Quatro atacantes? Entenda o esquema tático de Rogério Ceni no Fortaleza

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Wellington Paulista festeja gol com a camisa do Fortaleza: setor ofensivo é o destaque da equipe (Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)
Wellington Paulista festeja gol com a camisa do Fortaleza: setor ofensivo é o destaque da equipe (Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)

Por Afonso Ribeiro

Dono do melhor ataque e da segunda defesa menos vazada, com apenas uma derrota no torneio - justamente para o adversário da decisão -, o Fortaleza inicia a disputa do título inédito da Copa do Nordeste nesta quinta-feira, diante do Botafogo-PB, na Arena Castelão. Os números ofensivos positivos são resultado do esquema tático ousado adotado pelo técnico Rogério Ceni, com quatro atacantes, que exercem funções diferentes para não fragilizar a equipe.

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A ausência de um camisa 10 clássico no elenco - bastante procurado no mercado em 2019 - fez o treinador testar alternativas no time desde o início da temporada, visando, principalmente, o Campeonato Brasileiro. Usou três volantes, experimentou um apoiador em uma das pontas, ensaiou o retorno do 4-2-3-1... Mas nenhuma versão agradou tanto ao comandante como os quatro atacantes de ofício, que se desdobram para marcar e exploram a velocidade nos contra-ataques.

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"Eu gosto de todo sistema, só encaixo o meu time dentro das melhores possibilidades que eu tenho. Na Série A tem muitos times que são tecnicamente superiores a mim, porque eles têm mais condição para ter muitos meias, e nós temos que fazer um jogo que não fique 'combinado' com eles, porque, sei lá, 70% dos adversários são superiores porque têm mais dinheiro para contratação, têm como investir mais em infraestrutura, logística. Então, o que eu tento fazer é apenas um esquema que não bata de acordo com o adversário para a gente ter alguma chance na velocidade e na marcação boa. A parte tática estando firme e coesa, nós temos o ponto de desequilíbrio, que é ter o máximo possível de jogadores de frente para contrapor a qualidade, a infraestrutura e a menor distância que os outros times percorrem", justificou Rogério Ceni, após o empate sem gols com o Athletico-PR, pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

Nesta temporada, o Tricolor já entrou em campo com quatro homens de frente em 11 confrontos, entre Campeonato Cearense, Nordestão e Brasileirão. Em outros momentos, houve pequenas variações, como a presença do meia Marlon pelo lado do campo e mais três atacantes. Mas, afinal, como a equipe se comporta em campo com essas peças?

"Jogando eu como meia, mais ou menos, né? Estou jogando mais nessa função um pouquinho para que deixe o Júnior mais centralizado. Eu venho mais para recompor, fazer tabela, poder fazer a parede ali no meio e, quando tiver a oportunidade, chegar na área também. A gente sabe da qualidade de todos os jogadores que têm na frente. São quatro atacantes, mas os quatro têm que ajudar na marcação, até porque senão não tem porque jogar com quatro atacantes. Os quatro ajudam bastante, marcam, voltam. É importante ter os quatro, mas ajudando", ponderou o centroavante Wellington Paulista.

O camisa 99, a propósito, chegou da Chapecoense no decorrer do ano, quando o sistema já estava em uso, e se adaptou rápido ao lado de Júnior Santos, por dentro – a vaga era de Ederson, que lesionou o joelho e só deve retornar aos gramados nas rodadas finais da Série A. Os velocistas Edinho e Osvaldo ocupam as pontas. Este foi o quarteto mais vezes repetido, em três partidas: as vitórias por 2 a 0 sobre o Ceará, pelo Estadual, e 4 a 0 contra Vitória, pelo Nordestão, e a derrota por 4 a 0 para o Palmeiras, pelo Brasileiro.

Com seis gols na temporada, velocista Edinho é uma das opções ofensivas da equipe de Ceni (Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)
Com seis gols na temporada, velocista Edinho é uma das opções ofensivas da equipe de Ceni (Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)

"Os atacantes de lado fazem uma movimentação de flutuar para o meio quando o Fortaleza tem a bola e joga com passe curto para tentar ocupar o espaço entre as linhas de marcação. Essa movimentação não é muito de um atacante. O atacante tem como movimentação básica dar profundidade, que é o que geralmente acontece com Wellington Paulista e Júnior Santos", explicou ao blog o jornalista Rodrigo Coutinho, que analisa o desempenho das equipes a cada rodada do Brasileirão no Yahoo Esportes.

"A grande característica desse time é a velocidade pelos lados do campo, explorar os extremos, que são muito rápidos, e o Rogério Ceni gosta de jogar assim. Os laterais participam também, principalmente pelo lado esquerdo. Em alguns momentos, o Carlinhos é quase um meia esquerda, ele dá muita amplitude pelo lado e participa das construções por dentro", completou André Almeida, jornalista do O Povo, de Fortaleza.

Artilheiro da Copa do Nordeste ao lado de Gilberto, do Bahia, com oito gols, Júnior Santos é também o principal goleador do Tricolor no ano, com dez bolas nas redes. Edinho aparece logo abaixo, com seis gols, seguido por Ederson, com cinco, e Marcinho, com quatro. Osvaldo anotou três gols, enquanto Wellington Paulista e Romarinho marcaram uma vez cada. Os recém-contratados Kieza e André Luís ainda não balançaram as redes. No torneio regional, o Leão já marcou 17 vezes contra os adversários.

Sem a bola, os homens do setor ofensivo também têm papel importante. A equipe se posiciona em um 4-4-2 na fase defensiva, com a recomposição dos dois extremos na segunda linha para bloquear as investidas adversárias pelos lados do campo, enquanto os outros dois atacantes pressionam a saída de bola. No Nordestão, o Leão do Pici tem a segunda defesa menos vazada, com seis gols sofridos, ao lado dos alagoanos CSA e CRB - ABC e Botafogo-PB lideram, com cinco gols contra.

Posicionado no 4-4-2 no momento defensivo, Fortaleza marca a saída de bola da Chapecoense na Arena Condá (Foto: Reprodução)
Posicionado no 4-4-2 no momento defensivo, Fortaleza marca a saída de bola da Chapecoense na Arena Condá (Foto: Reprodução)

"Quando o Fortaleza não tem a bola, é um 4-4-2. Forma duas linhas de quatro, os pontas descem e ficam dois homens mais à frente, que também participam desse momento de pressão sem a bola. Todos participam da fase defensiva", disse André Almeida. "É um time muito bem treinado e tem características diferentes do time do ano passado, o que é mais curioso. É um trabalho de continuidade, mas o Rogério entendeu que precisaria montar uma equipe um pouco diferente, analisou Rodrigo Coutinho.

Sem Nenê, busca por camisa 10 é adiada

Desde o início da temporada, Rogério Ceni enfatizou a necessidade de contratação de um armador. Madson, ex-Vasco e Santos, foi o primeiro a chegar ao Pici, mas não agradou pelo estilo de jogo e pela condição física. Atuou apenas 27 minutos com a camisa tricolor e rumou para o CSA. Titular na Série B de 2018, Dodô retornou ao Leão neste ano, novamente emprestado pelo Atlético-MG, mas não conseguiu recuperar a posição. Disputou 15 partidas, sendo sete como titular.

A diretoria, então, não poupou investidas no mercado e sondou nomes como Camilo, do Internacional, Diego Buonanotte, da Universidad Católica, do Chile, e Thiago Galhardo, que deixou o Vasco e está no Ceará. Nenhum nome, porém, empolgou tanto - e esteve tão próximo - quanto o experiente Nenê, camisa 10 do São Paulo.

Diante da falta de espaço do jogador na equipe e o desejo do Tricolor paulista de reduzir a folha salarial, o Leão entrou na disputa com o Fluminense e se prontificou como destino para o meia. O Yahoo Esportes apurou que o presidente Marcelo Paz repetiu o modelo de operação da negociação com o técnico Rogério Ceni e embarcou para São Paulo para um jantar com o armador, no qual um acerto entre as duas partes foi dado como concretizado, restando a liberação do São Paulo. O atleta de 37 anos ficou satisfeito com o projeto do Leão e consultou amigos para colher informações acerca do clube, como o goleiro Gabriel Felix, com quem jogou no Vasco e esteve no Pici em 2018.

Nenê esteve próximo de vestir a camisa 10 do Tricolor do Pici, mas segue no Morumbi (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)
Nenê esteve próximo de vestir a camisa 10 do Tricolor do Pici, mas segue no Morumbi (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)

A contratação de Cuca, entretanto, mudou os planos do clube do Morumbi. O treinador pediu que a diretoria evitasse negociações antes da paralisação do Brasileiro para a Copa América e viu a liderança do jogador como fator positivo em um grupo recheado de jovens. Sem a possibilidade de saída por empréstimo, como se imaginava, Nenê pediu um contrato com três anos de duração ao Fortaleza, como divulgado pelo blog do Jorge Nicola, o que emperrou o acerto.

"Durante uma época, nós estivemos, sim, interessados. É um belíssimo jogador, um meia que tem boa bola parada. Mesmo com seus 38 anos, é um cara que ainda rende bem. O problema é que tem um custo alto para a gente. Nós não temos condições de ter jogadores nesse valor. E a gente entende, porque é um jogador que está ocupando o mercado no São Paulo, no Sudeste do país. Pesa muito para a folha de pagamento nossa, e eu também preciso de outros jogadores em outras posições. Se houvesse uma composição salarial ou alguma coisa, a gente poderia tê-lo. Agora, dessa maneira, eu estouro o orçamento. Tenho outras posições que eu também preciso e não posso colocar o clube em uma situação financeira delicada, na qual ele não possa cumprir seus compromissos", explicou Rogério Ceni, em entrevista à ESPN Brasil.

O apoiador chegou a ser utilizado por Cuca na segunda semifinal do Paulistão, contra o Palmeiras, na primeira partida da final, diante do Corinthians, e entrou em campo no 0 a 0 com o Bahia, pela quinta rodada da competição nacional. O jogador soma 14 partidas na temporada.

Sem Nenê e satisfeito com o rendimento da equipe no novo esquema tático, o Fortaleza paralisou a procura pelo dono da camisa 10 e deve retomar somente com a abertura da janela de transferências internacionais, entre junho e julho.

"Às vezes, a gente tem que abrir mão de um jogador ou outro em prol da instituição e até de uma ou outra aquisição que a gente possa fazer na parada da Copa (América), quando abrir o mercado lá de fora, algum jogador que a gente já está de olho e possa trazer. São escolhas que a gente faz. Claro que todo mundo quer ter o melhor naquele momento, mas eu tenho que pensar no ano inteiro. O campeonato não acaba em junho, e algumas modificações podem ser feitas nessa duas ou três semanas de parada para a Copa América", completou Ceni, na mesma entrevista à emissora.

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