A receita da seleção para cuidar da saúde mental dos atletas e tirar a pressão no início da Copa

O ambiente da seleção brasileira na Copa do Mundo foi estruturado com uma preocupação principal, que está por trás das duas vitórias iniciais e a classificação antecipada às oitavas de final: a saúde dos jogadores, não só física, como mental, é a prioridade no dia a dia de trabalho e de jogos.

Das frases que se multiplicam no vestiário do Centro de Treinamento localizado no estádio Grand Hamad, uma resume com perfeição a intenção nos bastidores, que é de tirar o peso da disputa de um Mundial para um grupo mais jovem do que em 2018, mas sem abrir mão da responsabilidade: "Concentrem e desfrutem".

O lema tem sido alcançado com um grande entrosamento entre os atletas dentro e fora das quatro linhas, mas também com interação constante junto aos familiares. Sem falar nos cuidados oferecidos por ex-campeões do mundo que exercem papéis variados na comissão técnica, e dividem toda sua experiência.

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— A gente vê muita coisa, no hotel, no treino, no vestiário. Essa alegria deles, na batucada. Há responsabilidade e descontração — afirmou Taffarel, preparador de goleiros e campeão do mundo em 1994. Segundo ele, o grupo está focado no objetivo de fazer os sete jogos e ser campeão:

— Vivendo isso no dia a dia. Não tem um senão, uma reprovação, um cuidado. Acaba o jogo, é outra história, outro adversário. É um prazer viver isso.

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Diferentemente da Copa de 2018, quando havia uma mistura maior com a presença dos convidados dos atletas no mesmo hotel, agora é tudo dividido, com momentos para trabalhar e para relaxar. Em Sochi, baunerário russo, o dia a dia era de convivência diária dos atletas com seus entes próximos. E os envolvidos remanescentes do último torneio admitem que dessa vez o plano tem sido melhor.

Na Rússia, houve vazamento de treinos por parte de amigos de jogadores, reclamações de parentes sobre escalação e pouca privacidade. A circunstância enfraqueceu o então diretor de seleções, Edu Gaspar, que era quem coordenava tudo, acima de Tite. Hoje, Juninho Paulista, campeão em 2002, ocupa a função e é visto com semblante tranquilo e alegre ao verificar que esse tipo de preocupação tem dado resultado.

— Não tem nenhuma competição parecida. Por mais experiência que se tenha, o primeiro jogo, o início de Copa, é diferente — admite o pentacampeão, preocupado com o aspecto mental nos primeiros compromissos.

Leveza no dia a dia

Entre curtos intervalos, um clima mais seco e fuso horário bem diferente do Brasil, a concentração da seleção brasileira ganha, após as primeiras partidas, um ar cada vez mais familiar, com a presença de parentes e amigos sempre que é possível. A cada dia que passa o otimismo cresce e o CT recebe mais pessoas e mais animação. Mas quando se aproxima da preparação para o próximo jogo, há uma blindagem gradativa. O estádio todo preparado para a rotina de trabalho funciona como uma empresa preocupada que seus funcionários estejam felizes, e não apenas sejam explorados.

Jantar com família

Assim que a rotina e as obrigações acabam, como na reapresentação de ontem após o jogo com a Suíça, as crianças entram em campo. Filhos pequenos dos jogadores quebram o clima e filtram a pressão ao brincarem com bola junto aos pais, tios e membros da comissão técnica. Depois da atividade, os jogadores foram liberados para jantar com os familiares em Doha e se reapresentar no hotel apenas para domir, afrouxando ainda mais o protocolo. Hoje e amanhã, antes do jogo contra Camarões, o foco será retomado e a privacidade volta a prevalecer.

O contato entre as famílias dos atletas e membros da comissão acontece desde o início da preparação, na Itália, quando os treinos eram abertos, mas no hotel não. No momento do encontro presencial, os profissionais da seleção dedicam atenção exclusiva pelo tempo que é permitido, e depois voltam ao trabalho. A partir do primeiro jogo da Copa, logo que a partida termina, os jogadores se direcionam automaticamente para as arquibancadas para os contatos com seus familiares. Muitos sobem até a área de torcedores e ficam desfrutando por um tempo, tirando fotos, quando a maior parte do público já foi embora. O comportamento tem se tornado hábito, assim como também tem se tornado frequente o discurso que percorre o vestiário e está na boca dos membros da comissão técnica: de que em primeiro lugar está a pessoa, não o jogador.

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O mantra vale não só para tirar a pressão por estar em uma Copa do Mundo, mas também para que os atletas não se sintam obrigados a ser máquinas que não podem falhar nessas circunstâncias. O exemplo mais emblemático do momento é a recuperação de Neymar e Danilo, e agora Alex Sandro, que têm recebido solidariedade dos demais jogadores, preocupados que os amigos fiquem bem em primeiro lugar, e não que voltem correndo para jogar. A comemoração de Vini Jr no gol anulado contra a Suíça imitando o ídolo ilustrou bem como o camisa 10, mesmo em recuperação de lesão, segue vivendo esse ambiente, e a mobilização por seu retorno acontece em um misto de exaltação e proteção.

— É um cara muito importante para os demais jogadores. Vejo o quanto eles gostam de estar perto dele, fora e dentro de campo. Uma referência muito grande. Vai ter o nome marcado, é um protagonista, e tem que estar no meio da história, e vai estar — apostou Taffarel.

Há, por outro lado, uma rotina própria dos atletas entre si nos ambientes fechados, que também contagia por aliar leveza e compromisso. A batucada no ônibus para os jogos e no vestiário minutos antes da partida se tornou uma marca que vem desde os primeiros treinos em Turim. Ou seja, há uma pré-disposição em desfrutar do momento, vestir a camisa da seleção e viver na plenitude a Copa do Mundo com alegria.

— Me sinto representado. É uma geração que tem do meio pra trás jogadores mais experientes, na frente os mais jovens, e o acesso à informação acontece de diferentes modos. Mas todos com amor pela pátria. A gente vê o quanto há de entrega, profissionalismo, no pré e no pós-jogo — salientou César Sampaio, auxiliar de Tite e vice-campeão em 1998.

Sampaio, Juninho, Taffarel e o observador técnico Ricardo Gomes concenderam entrevista coletiva que reforçou a imagem de um grupo protegido por grandes campeões. No fim do bate-papo, sem a presença de jogadores, posaram para foto com Zinho e Júnior, que também integram a seleta lista de atletas com títulos mundiais. Cercados por carinho e por um ambiente que exala sucesso em campo, a seleção brasileira segue firme na busca pelo hexacampeonato.