Emily Lima e Tatiele Silveira: as únicas treinadoras da elite do Brasileiro

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(fotos: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos e Ferroviária/Divulgação)
(fotos: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos e Ferroviária/Divulgação)

Como escrevi neste espaço há algumas semanas, no início do Campeonato Brasileiro Feminino havia apenas duas treinadoras entre os 16 clubes participantes: Emily Lima no Santos e Tatiele Silveira na Ferroviária. Hoje elas são duas entre as oito finalistas e se enfrentarão nesta terça-feira pela última vaga nas semifinais da Série A1.

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Contando também a Série A2, que tinha seis técnicas mulheres entre as 36 equipes que iniciaram o torneio, as mulheres representavam 15,4% do total de comandantes nas principais divisões do futebol feminino brasileiro. No entanto, elas aumentaram essa proporção nas fases eliminatórias: são duas nas quartas de final da Série A1 e eram três nas oitavas de final da A2.

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O blog Deixa Ela Jogar conversou com Emily Lima e Tatiele Silveira para mostrar as ideias e a filosofia de jogo das únicas duas treinadoras da elite nacional em 2019. Emily classificou o Santos em segundo lugar no Brasileiro, tem ampla experiência em clubes paulistas e foi a primeira treinadora mulher da seleção feminina. Tatiele, por sua vez, construiu sua carreira no futebol gaúcho, teve uma passagem como auxiliar técnica da seleção sub-17 e assumiu o comando da Ferroviária no início do ano.

Só uma, no entanto, poderá continuar na busca pelo título. No jogo de ida, em Araraquara, o Santos venceu por 2 a 1 com direito a gol olímpico. A volta será nesta terça, 20h30, no estádio Ulrico Mursa, em Santos. Quem avançar terá pela frente o Kindermann, que superou o Audax-SP nas quartas de final. Também passaram Corinthians e Flamengo, que se enfrentarão na outra semifinal.

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Emily Lima, técnica do Santos (38 anos)

A paulistana Emily foi revelada pelo Saad em 1996. Jogou como volante em clubes do Brasil, Espanha e Itália, e por ter cidadania portuguesa, optou por defender a seleção de lá. Voltou ao Brasil em 2009 e começou a trabalhar como assistente na Portuguesa, ao lado de Prisco Palumbo. Fez diversos cursos de formação de treinadora e, em 2011, assumiu o comando do time feminino do Juventus. Treinou as seleções brasileiras sub-17 e sub-15, depois teve uma passagem vitoriosa pelo São José até ir para a seleção principal, em 2016. No entanto, ficou apenas dez meses no cargo e foi demitida sem disputar jogos oficiais. É dona de uma Licença Pro, a mais alta oferecida pela CBF Academy. Está desde 2018 no Santos, mas disse que pretende sair do Brasil na próxima temporada.

(foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)
(foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Que balanço você faz do desempenho do Santos até agora?

A gente sempre busca a primeira colocação, mas sabe da força das outras equipes. O Campeonato Paulista e o Brasileiro estão ficando mais competitivos a cada ano que passa, e no ano que vem será interessante a Série A1 com as quatro grande equipes que subiram (São Paulo, Cruzeiro, Grêmio e Palmeiras). O balanço que faço é positivo, independente de estar em primeiro ou não nós classificamos, que era nossa meta. Agora é outra competição. Em 2018 fizemos a melhor campanha e fomos eliminadas no primeiro mata-alta, então a gente precisa focar nesse segundo jogo. Tivemos sorte de sair com 2 a 1 em Araraquara porque o segundo tempo lá foi bem complicado. Agora é definir em casa.

Assim como na Copa, mulheres treinadoras eram minoria no início e foram invertendo a proporção. O que acha disso?

Estamos buscando nosso espaço. Acho que é o mesmo trabalho que os homens fazem: a gente estuda, trabalha, tem a mesma carga horária, o mesmo conteúdo estudado. Qualquer modalidade no Brasil tem poucas treinadoras mulheres, isso e muito cultural e não é ’so nosso. Tem poucas, mas que são muito boas, muito competentes, e por isso a gente está sempre chegando longe. São essas treinadoras que estão sempre chegando, buscando trabalho e espaços com respeito, sem passar por cima de ninguém. Não é só porque somos mulheres que temos que estar à frente do futebol feminino. Temos que mudar esse papo, valorizar a qualidade do profissional. Qualidade é mais importante que qualidade.

Você é uma das poucas no Brasil a ter a Licença Pro da CBF. Acha que mulheres estudam mais porque é mais difícil conseguir espaço?

Eu sou a segunda, Débora foi a primeira. Não, acho que a gente estuda porque precisa estar em dia com as licenças. Não é porque sou mulher, vou falar por mim, mas busco porque gosto de estudar, porque não quero ficar aqui, só no Brasileiro e no Paulista. Eu estudo para mais. Minha meta é sair do Brasil e sei que para isso preciso estar muito qualificada porque, se aqui não precisa de qualificação, lá fora é diferente. Você precisa das licenças de qualificação para ser avaliado.

É importante ter pessoas com experiência no futebol feminino nos cargos da modalidade?

Eu acredito que sim. Não precisa ser necessariamente treinadora, mas é preciso que um time esteja rodeado de pessoas que viveram isso. Futebol feminino e masculino não é alguma coisa, os meninos no sub-11 já sabem o processo e no feminino elas começam muitas vezes com 16, 17 anos. Hoje vejo uma mudança muito boa em relação à base. Tenho visto o Brasileiro Sub-18 e hoje você vê o padrão de jogo nas equipes, o que antigamente não existia, era todo mundo correndo para frente e para trás. E aí tem o cuidado com a atleta, a pessoa em si, cuidar para valorizar e não deixar a menina se sentir inferior porque nos grandes clubes ela pode ter esse sentimento porque olham com desprezo para elas e para todos que trabalham no futebol feminino.

Após a Copa, houve um movimento de denúncia por parte de atletas e treinadoras das condições precárias do futebol feminino brasileiro, como seu vídeo mostrando as atletas dormindo no saguão do hotel. Você acha que esse movimento de união vai continuar?

Não. Isso não vai existir no Brasil. É também algo cultural, as pessoas não se unem, só olham para o próprio umbigo e está ótimo.

Sobre a evolução do futebol feminino brasileiro, estamos a caminho da real profissionalização?

Não sei. Vejo a gente andando muito devagar ainda, muito lentamente. Creio que um dia possa vir a acontecer. O tratamento do futebol feminino como profissional eu vejo muito longe ainda, muito longe mesmo, e olha que estou em um clube grande. Mas acredito que um dia as coisas vão acontecer naturalmente. Temos que ir trabalhando e torcendo para as coisas poderem ir evoluindo.

(foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)
(foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

A Copa da França foi realmente um divisor de águas para a modalidade?

Difícil dizer. A Copa acabou há pouco mais de dois meses, e o que mudou? Para mim, nada. Para mim, continuou a mesma coisa, os campeonatos continuaram a mesma coisa. Hoje a gente tem a TV Bandeirantes que já estava transmitindo, tem a Rede Vida que começou a transmitir… Se a Globo viu que deu tão certo, deu tanta audiência, por que não veio transmitir a final da Série A2, os jogos decisivos da A1? Não vai mudar. É algo que não traz dinheiro ainda. Infelizmente o futebol virou um negócio, e se não tiver dinheiro, não tem apoio.

O que deveria ser feito a curto prazo para melhorar a modalidade?

Colocar em pauta o que é prioridade e organizar tudo isso. O que é prioridade? Que os clubes tenham futebol feminino? Vamos obrigar todos, ok, mas aí você dá toda a estrutura para as equipes estarem nessas competições? Não é só passagem e hospedagem. Você coloca jogo 14h, naquele sol absurdo… Falta organização das pessoas que fazem tudo isso. É onde essas pessoas precisam aparecer, brigar com os clubes para os jogos serem 16h, 19h, para dar público. Faz parte do desenvolvimento também. Não é só colocar 16 times para disputar o Brasileiro. Isso é pouco. Se você for ver lá fora, como os Estados Unidos, eles fazem de cada jogo um show, tem uma preparação enorme das cada rodada, por isso os estádios estão sempre cheios, a televisão está sempre presente.

O que achou da seleção brasileira na Copa e da contratação da Pia Sundhage?

De seleção, não vou falar nada. Nada, nada, nada.

Quais são seus planos de carreira futuros?

Já oficializei que não assino com o Santos para o ano que vem. Terminando as competições, estarei no mercado novamente. Tem pessoas trabalhando para mim para que eu possa ir para fora do país no ano que vem. Tem duas situações que estamos aguardando, é difícil treinador brasileiro ir para fora, é muito mais fácil para o atleta, então a gente está tentando. Temos mais três ou quatro meses para concretizar alguma coisa.

(foto: Divulgação/Ferroviária)
(foto: Divulgação/Ferroviária)

Tatiele Silveira, técnica da Ferroviária

A gaúcha parou de jogar aos 23 anos para estudar futebol e começou a carreira treinando equipes universitárias de futsal. Fez seu primeiro estágio na escolinha do Internacional, depois passou três temporadas nos Estados Unidos e montou sua própria escolinha em Porto Alegre. Passou por outros clubes gaúchos, como Grêmio, Canoas e Guaíba, e em 2017 foi convidada para ser auxiliar na seleção feminina sub-17. Após o Mundial da categoria, assumiu o comando do time feminino do Internacional. Tem uma Licença A da CBF Academy e está na Ferroviária desde o início de 2019.

Balanço do trabalho da Ferroviária na primeira fase do Brasileirão: era o que esperava?

Na verdade foi uma ascensão muito grande dentro da competição. Tivemos primeis jogos muito difíceis pela tabela, grandes adversários, e empatamos alguns jogos, mas ao longo da competição a gente foi e conhecendo, era um grupo novo de trabalho. As atletas foram entrosando, conhecendo as ideias do trabalho. Na reta final, tivemos um desenvolvimento melhor das nossas ideias de jogo e conseguimos vitórias importantes para classificar.

A cidade abraça muito o futebol feminino em Araraquara?

Bastante. É muito característico da cidade porque eles acompanham sempre. Araraquara tem projeto de futebol feminino há muitos anos, mesmo que renove o grupo, elenco e treinadores, a Ferroviária está sempre na elite e as pessoas estão acostumadas com isso. As meninas são conhecidas na cidade, nosso trabalho é muito acompanhando e divulgado pela mídia, às vezes você está andando na rua e o pessoal te reconhece… eles gostam muito de acompanhar o futebol feminino.

E como estão as expectativas para enfrentar o Santos? (Tatiele falou com a reportagem antes do jogo de ida, perdido pela Ferroviária por 2 a 1)

Agora é outra competição. A gente sabe que vai ser difícil, Emily é uma grande treinadora, mas temos a expectativa de que com essa evolução nossa equipe já tenha ideias mais homogêneas. Queremos fazer um jogo competitivo, apostando na força e na qualidade das nossas jogadoras.

Como você define sua filosofia de jogo?

Eu penso que futebol hoje tem que ser muito estudado. Inclusive temos um analista de desempenho aqui que me ajuda muito. Nossa característica é gostar de ter a bola, trabalhar com posse, circulação. A gente tenta sempre ter a bola para propor, ter um jogo agressivo, veloz, mas com uma construção partindo da nossa goleira, com todas as peças participando. Nossa ideia principal é ter a bola para conseguir ter imposição sobre o adversário.

É importante ter pessoas com experiência no futebol feminino nos cargos da modalidade?

A gente não pode ser autoritário e pensar que no futebol feminino só pode ter mulheres trabalhando. O que defendo é que toda comissão técnica tenha pelo menos 50% de mulheres. Então se o treinador for homem, que tenha uma auxiliar ou preparadora de goleiras mulher. Na Ferroviária isso é bem balanceado e facilita. Eu, por exemplo, nunca tive uma treinadora quando joguei, e não que eu não ficasse à vontade com eles, mas as mulheres às vezes têm uma sintonia melhor. Somos mais detalhistas, temos essa sensibilidade, eu diria, não só no esporte, mas em todas as profissões. Podemos levar isso a nosso favor no comando das equipes. Hoje eu tenho um preparador físico homem e uma preparadora de goleiras e trabalhamos bem juntos.

O que acha do movimento de atletas e treinadoras que denunciaram as condições precárias do futebol feminino brasileiro após a Copa?

Penso que o futebol feminino já está crescendo, mas a gente sempre quer muito mais. A obrigatoriedade foi só o pontapé inicial. Vemos hoje quantos clubes voltaram ao futebol feminino, é um movimento da Copa que mostrou que a modalidade pode ser um produto. O futebol feminino pode ser bem administrado para também ter recursos e ser rentável. Todos esses movimentos fortalecem. Os números da transmissão entre Brasil e França (35 milhões de espectadores no Brasil) mostra que temos um mercado muito grande para consumir a modalidade. Temos que cada vez mais mostrar a qualidade das nossos atletas, fazer um jogo bonito de ver, interessante, que prenda o torcedor. E não podemos esquecer que o torcedor é apaixonado pelo clube, então ele vai torcer, seja pelo time masculino ou feminino.

(foto: Divulgação/Ferroviária)
(foto: Divulgação/Ferroviária)

Ainda há muitas dificuldades no cenário nacional?

Na Ferroviária eu sou privilegiada, porque aqui a gente tem muito respeito com o futebol feminino, mas na realidade do Brasil nós queremos mais estrutura de treinamento adequada, campos para receber os jogos, CT voltado ao futebol feminino. No clube aqui há um trabalho sério que nos coloca entre os grandes, mas a gente quer que isso aconteça não só no eixo, e sim a nível de Brasil. Que os diretores vejam que o futebol feminino também pode ser muito grande representando aquela camisa. Claro que recurso financeiro todo mundo quer, mas precisa também de respeito para que as meninas possam desempenhar o trabalho, sair de casa e viver do futebol: ter salário em dia, a estrutura necessária para se desenvolverem e fazerem o que amam de forma completa.

Como podemos ter mais mulheres em cargos de treinadoras?

Ajudaria muito se tivesse mais incentivo das federações. A FPF incentiva muito, mas de repente, se você é ex-atleta ou estudante de educação física, mesmo sem licença da CBF você pode ir buscar conhecimento. A ideia é a mulher buscar contato com outros treinadores e fazer estágio, pois o aprendizado a partir da vivência é muito enriquecedor. Temos cada vez mais meninas buscando essa qualificação da CBF Academy, que é cara, mas também tem cursos dentro dos estados, por exemplo dos sindicatos de treinadores. Aos poucos essa qualificação vai aumentando e é importante pôr o conhecimento em prática. Eu mesma já abri as portas para outras meninas que vieram na Ferroviária querendo aprender. Tenho a maior felicidade de compartilhar meu conhecimento. Gosto de encorajar, e a maneira que eu tenho de fazer isso é recebê-las para passar uns dias comigo no clube para que elas saiam com novas ideias, maneiras diferentes de ver o futebol, e possa levar isso para suas realidades.

O que achou da escolha de Pia Sundhage para a seleção feminina?

Achei fantástico porque ela é uma grande treinadora, com uma bela carreira, vencedora, conhecedora do futebol feminino. Mas penso também que poderíamos ter uma valorização dos profissionais que estão trabalhando com futebol feminino no Brasil, não só mulheres, mas homens também. Temos o Corinthians com um grande treinador como Arthur Elias, que trabalha há tanto anos com a modalidade. Temos a Emily, que já passou por lá e demonstrou sua capacidade e também tem um olhar mais crítico para ver o futebol dentro do nosso país. Também estamos trabalhando e crescendo e espero que com essa decisão de vir a Pia, uma treinadora renomada, a gente possa extrair dela toda essa organização que traz da Suécia e dos Estados Unidos. Que a gente possa absorver todo esse conhecimento para que isso reflita nos clubes, porque o Brasil não vive só de seleção, a gente precisa valorizar o clube. Ela tem que conhecer a realidade, como do Sport, onde as meninas não tinham condições de treinar. Ela vai buscar renovação, mas para ela conseguir alcançar isso, também precisa reconhecer e conhecer nossa realidade para levar isso à CBF e mostrar que os clubes precisam de apoio, que as competições precisam ser bem estruturadas. Que a gente possa fazer um trabalho juntas, e ela vivenciando as dificuldades e levando isso à CBF, que possa haver um bom retorno para os clubes. Mas não tenho dúvida que em conhecimento e história Pia é vencedora e vai nos agregar muitíssimo. Espero que gente já consiga ver nas próximas convocações as ideias diferentes e inovadoras que deram tantos títulos para ela e que isso logo comece a refletir dentro da nossa seleção.

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