Querem tirar dignidade de pessoas trans, diz atleta de vôlei Tifanny

CARLOS PETROCILO E JOÃO GABRIEL
Folhapress
**ARQUIVO** BELO HORIZONTE, MG, 26.10.2018: A ponteira Tifanny Abreu, da equipe de Bauru, durante partida pela Superliga feminina de vôlei 2017/2018, no ginásio Arena Minas. (Foto: João Guilherme/Raw Image/Folhapress)
**ARQUIVO** BELO HORIZONTE, MG, 26.10.2018: A ponteira Tifanny Abreu, da equipe de Bauru, durante partida pela Superliga feminina de vôlei 2017/2018, no ginásio Arena Minas. (Foto: João Guilherme/Raw Image/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aos 34 anos e com a consciência de que não terá mais um longo tempo de carreira pela frente, Tifanny Abreu, a primeira jogadora transexual na Superliga feminina de vôlei, divide suas atenções entre as quadras e a plenária da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

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Na última terça (8), a atleta trocou o tênis pelo sapato, vestiu roupa social e foi para a Casa. Ela é uma das pessoas que tentam barrar o projeto de lei que limita a atuação de transgêneros no esporte paulista.

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A proposta do deputado Altair Moraes (Republicanos) estabelece que o sexo biológico seja o único critério para definir se um atleta deve competir na categoria feminina ou masculina. Se aprovada, determinará que mulheres trans só poderão competir entre homens, e homens trans, entre mulheres.

"Querem nos proibir de estar no mercado de trabalho e buscar outro tipo de vida digno como queríamos. Não que as meninas na prostituição deixem de ser dignas. Algumas gostam e, se gostam, têm esse direito. Mas a maioria está ali porque não tem outra opção", diz em entrevista à reportagem.

Tifanny ganhou notoriedade ao estrear na Superliga feminina de vôlei pelo Bauru, no final de 2017. Criada em uma família com católicos e evangélicos, sofreu desde então com críticas vindas de políticos representantes dessas bancadas. "Vivemos em um governo onde tem deuses. Tem Deus na boca e não no coração", afirma.

A atuação da jogadora no país é avalizada pela Confederação Brasileira de Vôlei, que segue os critérios do COI (Comitê Olímpico Internacional). A determinação da entidade é de que mulheres trans podem competir na categoria feminina se comprovarem ter nível de testosterona abaixo de 10 nmol/L.

Confira a entrevista completa:

Pergunta - Caso a lei em discussão na Alesp seja aprovada, você teme pelo fim da sua carreira?

Tifanny Abrey - Não vai mudar em nada na minha vida, não existe time de vôlei somente em São Paulo e posso jogar em qualquer lugar do mundo. Eu pretendo jogar no Brasil até o ano que vem e [depois] vou voltar para a Europa. Se for aprovada, só [entrará em vigor] depois que acabar a Superliga [o torneio começa em novembro e vai até abril].

Então como ela afetaria sua vida?

TA - Estou aqui lutando por crianças e adolescentes trans, que têm o sonho de serem cantor, ator, repórter ou atleta profissional. Eu não perco mais o meu dia de sono, como já cheguei a perder, porque esse homem [Altair Moraes] só quer ganhar fama. Mas a justiça de Deus não falha. Ele vai pagar por isso, e eu vou estar na Europa, bem bonitinha, batendo palma.

Como estão outros atletas trans e a comunidade esportiva em geral diante dessa lei?

TA - Não existem atletas trans no Brasil. As atletas [de vôlei em geral] estão pasmas com tanta falta de caráter. Nós estamos perplexas, ainda mais por entrar em regime de urgência [na tramitação da Casa], sendo que urgência no estado deve ser educação, saúde e segurança pública. A urgência é parar as pessoas trans no esporte? A comunidade esportiva, no geral, só se preocupa com o COI, que está acima das confederações, federações. O COI determina, e as entidades seguem. Essa lei vai contra as decisões do COI, e com qual embasamento?

O projeto afirma que o nível de testosterona entre homens e mulheres é bem diferente...

TA - Não tem uma pesquisa. Ele simplesmente se juntou com a [ex-jogadora de vôlei] Ana Paula e fez isso. Mas não tem nenhum embasamento. Em 2016, o COI decidiu as novas diretrizes e, então, [disse] que não necessitava cirurgia de sexo, era só a testosterona. Fiz [também] a cirurgia, e minha testosterona nunca vai subir porque não tenho produção.

O deputado diz que fez esse projeto baseado em sua experiência de 'quase 40 anos como faixa-preta de karatê'.

TA - Pergunta se ele lutou contra algum homem trans? Qual a vivência, qual o contato em uma luta para saber se a força é igual, maior ou menor de um homem trans? Ele compara Michael Phelps com Joanna Maranhão. O Michael Jordan com a Hortência. Giba com Sheilla. Não se compara homem com mulher. Estamos falando de mulheres trans e homens trans. É só pegar os meus pontos da Superliga e comparar com as outras jogadoras, vai estar tudo igual. Isso ele não faz, porque sabe que vai ser um estudo inconclusivo para ele.

O que esse projeto significa no Brasil, um dos países que mais cometem crimes contra LGBT?

TA - Alimenta o ódio, proíbe as pessoas de trabalhar e obriga a ir para a prostituição, onde tem muito mais risco de assassinatos. Querem nos proibir de estar no mercado de trabalho e buscar outro tipo de vida digno como queríamos. Não que as meninas na prostituição deixem de ser dignas. Algumas gostam e, se gostam, têm esse direito. Mas a maioria está ali porque não tem outra opção

Como você vê as pautas trans e LGBT na política brasileira?

TA - Pouco a pouco estamos conseguindo nossos espaços. A Erica [Malunguinho, do PSOL, primeira deputada trans eleita em São Paulo] está aqui na Alesp, mas enfrenta várias resistências. Assim como eu enfrento, outras mulheres e homens trans enfrentam no mercado de trabalho. É difícil para a gente viver em um país onde você tenta ser digna, mas um político tira a sua dignidade.

O projeto cita incorretamente que você foi eleita a melhor jogadora do país em 2018. Acredita que já deveria ter sido eleita a melhor do Brasil ou ter sido chamada à seleção?

TA - Não é injustiça, os números não mostram isso. Até quando falaram de seleção, meus números estavam abaixo das outras atletas. Como vou ganhar uma coisa que não fiz por merecer? Eu ser eleita a melhor atleta de um jogo é uma coisa, cada dia uma está melhor na partida. Mas para ser a melhor da Superliga é preciso de uma regularidade muito grande, e eu não tive. Eu fui, sim, a melhor do Brasil nas redes sociais pelos transfóbicos e homofóbicos, que espalharam que a melhor jogadora era homem. Fake news.

Você já foi criticada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Sente-se ameaçada por ele ou foi um episódio isolado?

TA - Vivemos em um governo onde tem deuses. Tem Deus na boca e não no coração. Fazem o que querem, como querem e da forma que querem. Estão afundando nosso país. Quando entrou [o novo presidente], rezamos para dar certo, mas estamos vendo que não é isso que acontece. Fazem críticas pesadas, mas são hipócritas.

Você acredita que o vôlei e a prática esportiva em geral podem contribuir na luta pela igualdade de gênero?

TA - O esporte é onde se junta pessoas, o rico joga contra e do lado do pobre, assim como o negro com branco, o índio com o europeu. Somos todos unidos por um objetivo, pessoas que se respeitam. Muita criança filhinha de papai perde o espaço para o menino da favela. O esporte é o lugar onde se encontra respeito.

Qual importância do esporte na sua vida?

TA - É o que me fez viver, a ter forças de ser essa pessoa e querer jogar sempre. Minha preocupação é o impacto que essa lei vai fazer no país futuramente. Eu acho que, se o nosso governador sancionar essa lei, estará junto com a discriminação. Daqui a alguns anos, a história mostrará que o governador sancionou uma lei que fere o estado.

De tudo o que você ouviu por ser uma mulher trans, o que mais a chateou?

TA - A pior ofensa é de chegar numa Câmara onde deveriam ter pessoas cultas e que se comunicassem com clareza e ser tratada como animal, como bicho, por homofóbicos, transfóbicos.

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