Racista de Valinhos choca por escancarar o que deveria ser velado

Matheus Pichonelli
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“Você tem inveja disso daqui, das famílias daqui, você tem inveja disso aqui”, disse autor da injúria racial ao motoboy. Foto: Reprodução
“Você tem inveja disso daqui, das famílias daqui, você tem inveja disso aqui”, disse autor da injúria racial ao motoboy. Foto: Reprodução

Foram justas, eloquentes e -- não surpreendentemente -- unânimes as reações contra a atitude do morador de um condomínio de alto padrão que tentou humilhar, com ofensas racistas, o jovem entregador negro em Valinhos (SP).

De Jair Bolsonaro a Luiz Inácio Lula da Silva, passando por Luciano Huck, não teve quem não saiu em defesa do motoboy Matheus Pires Barbosa, de 19 anos. Ele foi chamado de “lixo”, “semianalfabeto” e ouviu do agressor que tinha “inveja” dele por não ter condição de morar num lugar como aquele.

"Independentemente das circunstâncias que levaram ao ocorrido, atitudes como esta devem ser totalmente repudiadas. A miscigenação é uma marca do Brasil. Ninguém é melhor do que ninguém por conta de sua cor, crença, classe social ou opção (sic) sexual", escreveu o presidente no Facebook. "Que a indignação dos brasileiros sirva de lição para que atos como esse não se repitam. Todos somos iguais! Embora alguns trabalhem para nos dividir, somos um só povo! Meus votos de solidariedade e sucesso ao entregador Matheus, bem como a toda sua família. Deus os abençoe!”

Filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro chamou o agressor de “babaca” e elogiou a postura do motoboy, que não se acovardou. “Muitas pessoas humildes batalharam e conseguiram elevar seu padrão de vida, por que não o motoboy também? Jogar na cara dos outros sua própria riqueza material é argumento dos fracos. Amém, Mateus!”

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Já o ex-presidente Lula escreveu nas redes que ficou “enojado de ver a ignorância de um cidadão tentar desqualificar um trabalhador que estava ganhando o pão de cada dia na sua moto, suando a camisa honradamente, e foi agredido por um ignorante”.

Parece uma rara confluência de opiniões num contexto em que nem mesmo o combate a uma pandemia sugere união. Mas não é bem assim.

Pelas redes, correram imagens associando o contabilista e autor da injúria racial, Mateus Abreu Almeida Prado Couto, de 31 anos, com outros casos de agressão, como as carteiradas de um desembargador em Santos, do casal em um bar na Barra da Tijuca e de outro morador de condomínio que ofendeu um soldado da PM em Alphaville. Em comum, cravava a fotomontagem, é que todos eles eram eleitores do presidente Jair Bolsonaro -- Prado Couto seria fã também de Olavo de Carvalho, conforme uma postagem nas redes espalhada por sites anti-governo.

Podem até ser, e isso não é exatamente uma coincidência, mas quem está em disputa aqui é o outro Matheus, representante de um país inteiro onde 38 milhões de brasileiros vivem na informalidade.

Destrinchados, os comentários do presidente e de seu filho deputado ajudam a explicar por que eles correram para se posicionar neste caso.

Bolsonaro pai começa a nota falando em “circunstâncias”, como se elas pudessem ser determinantes para tirar alguém da razão por destempero. Ele repudia a atitude, mas não o agressor; não usa também a palavra “racismo”.

Em vez disso, Bolsonaro se escora no mito da miscigenação como elemento agregador, uma “marca” de um país onde “todos somos iguais” e “ninguém é melhor do que ninguém por conta de sua cor, crença, classe social ou opção (sic) sexual”. Nem parece o mesmo Bolsonaro que calculava o peso de pessoas negras em arrobas e dizia preferir um filho morto a um filho homossexual.

Aqui a mensagem é que “somos um só povo”, “embora alguns trabalhem para nos dividir”. Como na condução da pandemia, faltou pedir para as vítimas de ações diárias como aquela ignorarem a questão e tocarem a vida.

Bolsonaro filho completou o raciocínio dizendo que “muitas pessoas humildes batalharam e conseguiram elevar seu padrão de vida”. “Por que não o motoboy também?”.

Aqui está um ponto-chave para entender por que a família Bolsonaro, a mesma que se omite quando um jovem da periferia é assassinado pelo Estado, não hesitou em jogar na estrada um suposto apoiador.

A fala do agressor precisa ser enxotada por eles porque nomeia o que deve permanecer silenciado como alegoria.

Para esta alegoria escorada no mito da democracia racial o problema não é o racismo, escancarado já na divisão entre negros e brancos de quem mora e quem trabalha num condomínio de alto padrão. O problema é que, ao dizer que o jovem motoboy jamais teria o que o racista tem, o racista indisfarçado boicota o mito de que, se o jovem entregador seguir trabalhando cada vez mais por cada vez menos para outros patrões brancos, como os gigantes da “economia de bico”, um dia terá acesso àquela riqueza também.

Para seguir movimentando as engrenagens da exploração, é antes necessário acreditar que “tudo isso” -- e cabe muita coisa aqui, inclusive uma casa em condomínio -- um dia pode ser seu. Meritocracia, lembram?

Sob este mito é possível passar a vida boicotando as escadas, negando as feridas abertas da escravidão, sabotando sistemas de cotas, sucateando o acesso universal a serviços públicos e direitos básicos, estimulando a violência policial e fingindo não ver quem serve e quem é servido em restaurantes, repartições públicas e espaços de opinião.

O apoio ao jovem Matheus é justo e eloquente, mas soa como carta de boas intenções quando se ignora a potência de mobilizações como o breque dos apps, que reivindicam justiça e melhores condições de trabalho. Mas aí talvez seja pedir demais para quem prefere vender como gato a lebre de um país unido, sem desavenças ou injustiças.

Na ótica dos que marchavam juntos até outro dia, o pecado de Mateus foi botar em palavras um fosso construído, mantido e alimentado pelo não-dito. Até lá o mundo ainda será dos herdeiros. Inclusive a liberdade.