Quem parece "não entender nada" é o prefeito Crivella

Olga Bagatini
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, durante cerimônia em 20 de maio de 2019. Foto MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, durante cerimônia em 20 de maio de 2019. Foto MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images

A cada dia que passa, mais mulheres estão ocupando espaços historicamente reservados aos homens, principalmente no campo do esporte. Sejam dirigentes, treinadoras, árbitras, repórteres, narradoras ou comentaristas, há cada vez mais mulheres trabalhando na área, mostrando conhecimento, talento e competência.

Só que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, parece ainda não ter entendido isso.

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Em resposta à repórter Fernanda Rouvenat, do Grupo Globo, que quis saber se Crivella tinha intenção de pedir desculpas ao Vasco por comparar a ciclovia Tim Maia com o clube ao dizer que a obra estava “caindo muito”, ele minimizou o conhecimento da repórter pelo fato de ela ser mulher.

“Isso é brincadeira que todo carioca faz. Vocês são meninas, não entendem nada, pelo menos na minha época não entendiam, mas os meninos a vida inteira brincaram Flamengo contra Fluminense, Botafogo contra Vasco. Domingo tem jogo de Botafogo e Vasco e se eu ficar brincando pode dar azar ao meu time", disse Crivella.

A repórter ainda rebateu e lembrou que mulheres podem, sim, entender de futebol, mas ele apenas riu e respondeu que “podem".

Em um momento tão importante para a história das mulheres no futebol, tanto dentro quanto fora de campo, a declaração de Crivella mostra que o machismo ainda é uma dura realidade a ser combatida para as mulheres que “ousam” trabalhar com esporte.

Mas as notícias são boas para elas e más para quem insiste em perpetuar preconceitos. Além de todo o avanço feito pelas atletas dentro das quatro linhas, com aumento de times, fortalecimento de campeonatos femininos e meninas aprendendo a chutar uma bola cada vez mais cedo, é no mínimo falta de conhecimento dizer em pleno 2019 que mulher “não entende de futebol”.

Na última segunda-feira, o Museu do Futebol inaugurou a exposição “Contra-Ataque", que reconta as histórias das mulheres na modalidade, homenageia protagonistas da modalidade e recupera episódios inéditos do período em que o futebol feminino foi proibido por lei no Brasil. A mostra está recheada de histórias de mulheres que entendem, e muito, da modalidade.

No mesmo dia da inauguração, a árbitra Edina Alves fez história ao apitar um jogo de Série A. Foi a primeira vez que uma mulher atua na elite do futebol nacional desde 2005. Edina será, ao lado das assistentes Neuza Back e Tatiane Sacilotti, representante do Brasil na Copa do Mundo da França, em junho. O trio está desde janeiro treinando intensamente com a Federação Paulista de Futebol (FPF) e precisou passar pelos mesmos testes, físicos e de conhecimento, dos homens.

Mulheres também têm mostrado que entendem de futebol com o microfone na mão. Repórteres excepcionais de vídeo e de texto como Gabriela Moreira, Joanna de Assis, Natalie Gedra, Renata Mendonça e tantas outras fazem um trabalho sério e responsável quando se trata de futebol. Em 2018, um grupo de quase uma centena de jornalistas ganhou destaque internacional pela campanha “Deixa Ela Trabalhar", que clamou por respeito e pelo fim do assédio às profissionais da imprensa esportiva.

Ana Thaís Matos, Aline Callandrini e Juliana Cabral são capazes de comentar com profundidade e conhecimento. E elas também estão ganhando espaço no comando das transmissões, desde veteranas como Luciana Marinho até narradoras que surgiram recentemente, como Elane Trevisan e Natália Lara, ambas muito dedicadas a evoluir na profissão.

Entre as treinadoras, Emily Lima, que já passou pela seleção brasileira, conduz a campanha de quase 90% de aproveitamento das Sereias da Vila no Campeonato Brasileiro. O Santos é vice-líder, com o mesmo número de pontos do líder Corinthians, e suas jogadoras vem tendo atuações primorosas. Emily, inclusive, é uma das homenageadas na exposição Contra-Ataque por sua história e contribuição com a modalidade.

A lista de talentos é muito maior, mas as mulheres, infelizmente, ainda precisam escutar esse tipo de comentário e provar seus conhecimentos a todo instante. Um erro delas pesa muito mais do que um erro deles, e elas ainda costumam ser os maiores alvos de xingamentos e respostas sexistas. Mas o pior é quando uma autoridade com a visibilidade de Crivella contribui para reforçar os estereótipos que elas tanto lutam para derrubar.

Apesar de todos os problemas, este movimento não tem volta: as mulheres não vão parar de mostrar sua capacidade e conquistar seus próprios espaços no esporte e em qualquer outro lugar.

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