Quanto antes Bolsonaro sofrer impeachment, melhor para o Brasil, avalia Kim Kataguiri

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Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre, foi um dos principais personagens da campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff (Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images)
Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre, foi um dos principais personagens da campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff (Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images)

Protagonista nas mobilizações que pediram a saída da ex-presidente Dilma Rousseff, Kim Kataguiri (DEM-SP) acredita que é hora para o impeachment de Jair Bolsonaro. Para o deputado federal, o presidente é parte da crise.

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“A partir do momento que o presidente está contribuindo para a crise sanitária e contribuindo para a crise econômica, você tem um problema muito grave. Você tem alguém no comando do pais atuando diretamente para aumentar o número de mortes e piorar o impacto econômico que, a longo prazo, também causa mortes”, opina o deputado, líder do Movimento Brasil Livre, o MBL.

Kim avalia que, quanto antes Jair Bolsonaro foi retirado do cargo, mais cedo o Brasil conseguirá combater a pandemia e mais rapidamente o país retomará o rumo.

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Sobre os companheiros de DEM Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidente da Câmara e do Senado, respectivamente, o deputado acredita que falta pulso. “Não sei mais em que ponto o presidente precisa chegar para que o Congresso tome uma atitude institucionalmente mais dura”, pondera.

Confira a entrevista com o deputado federal Kim Kataguiri na íntegra:

Deputado, qual sua impressão sobre a situação do Brasil em meio à crise do coronavírus?

Uma situação preocupante, né? Porque tudo indica que você vai ter um aumento do número de mortes todos os dias, você não vê uma coordenação do ministério da Saúde, aliás, o ministério está completamente acéfalo. Você não tem coordenação com as secretarias estaduais, não tem pesquisas e dados para trabalhar junto com essas secretarias e você tem o presidente da República que tem um discurso contrário àquilo que prega a ciência, a academia e a experiência empírica dos outros países.

Além disso, parece que essa visão do presidente vai levar a queda de mais um ministro da Saúde no meio de uma pandemia. Ter enviado um embora, que estava fazendo um bom trabalho, era praticamente uma unanimidade, independentemente do espectro político, no meio da pandemia, já é grave o suficiente. Mandar o segundo é mais preocupante ainda, é uma sinalização péssima para população e pros governos estaduais e municipais, que ficam completamente sem norte. Enquanto os países que começaram a quarentena mais ou menos no mesmo período que a gente já estão falando em flexibilizar, a gente ainda está tentando pensar em como a gente faz a quarentena.

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O que o senhor acha sobre a condução da crise, feita pelo presidente Jair Bolsonaro? O que poderia ter sido diferente?

Não tem condução de crise, ele é parte da crise. A partir do momento em que ele discursa para as pessoas saírem de casa, fala que é uma gripezinha, que ele não tem nada a ver com as mortes, não se solidariza, acaba com o ministério da Saúde e atiça o conflito com governadores e com o Supremo Tribunal Federal, ele agrava a pandemia e agrava a crise econômica, consequência da pandemia. Então, sob nenhuma perspectiva você tem nenhum tipo de condução, nenhum tipo de liderança. O que você tem é um completo desastre de um presidente mais preocupado em permanecer no poder, em livrar os filhos da cadeia e se reeleger em 2022 do que realmente combater essa situação.

Qual o papel do Congresso Nacional nesse momento?

Primeiro, dar segurança para estados, municípios e governo federal para coordenar as despesas necessárias e dar o poder discricionário para que o poder executivo atue no combate ao coronavírus, dar liberdade orçamentária até para permitir que a população, especialmente os mais pobres, fiquem assistidos durante esse período, e garantir o máximo possível a estabilidade. Querendo ou não, o papel durante uma pandemia é muito maior do poder executivo do que o legislativo. O legislativo trata de pautas menos urgente, mais perenes, mais estruturantes.

O dia a dia é com o poder executivo, o que o legislativo pode fazer é dar segurança para o executivo atuar. Como fez aprovando o orçamento de guerra, aprovando o plano Mansueto.

É momento para impeachment?

Acredito que sim. A partir do momento que o presidente está contribuindo para a crise sanitária e contribuindo para a crise econômica, você tem um problema muito grave. Você tem alguém no comando do pais atuando diretamente para aumentar o número de mortes e piorar o impacto econômico que, a longo prazo, também causa mortes. E para mim, além de tudo, a gente tem uma crise política causada pelo próprio presidente durante esse período. É ruim em todos os aspectos. Quanto antes for derrubado o presidente da república, mais rapidamente a gente consegue combater a pandemia e mais rapidamente a gente consegue retomar o país.

Qual o papel do MBL hoje?

Papel do MBL hoje é organizar uma direita republicana, democrática, mostrar que conservadorismo não é o que o Bolsonaro defende, que liberalismo não é o que o Bolsonaro defende, que existe alternativa a isso e que a direita pode construir uma alternativa melhor e verdadeiramente, conceitualmente de direita, fazendo uma contraposição ao Bolsonaro.

E acho que, de certa maneira, também assumir o papel de oposição, porque, primeiro, a esquerda ainda sofre muito com a desmoralização do processo de impeachment, da prisão do Lula, dos escândalos de corrupção, do petróleo, apesar de nem todos os partidos estarem envolvidos. Assim como o Bolsonaro contamina a imagem de toda a direita, o Lula contamina a imagem de toda a esquerda, é inevitável no debate público. De certa maneira, a esquerda ficou em segundo plano.

Hoje, na imprensa, nos debates, a relevância da direita crítica ao Bolsonaro é contra a direita Bolsonarista. Não tem um debate com a oposição em si.

O senhor e o MBL se arrependeram de tê-lo apoiado durante a campanha presidencial de 2018? Você acha que a atuação do MBL foi relevante para e eleição de Jair Bolsonaro?

A gente apoiou Bolsonaro no segundo turno como voto útil ao PT, mas, hoje, eu acho que – isso a gente não teve uma deliberação dentro do MBL para ter uma posição oficial sobre isso – boa parte dos coordenadores nacionais, como eu, acho que todo mundo não faria campanha. Acho que se arrepender de fazer campanha no segundo turno, todos se arrependem.

De votar, acho que a maior parte, se a eleição fosse hoje, entre Haddad e Bolsonaro, votaria nulo.

O vereador por São Paulo Fernando Holiday disse recentemente que votou em Bolsonaro “sabendo que era um jumento”. O senhor concorda com essa afirmação?

Não acho que seja um jumento, mesmo porque chegou à presidência da República não à toa. Assim como a Dilma também, por mais críticas que tenhamos a ela, tem um grupo político que também a levou à presidência da República. Mas, sem dúvidas, ele é incapaz de governar um país. Mesmo como deputado, também era incapaz de promover uma legislação.

Jumento não é, ele é bem esperto. Ele não é inteligente, ele tem um bom instinto político, tem um bom feeling de como entender a opinião pública e surfar nessas ondas que aparecem e de ter uma militância organizada, um núcleo duro para o defender de maneira radical e o manter no poder.

Acho que seja esperto, não é inteligente, não tem profundida, não tem o menor conhecimento sobre conceitos de gestão pública ou de conservadorismo, sobre liberalismo, mas não acho que seja jumento também.

Olhando para trás, valeu a pena ter tirado a presidente Dilma Rousseff para chegarmos nesse momento? Há quem diga que foi ali que começou a se fortalecer esse movimento pró-Jair Bolsonaro.

Eu discordo. Não dá para gente vincular o processo de impeachment da presidente com a eleição do Bolsonaro. A eleição do Bolsonaro é resultado da falta de capacidade de articulação da direita republicana de construir uma alternativa viável e também da falta de capacidade da esquerda de se articular em torno de uma candidatura que não fosse de gente envolvida em escândalo de corrupção.

Aliás, acho que teve uma autocrítica muito boa do ex-senador Cristóvão Buarque falando justamente sobre isso. Ele fez até uma comparação com a Alemanha nazista: Hitler foi culpado por muitas coisas, mas não de ter sido eleito. A culpa foi justamente dos seus opositores que não conseguiram criar uma alternativa.

Acho que a esquerda e a direita são a mesma coisa com o Bolsonaro. Não foi o processo de impeachment em si, foi o processo eleitoral, em que tanto a direita que discorda do Bolsonaro não foi capaz de criar uma alternativa quanto a esquerda também não foi capaz.

Então o senhor acredita que valeram a pena os esforços para tirar a presidente?

Sim. Posteriormente, com o governo Temer, a gente teve uma estabilidade política, crescimento econômico, reformas estruturantes para o país que foram importantes para evitar o completo colapso econômico e social naquele momento. Então, não acho que o resultado direto do impeachment tenha sido o governo Jair Bolsonaro. Acredito que o resultado direto foi o governo Temer, que trouxe estabilidade, crescimento econômico e possibilitou um processo eleitoral legítimo e democrático. Agora, o resultado desse processo eleitoral aí já não é responsabilidade do processo de impeachment, é responsabilidade dos eleitores e dos grupos políticos que se articularam para disputar a eleição.

Para as próximas eleições vocês já projetam cargos maiores, talvez no poder executivo?

Acho que tem a possibilidade de ter candidatos do MBL para governos estaduais, mas eu não vejo possibilidade de a gente ter candidato à presidência da República. A gente tem pensado, estruturado um projeto para não nós termos um candidato próprio, mas para dentro da direita a gente promover um fórum juntando o MBL, o Novo, Cidadania, Podemos, e promover espécie de prévias, debates internos para definir um candidato possivelmente único para a direita, que tenha certo consenso nas principais forças da direita para tentar ter uma alternativa ao Bolsonaro, que deve tentar a reeleição, se não for cassado até lá. Ou, ainda que seja cassado, deve ter um indicado próprio para concorrer às eleições, então, a gente tem se estruturado para isso.

E o PSDB fica fora disso?

A alternativa do PSDB é o governador João Doria, que perdeu muito a legitimidade na direita. Primeiro por ter deixado a prefeitura de São Paulo. E segundo... A gente rompeu com o João Doria quando, enquanto prefeito, ele foi contra ideias liberais que eram parte das propostas de campanha dele: uma foi a regulamentação do Uber e a outra foi a taxação dos serviços de streaming.

Eu não vejo ele (João Doria) com a menor chance de ser um candidato para representar a direita. Eu também não vejo vontade nele em representar a direita, ele mesmo já deixou de se auto intitular um liberal para dizer que é uma pessoa de centro.

O senhor é do DEM, parte do chamado centrão. Como você vê essa negociação entre partidos do centrão e o presidente Jair Bolsonaro?

Eu sou do DEM, mas tenho uma atuação independente. Ainda assim, dentro do centrão que negocia com o governo, o DEM não faz parte dessas negociações. O foco é PP, PR, PRB e o PSD. Eu vejo com extremos maus olhos, porque uma coisa é ter indicação política para o governo, uma coisa é você compor para governar com base em um projeto, outra coisa é você aceitar indicações de pessoas absolutamente incapazes para coordenar aqueles cargos e que vão simplesmente utilizar os cargos como máquina eleitoral para financiar, patrocinar projetos de deputados federais em 2022, que é exatamente o que está acontecendo.

Sem falar da hipocrisia do Bolsonaro, que sempre disse ser “a nova política”, apesar de eu discordar veementemente desse termo, e combater o centrão, à época ele criticou muito o Alckmin pela aliança que ele fez. E agora está fazendo exatamente aquilo que sempre criticou enquanto deputado e mesmo durante a campanha para a presidência da República.

Sobre as atuações de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, que também são do mesmo partido que o senhor, como tem visto a atuação deles em meio à crise?

Acho que falta punho de ambos para fazer o enfrentamento ao presidente da República. Tanto o presidente Rodrigo Maia quanto o presidente Davi Alcolumbre ficam em uma posição em cima do muro, ao mesmo tempo que vivem soltando notas de repúdio, o que para mim não tem efeito prático nenhum. Se o presidente tivesse medo de uma notinha, não seria presidente da República.

Falta punho, falta agir de maneira incisiva contra as investidas autoritárias do presidente da República e também contra a condução para crise que o presidente nos leva. Você simplesmente não tem uma resposta mais dura das instituições. Cada vez mais o Bolsonaro tenciona as instituições e testa em que limites ele pode chegar. Inicialmente, criticando o Congresso, depois do Supremo, depois atacando pessoalmente ministros do Supremo, atacando pessoalmente o presidente da Câmara, do Senado, depois convocando manifestação para fechamento do Supremo e do Congresso, participando dessas manifestações, enfim...

Não sei mais em que ponto o presidente precisa chegar para que o Congresso tome uma atitude institucionalmente mais dura.

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