Quem tem medo de Felipe Melo?

Juliana Damasceno

Ag Palmeiras/Cesar Greco/ Divulgação

Curiosamente, eu e o colega e parceiro Mauro Beting decidimos falar exatamente do mesmo assunto, no mesmo dia. Talvez porque observamos o mesmo fenômeno televisivo na rodada de ontem do Campeonato Paulista.

Felipe Melo não é humorista, nem bem-humorado. É provocador, cínico, irritante – especialmente para os torcedores adversários, que passaram a lidar com suas indiretas no microfone das emissoras, sempre após um resultado invariavelmente positivo para o Palmeiras.

Porém, numa dessas entrevistas, o volante falou ao repórter André Hernan do SporTV algo que me fez pensar um pouco sobre posturas no campo de futebol:

– Não deixem o futebol morrer, gente. O futebol de verdade é isso aí [apontando para as arquibancadas da Vila Belmiro que, naquele momento, o hostilizavam em alto e bom som, após a derrota do Santos em casa para o time do Parque Antártica. Sim, eu ainda uso Parque Antártica].

De certa forma, ele tem razão: lá em 1993, quando Viola fez o Corinthians perder um Paulista por conta de um “gol porco”, a história rendeu semanas e semanas de notícias, debates, tiros verborrágicos de ambas as partes. Mas as pessoas, a meu ver, pareciam se divertir mais com isso. E os jogadores, por sua vez, sentiram-se tão motivados que arrasaram o alvinegro no segundo jogo. E tudo ficou lindamente pra história.

História essa que não seria a mesma, vamos combinar, sem as flores de Renato Gaúcho para as mulheres. Sem as embaixadinhas de Edilson. Sem as discussões entre Marcelinho Carioca e Wanderley Luxemburgo. A braveza de Mario Sergio. As apostas feitas entre amigos e adversários, que sempre eram cumpridas em algum noticiário esportivo da segunda-feira (Serginho Chulapa era o recordista na modalidade).

E alguém há de dizer que Chulapa não tinha graça? Que as “namoradas” de Renato [que, na verdade, eram as mães dos jogadores] não serão eternas?

Talvez, Felipe Melo não tenha tanta graça hoje porque estamos em 2017 e o incorreto, o duvidoso, o discutível perderam o lugar. Porque as pessoas estão mais raivosas, mais intolerantes e, pra ajudar, sua voz agora têm mais “volume”. Porque ele trocou a simpatia, a imagem de boa praça pela marra. E isso não pega bem em tempos tão conservadores.

Ontem, de fato, ele merecia estar nos holofotes – fez um gol contra o Mirassol, sacramentou o Palmeiras na próxima fase do torneio. Mas ver os repórteres correndo gramado afora só pra ver qual será a  “do dia” tem sido curioso e engraçado. Até pra quem nem torce para o time que hoje ele defende. Parece que a gente resgata um pedaço daquele passado de atletas gente fina, que realmente curtiam e amavam o futebol e tudo o que o envolve. Aquele saudosismo gostoso de Violas, Paulo Nunes, Vampetas e Edílsons que, hoje, estão cada vez mais no fundo do baú do esporte.