Rebeca diz que ouro com 'Baile de Favela' é 'para mostrar do que o preto é capaz'

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP - 14/11/2021 - GP BRASIL DE FÓRMULA 1 -  A ginasta Rebeca Andrade,  no autódromo de Interlagos na tarde deste domingo, 14.(Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP - 14/11/2021 - GP BRASIL DE FÓRMULA 1 - A ginasta Rebeca Andrade, no autódromo de Interlagos na tarde deste domingo, 14.(Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi a apresentação de solo de Rebeca Andrade que encerrou a final individual geral feminina do Mundial de ginástica, em Liverpool, na Inglaterra. Quando foi interrompida a melodia de "Baile de Favela", a brasileira ergueu o braço, momento derradeiro de sua coreografia, e apenas esperou a medalha de ouro.

Líder desde a primeira rotação, com uma execução excepcional no salto, ela precisava de um 12.901 para se manter à frente da norte-americana Shilese Jones. Os 14.400 lhe deram a conquista com folga, e ela pôde enfim comemorar um grande título com a música que a embalou nos últimos anos.

"É para mostrar do que o preto é capaz", afirmou, em entrevista ao SporTV. "Eu me sinto muito orgulhosa de levar essa música para o mundo todo, feliz que ela buscou o ouro. Acho muito, muito, legal que as pessoas tenham realmente gostado da música, da coreografia. Você vê como o público se levanta."

"No Brasil, são muitas dificuldades que uma pessoa preta tem para chegar ao alto rendimento. Para chegar, eu tive muita ajuda, de todo o mundo, dos vizinhos, dos que emprestaram dinheiro, fiquei na casa dos outros para treinar. Então, representa toda a minha história, toda a minha luta. Espero continuar fazendo história", acrescentou.

Agora, a paulista de Guarulhos adotará nova coreografia, com outra trilha. "É até triste me despedir", afirmou. Mas o funk de MC João –que foi composto em 2015 e explodiu no Réveillon de 2016, exaltando bailes de rua de São Paulo e retratando sua realidade– já está na história da ginástica artística brasileira.

Também está na história o nome de Rebeca, primeira pessoa do país a conquistar o título individual geral no Mundial. Ela já tinha levado ouro por aparelhos no salto –nos Jogos Olímpicos de Tóquio e no Mundial do Japão, ambos em 2021–, mas foi só agora que assumiu o posto de ginasta mais completa do planeta.

"Significa todo meu trabalho, o trabalho da equipe disciplinar, o das meninas que treinam comigo. A gente trabalha muito duro. E estou muito orgulhosa das meninas que se apresentaram também. Sei quanto trabalho e tenho certeza de que elas trabalham muito também. Por isso, arrasaram", disse a atleta de 23 anos.

Estudante universitária de psicologia, ela exaltou também a atuação de sua psicóloga. Sempre demonstrando muita calma, a brasileira não teve celebrações em lamentações efusivas como muitas de suas adversárias. Ela disse não ter prestado atenção no desempenho das concorrentes para ficar concentrada no seu.

"Não gosto de pensar no que as pessoas estão fazendo, mas no que eu realmente tenho que fazer", declarou. "Eu não percebo nada, não vejo nada. Vejo as meninas fazendo as provas, mas ao mesmo tempo estou muito nos meus pensamentos. Sabe quando você está vendo televisão, mas começa a mexer no celular e só percebe o movimento?"

A tática funcionou.