"Quem tá com medo de encontrar o vírus e morrer, vai ter a vacina pra você", diz Bolsonaro

Marcelo Freire
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Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro em live nesta quinta, 14 de janeiro de 2020 (Reprodução)
Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro em live nesta quinta, 14 de janeiro de 2020 (Reprodução)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) repetiu durante sua live semanal nesta quinta-feira (14) que a vacinação contra a covid-19 será voluntária e que "quem está com medo de encontrar o vírus e morrer" terá acesso ao imunizante, desde que ele seja certificado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em uma transmissão ao lado do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, Bolsonaro tratou sobre as expectativas para a campanha nacional de vacinação e falou sobre o colapso da saúde no estado do Amazonas em virtude do alto número de pacientes contaminados com o coronavírus que aguardam leitos no hospital, e também da falta de oferta de oxigênio nos hospitais da capital Manaus.

Bolsonaro e Pazuello também defenderam o que o governo federal chama de "tratamento precoce" da covid – basicamente, o uso de medicamentos de eficácia não comprovada contra o coronavírus, como a hidroxicloroquina, nas redes de saúde de estados e municípios.

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Sob a expectativa de certificação da Anvisa para as vacinas produzidas no Instituto Butantan e na Fiocruz, aguardada para o próximo domingo, Bolsonaro e Pazuello defenderam a atuação do governo e negaram ter havido qualquer atraso da União na campanha.

"Somos um mercado de 210 milhões de pessoas", disse Bolsonaro. "O mundo está querendo a vacina e ainda não tem", declarou o presidente que, em seguida, questionou os imunizantes.

"No que depender de nós, ela é voluntária. Afinal, é algo emergencial. Não foi devidamente comprovada. Alguém pode dizer a eficácia da vacina? Se você tomou hoje, quanto tempo imune ao vírus. Vai ser descoberto. Terá efeito colateral? Ninguém sabe ainda", disse Bolsonaro.

Depois, o presidente afirmou que imagina que em torno de 100 milhões de brasileiros – cerca de metade da população – vai querer tomar a vacina.

"Porque tem cara que não vai querer tomar, e é um direito dele não tomar. Se quiser tomar, toma, se não quiser, não toma. Quem tá com medo de encontrar o vírus e morrer, estando certificado pela Anvisa, vai ter a vacina pra você."

Bolsonaro também disse que "não aceitaria lobby" e nem pressão para aprovar os imunizantes, dizendo que a responsável a Anvisa. "Temos que respeitar a lei, a ciência."

Por outro lado, sobre o que chama de "tratamento precoce", Bolsonaro disse que os medicamentos "não fazem mal". "Se lá na frente for comprovado que não surte efeito... o que não vai acontecer, porque nesse prédio aqui 200 pessoas fizeram o tratamento e ninguém foi para o hospital", disse, se referindo ao Palácio do Planalto.

Em outro momento, sem oferecer dados, disse que os medicamentos sem eficácia comprovada têm contribuído para reduzir os números da covid-19. "Não há outra explicação", disse.

Mesmo dizendo que a decisão de prescrever ou não os remédios é do médico, Bolsonaro encorajou as pessoas a "procurarem outro médico" caso o profissional não receite a hidroxicloroquina e outros medicamentos.

Pazuello diz que CoronaVac contribuirá mesmo com eficácia de 50,38%

Apesar de se aliar ao discurso de Bolsonaro em favor do "tratamento precoce", o ministro da Saúde falou de forma mais favorável em relação à vacina. "Nós queremos que dê muito certo, que seja aprovado o uso emergencial e depois o registro definitivo, para vacinar o país. Independentemente de qual seja a vacina. É a Anvisa que tem que nos proteger e dizer qual é o melhor caminho."

Questionado sobre a eficácia da CoronaVac, desenvolvida no Instituto Butantan – o imunizante tem eficácia geral de 50,38%, perto do limite de 50% estabelecido pela Organização Mundial de Saúde –, ele disse que esse índice, se comprovado pela Anvisa, "não tem problema algum".

"A vacina do Butantan vai ser bem importante, se aprovada, porque vai nos trazer a tranquilidade de não agravar a doença. As pessoas não cairão numa UTI, ou num respirador", disse o ministro, ressaltando que a maior intenção da campanha de vacinação não é imunizar 100% da população, e sim "segurar a pandemia como um todo".

Apesar do discurso favorável, Pazuello classificou de "inteligentíssima" uma pergunta feita por um jornalista que fez crítica ao isolamento social, ao uso de máscaras e à vacina no combate à covid-19 – medidas sugeridas pela OMS e outras entidades como eficientes para conter a pandemia.

Na resposta, o ministro disse que o vírus ainda é "desconhecido". "Demora para conhecermos tudo sobre ele: efeitos de vacina, grau de imunização, cepas, novos ciclos, mutações. É o normal de todas as doenças."

Em seguida, Pazuello afirmou que as medidas foram "interpretadas de diversas maneiras". Ele defendeu que as pessoas tomem atitudes para manter a imunidade alta, citando alimentação, exposição ao sol e prática de esportes.

"São coisas que já sabemos. [Sobre] O uso da máscara, o afastamento social e todas as medidas restritivas, nós ainda temos dificuldade de encontrar o que deu certo e o que deu errado. Depende de cada região que foi aplicada e do que realmente foi feito de estratégia inteligente", disse.

"O que é importante é que, chegando numa situação de conviver com esse vírus, esses hábitos novos incluem o nosso cuidado e medidas preventivas, como um grau de afastamento social para que não tenha aglomerações desnecessárias", declarou Pazuello.