um timeout para pedir revisão.

Contra os Texans, Kelce foi protagonista de duas jogadas que poderiam ter sido corrigidas (David Eulitt/Getty Images)
Contra os Texans, Kelce foi protagonista de duas jogadas que poderiam ter sido corrigidas (David Eulitt/Getty Images)

Essas três jogadas, além do deslize da noite de quinta-feira envolvendo Tate, são alguns dos muitos problemas relacionados a interferências de passe e decisões interpretativas que surgiram no fim de semana. Mas foram sólidos pontos de interseção que demonstraram problemas evidentes. Antes de mais nada, Riveron não está anulando corretamente as jogadas de acordo com o livro de regras. Em segundo lugar, os treinadores enxergam isso e estão evitando os desafios porque sabem que a regra não está funcionando como deveria. E, por fim, os árbitros continuam cometendo erros em decisões interpretativas, e ainda não há uma solução para os momentos em que os técnicos têm razão em buscar uma decisão favorável.

E a parte mais frustrante disso tudo é que está se formando um consenso na liga de que a interferência de passe talvez seja anulada em um desafio se o contato for escandaloso o suficiente ou se acontecer em um momento que pode afetar o resultado de um jogo importante, como o fiasco do jogo do título da NFC entre New Orleans Saints e Los Angeles Rams, que foi o estopim para a criação do desafio dos treinadores.

Não há como destacar o absurdo dessa afirmação sem repetir: uma decisão equivocada óbvia pode ser anulada se for "errada o suficiente" a ponto de ser flagrantemente absurda ou se ocorrer em uma partida importante. As demais serão mantidas.

E nós achávamos que os debates sobre recepção da NFL antes da temporada de 2018 eram frustrantes.

Nunca em todos esses anos de discussões pífias sobre se a recepção aconteceu ou não um membro da comissão de arbitragem da liga disse "sabemos que foi uma recepção, mas vamos dizer que não simplesmente porque podemos". Porque, para todos os efeitos, é o que a NFL está comunicando: a regra existe em alguns momentos, mas não em outros, de acordo com motivações desconhecidas e com base na interpretação de alguém como Riveron. Basicamente, é um ponto aberto a interpretações e um conjunto de circunstâncias que mudam arbitrariamente, mas ninguém tem coragem de dizer em alto e bom som. Isso faz de Riveron uma espécie de juiz de patinação artística dos Jogos Olímpicos e da NFL, um esporte com regras baseadas mais na percepção do que em definições objetivas.

Vamos admitir: o desafio dos técnicos é um fracasso completo, porque não fazemos ideia de quando ou em que situação ele deve ser aplicado de acordo com as rígidas orientações das regras de interferência de passe. Uma "evidência clara e óbvia" soa mais como uma determinação dos gostos pessoais de Riveron, como um sommelier identificando quais harmonizações de vinho e queijos são mais apropriadas para a ocasião.

Ninguém na NFL deve estar contente com isso, principalmente os treinadores que lutaram pelos desafios para deixar o jogo mais vinculado às regras. Riveron não está permitindo que isso aconteça, e seus superiores na liga não estão intervindo. Tudo isso monta o cenário para discussões que vão durar por anos a fio.

Saímos de uma era de trevas na arbitragem e entramos em outra — e todos nós estamos à mercê dela.

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