Quantidade de cocaína apreendida no Brasil pela PF cresceu 15 vezes em 20 anos

Yahoo Notícias
Divulgação/Polícia Federal
Divulgação/Polícia Federal

Por Taís Seibt

A quantidade de cocaína apreendida pela Polícia Federal no país em 2019 foi 15 vezes superior às apreensões contabilizadas em 1999. É o que aponta um levantamento inédito feito pela agência Fiquem Sabendo com base em dados da corporação obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). 

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

Os dados apontam ainda uma redução na diferença proporcional de apreensões de cocaína em relação à maconha.No fim do século passado a proporção era de 1 para 10 - a cada quilo de cocaína apreendida, 10 quilos de maconha eram interceptados. Vinte anos depois, a proporção caiu de 1 para 2,5: a cada quilo de cocaína, são apreendidos pela PF 2,5 quilos de maconha. 

Leia também

Em 2019, a PF apreendeu 104 toneladas de cocaína em todo o país, somados cloridrato, pasta-base de cocaína e crack.

Para o pesquisador Francisco Amorim, que estuda violência urbana a partir de análises estatísticas no Grupo de Pesquisa Violência e Cidadania da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a mudança na relação proporcional nas apreensões de maconha e cocaína não necessariamente representa que há menos maconha circulando no país. “Pode ser que haja mais drogas circulando, mais ação policial ou a combinação de ambos, de qualquer forma, o aumento da apreensão é um bom sinal”, avalia o pesquisador. 

Além da mudança abrupta de patamar do volume de cocaína apreendido, chegando a um aumento de 1.472% na comparação entre 1999 e 2019 (15 vezes mais), o que chama atenção do pesquisador na base dados é que houve mudanças na geografia das apreensões. Comparando dados por unidade da federação nos anos de 1999, 2009 e 2019, que seriam a síntese de cada década, Amorim destaca Estados como Rio Grande do Norte e Bahia, onde as apreensões de cocaína somavam cerca de 100 quilos em 2009 e chegaram próximo de cinco toneladas em 2019.

“Com a desestruturação da Venezuela, e toda a crise política também afeta o mercado ilícito, o Brasil se tornou uma rota viável para o tráfico internacional. Rio Grande do Norte e Bahia são pontos de saída da América Latina para a Europa, o que pode explicar o aumento mais acentuado de apreensões nesses lugares”, comenta Amorim, lembrando também as disputas de poder entre facções nos presídios de Natal, que resultaram em motins e massacres. 

O pesquisador da UFRGS ressalva que é normal que a Polícia Federal faça mais investigações de tráfico internacional em regiões de fronteira ou rotas de tráfico, mas não se pode afirmar, necessariamente, que o volume de drogas é maior nas regiões em que a PF apreendeu mais. “O que se observa é que a Polícia Federal, que tem como alvo o combate ao tráfico internacional de drogas, aparentemente, está apreendendo um volume maior de cocaína, mas somente com esses dados não temos como saber se há mais drogas circulando, pois não sabemos se a Polícia Civil nos Estados realiza mais ou menos apreensões do que antes”, complementa. 

No ano passado, o estado de São Paulo teve o maior volume de cocaína apreendido no país, com 36 toneladas, seguido de Paraná, com 24 toneladas, e Mato Grosso do Sul, com seis toneladas. Conhecido pela disputa entre facções pelo domínio do tráfico de drogas, o estado do Rio de Janeiro é apenas o 11º do ranking de apreensões de cocaína pela PF, com cerca de duas toneladas em 2019. “As zonas de entrada ficam muito marcadas, o que explica, por exemplo, o Paraná ter uma quantidade mais significativa de apreensões em comparação ao Rio de Janeiro, onde é mais intenso o tráfico de varejo”, explica Amorim. 

A série histórica também aponta crescimento no volume de maconha apreendida pela PF. Na comparação entre os anos finais de cada uma das três décadas, ou seja, 1999, 2009 e 2019, pode-se notar que as apreensões de maconha dobram de uma década para outra, um aumento menos expressivo do que o visualizado para cocaína. 

Outra observação é que há maior oscilação no volume de maconha apreendido de um ano para outro, diferente do que ocorre com a cocaína, que apresenta uma tendência mais clara de crescimento nos últimos anos. 

Uma das explicações possíveis, segundo Amorim, é que são mais comuns apreensões de grandes volumes de maconha de uma só vez. “A apreensão de um caminhão carregado de maconha já muda o cenário, na cocaína as quantidades são menores em cada operação”, compara.

Leia também