O que Dudamel pode oferecer ao Atlético?

Nesta quinta-feira, dia 02 de janeiro de 2020, Rafael Dudamel se desligou da seleção venezuelana: o treinador será o próximo comandante do Atlético-MG. Fora dos holofotes no Brasil, ainda existem muitas dúvidas sobre o trabalho do venezuelano. 

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Como todo treinador estrangeiro que desembarca por aqui, parte da imprensa gosta de distribuir pechas. Afinal de contas, Dudamel é: retranqueiro ou ofensivo? Qual seu esquema de jogo favorito? Como é sua relação com as categorias da base? A análise a seguir busca esclarecer algumas dúvidas.

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Com só 46 anos e dois trabalhos em clubes (ambos venezuelanos), Rafael Dudamel não tem nenhuma experiência fora de seu país como treinador. Além disso, como ele se adaptará com a pressão que um grande clube brasileiro coloca sobre o seu técnico? Confira!

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Qual a trajetória da carreira de Rafael Dudamel?

Rafael Dudamel Venezuela
Rafael Dudamel Venezuela

Para entender a trajetória da carreira de Rafael Dudamel, tem que se entender o contexto do futebol venezuelano: o ex-goleiro surge em uma Venezuela cujo futebol não tinha quase nenhuma relevância internacional. Poucos jogadores conseguiam sair do país e ter destaque em ligas estrangeiras.

Dudamel consegue transcender essa barreira: além de ter sido o goleiro titular da seleção de seu país por muitos anos, teve carreira de extremo sucesso na Colômbia, passando pelo futebol argentino e pelo Mamelodi Sundows, da África do Sul. É considerado um dos maiores jogadores da história da Venezuela.

Como ídolo do futebol venezuelano, conseguiu encontrar espaço para ser treinador: começou no Estudiantes de Mérida, equipe média do país. Não teve muito sucesso, mas logo foi alçado à posição de treinador sub-17 de sua seleção nacional, pelo seu mentor César Farias. Lá, começou um trabalho de longa data que ainda reflete hoje no crescimento do futebol da Venezuela.

Depois de dois anos de altos e baixos no Deportivo Lara, em 2015 assumiu o comando da seleção venezuelana sub-20, onde se consagrou. Logo foi alçado também ao posto de técnico da equipe principal, e acumulou as duas funções. Com a vinotinto, marcou época: em seu primeiro sul-americano sub-20, conseguiu a classificação para a Copa do Mundo da categoria. Na competição, conquistou um vice-campeonato inédito, levando a equipe que tinha nomes como Yeferson Soteldo a uma final pela primeira vez na história.

No sul-americano sub-20 de 2019, chegou a bater a seleção brasileira (que contava com nomes como Rodrygo, Igor Gomes e Emerson), com dois gols de Jan Hurtado. Pela equipe principal, chegou até duas quartas-de-final de Copa América.

Um treinador emergente, recusou propostas de equipes colombianas e argentinas para continuar à frente da vinotinto, mas a crise na Venezuela fez com que Dudamel finalmente alçasse outros voos.

Quais os títulos que Rafael Dudamel já conquistou?

Como técnico, Dudamel nunca conquistou um título, já que nunca treinou uma equipe que fosse realmente competitiva. O mais próximo que chegou foi na Copa do Mundo sub-20, quando conquistou o melhor resultado de uma seleção venezuelana em uma competição de âmbito mundial.

Como jogam as equipes de Rafael Dudamel?

Rafael Dudamel Venezuela
Rafael Dudamel Venezuela

Aí mora a uma das principais diferenças do trabalho de Dudamel para outros treinadores estrangeiros conhecidos no Brasil, como Jorge Sampaoli, Eduardo Coudet e Ariel Holan: o venezuelano não é considerado um treinador dos mais ofensivos.

Não significa que Dudamel recusa ter a bola e nem que ele é um retranqueiro: as equipes comandadas pelo ex-goleiro conseguem rodar a bola e construir ataques, mas o venezuelano prefere trabalhar com um time mais sólido defensivamente, com transições velozes e linhas muito próximas.

Na seleção venezuelana, trabalhou muito no 4-3-3, com dois laterais que não sobem e dois volantes, dando liberdade para um meiocampista e dois atacantes muito abertos construírem o jogo. Ao defender, estes pontas compõe uma linha de cinco no meio de campo, e um atacante centralizado fica sozinho um pouco mais a frente.

Ao recuperar a bola, transições rápidas e mortais: Dudamel joga com profundidade, com muita infiltração no meio da zaga e com um centroavante veloz, que consiga receber bolas tanto para gastar dos zagueiros no pivô quanto para receber em velocidade. Foi esse o papel de jogadores como Salomon Rondón na seleção principal e Jan Hurtado no sub-20.

Mesmo assim, seus times sempre procuram o gol: as defesas comandadas pelo ex-goleiro tentam a todo momento interceptar a bola, afim de contra-atacar. Além disso, em certos jogos, contra seleções mais frágeis, a Venezuela conseguiu ter mais posse de bola e ter um jogo mais ofensivo, sempre com dois pontas muito abertos e um centroavante móvel e forte fisicamente.


Rafael Dudamel e as categorias de base?

São nas categorias de base que Dudamel tem seu diferencial: o venezuelano é considerado um dos melhores do mundo em revelar jogadores e os desenvolver.

Com investimento do governo venezuelano (na época em que muito dinheiro estava sendo investido no futebol), Dudamel conseguiu, junto com a federação nacional, revolucionar as categorias de base do futebol do país. Com competições maiores e clubes mais estruturados, o treinador montou equipes muito mais competitivas na base.

Foi assim que jogadores como Yeferson Soteldo, craque do time vice-campeão na Copa do Mundo sub-20 de 2017, Wulker Fariñez, considerado um dos goleiros mais promissores do planeta, Jan Hurtado, hoje no Boca Juniors e especulado no Atlético-MG, entre outros, que já jogam na Europa, conseguiram se destacar.

Assim, para um momento onde o Galo tende a apostar mais em sua base, além de peneirar o mercado sul-americano, Dudamel é um nome interessante: pelo menos na seleção, demonstrou uma capacidade impressionante de integrar promessas ao elenco principal da vinotinto.

Um adendo tem que ser feito: vários dos jogadores revelados naquela seleção ainda não conseguiram estourar na Europa como era de se esperar. Mesmo assim, conseguem realizar boas atuações na seleção comandada por Dudamel.

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Dudamel no Galo

Rafael Dudamel, Venezuela, 10102017
Rafael Dudamel, Venezuela, 10102017

Muitas reservas podem ser feitas ao trabalho do venezuelano: ele não tem experiência significativa em clubes, não pratica um futebol tão ofensivo assim e nunca precisou ter o tato de ir ao mercado comprar jogadores. Ou seja - o Galo fez uma aposta.

Mas é uma aposta que pode se revelar certeira. Em um clube que prega a austeridade, Dudamel pode dar bons frutos. Seu apreço pelas categorias de base e experiência no mercado sul-americano (a Venezuela é um celeiro fértil e barato de jogadores, como mostram Soteldo no Santos e Otero no Galo, nos últimos anos) podem ser importantes para montar elencos competitivos e baratos.

É importante ressaltar: Rafael Dudamel não é Jorge Sampaoli, nem vai montar um time que jogue o futebol arte. É um técnico talentoso, que gosta de defesas sólidas, chamado até de pragmático em certo momento pela imprensa venezuelana.

Que seja! Não existe uma só maneira de jogar futebol. O importante é que o trabalho seja bem feito, e o Atlético consiga retomar um patamar de onde ele nunca deveria ter saído.

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