Quilombo urbano composto por mulheres negras denuncia agressão de homem branco

Alma Preta
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Gestora da Casa Akotirene, Joice Marques publicizou o caso pelas redes sociais; Agressor fez live pedindo desculpas e alegando que não lembra de nada (Foto: Reprodução internet)
Gestora da Casa Akotirene, Joice Marques publicizou o caso pelas redes sociais; Acusado das agressões fez live pedindo desculpas e alegando que não lembra de nada (Foto: Reprodução internet)

Texto: Redação Alma Preta | Imagem: Reprodução da internet

Um dia após a primeira atividade festiva, que deu as boas vindas ao ano de 2021, o quilombo urbano Casa Akotirene, na Ceilândia Norte, Distrito Federal (DF), viveu uma “cena de horror”. As palavras foram usadas pela presidente da organização política formada por mulheres negras, Joice Marques, para descrever um caso de agressão que ocorreu dentro do espaço e que foi denunciado por ela via redes sociais.

Segundo depoimento postado no Instagram, no último domingo, perto das 0h, o produtor e músico Jefferson Silva, que se relacionava com uma das mulheres que vivem no espaço, criado em 2019, agrediu verbalmente e tentou agredir fisicamente e ameaçou todas as integrantes da casa. Em um excesso de “raiva”, ele quebrou equipamentos de trabalho da ex-companheira contra quem desferiu palavras de baixo escalão. “Meu filho ouviu a confusão e foi até o apartamento onde eles estavam para tentar ajudar. Eu e minha companheira acordamos e corremos pra ver o que estava acontecendo”, conta Joice.

Além dos danos morais, o homem também deixou um saldo de prejuízo material ao danificar a horta da Casa, que é referência em espaço de acolhimento psicossocial para mulheres negras e LGBTQI+ e práticas afrocentradas numa região de grande vulnerabilidade social. “Ele começou a frequentar o local por causa do envolvimento com um mana preta. Nunca imaginamos que algo desse tipo fosse acontecer em um espaço que nasceu para ser um local seguro para as mulheres. Ele estava descontrolado e xingando muito todo mundo. Foi uma cena de horror”, comenta a gestora, que desabafou nas redes sociais minutos depois da agressão.

A vítima não prestou queixa, mas escreveu em suas redes: “Resiste preta! Apesar das agressões não terem sido físicas, as marcas de quem passa por relacionamentos violentos, são extremamente profundas. Com tudo, os meus e as minhas que estiveram e estão ao meu lado, por mim e por vcs eu permaneço viva e firme. Obrigada a todos pelo apoio, e pelas lindas palavras de afeto. Sigo recolhida me recuperando, refletindo, e fazendo o que sei fazer de melhor, desenhar/ tatuar nossa ancestralidade, em nossa pele”. Mensagens de apoio foram deixadas nos comentários.

Segundo Joice, no dia seguinte ao ocorrido, o agressor fez uma live em seu perfil no Instagram pedindo desculpas e afirmando que não lembrava de nada. Ele também apagou todas imagens, mas deixou um quadrado preto no feed, que recebeu comentários de repúdio. “Como produtor eu tinha respeito por vc, agora tenho nojo”, escreveu uma seguidora. A reportagem entrou em contato com o produtor via redes, mas não obteve retorno.

“O que aconteceu só mostrou o quanto estamos vulneráveis já que nem mesmo dentro de um espaço de uma organização política feminina estamos seguras. Estamos digerindo tudo isso e refletindo muito sobre a solidão da mulher negra, que muitas vezes nos coloca em relações abusivas. Isso não é sobre uma. É sobre todas nós”, comenta Joice. A Casa Akotirene ofereceu acolhimento psicossocial e orientação jurídica para a vítima.

Sobre o espaço

A Casa Akotirene é um quilombo urbano criado no início de 2019 por meio da articulação das mulheres negras do coletivo Afromanas para concretizar ações e dialogar com a comunidade local de uma das regiões mais pretas do DF. O projeto promove a construção de saberes sobre a identidade afro-brasileira abordando temas como racismo, machismo, LGBTQIfobias e todas as formas de opressão que sofrem os grupos em vulnerabilidade. O espaço também engloba um bazar, a Cozinha Cestayô e realizar atividades como rodas de conversa e autocuidado, empreendedorismo, oficinas, além da promoção de ações artísticas e culturais juntamente à comunidade é a metodologia empregada pela casa.