Punição a Taison só reforça o quanto o futebol tolera o racismo

Até o dia 20 de novembro de 2020, próximo Dia da Consciência Negra, a Goal expõe os casos de preconceito racial que ainda assolam o futebol
Até o dia 20 de novembro de 2020, próximo Dia da Consciência Negra, a Goal expõe os casos de preconceito racial que ainda assolam o futebol

Vítima de racismo no clássico entre Shakhtar Donetsk e Dínamo de Kiev ao lado de Dentinho, Taison foi punido pela federação ucraniana pela forma como reagiu aos cânticos preconceituosos entoados em sua direção. Pegou um jogo de suspensão.

Apesar dos diversos problemas que cercam as mais diferentes federações do futebol, dificilmente você vai ler uma notícia tão absurda quanto esta. E olha que estamos no Brasil, onde a CBF diz que vai interromper os campeonatos nacionais nas Datas FIFA de 2020 e divulga um calendário que não interrompe as competições de clubes durante o mês de realização da Copa América – que é Data FIFA.

“Eu nunca passei por isso na minha vida. Foi um negócio que foi estranho para mim. Estou no país há nove anos e nunca tinha acontecido isso. Já tinha visto acontecer em outros lugares, em outros estádios e nunca pensei que ia acontecer isso”, disse Taison à Rádio Atlântida dias após os acontecimentos lamentáveis no estádio do Metalist, em Kharkiv.

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Relembre o caso

O Shakhtar fez um gol cedo e venceria o clássico por 1 a 0. Tão cedo quanto, a torcida visitante que veio de Kiev já perseguia os brasileiros com cânticos racistas: primeiramente direcionados a Dentinho, ex-Corinthians, e depois direcionados a Taison.

O meia-atacante, ex-Internacional, não escondeu a revolta e reagiu: mostrou o dedo do meio para os detratores e, assim como Mario Balotelli havia feito na Itália dias antes, pegou a bola e chutou em direção aos racistas.

Seguindo o já antigo (e sem muito efeito) protocolo da FIFA para lidar com a situação, o juiz interrompeu o jogo e as equipes desceram para os vestiários. Taison e Dentinho não esconderam as lágrimas. Quando o duelo foi retomado, o árbitro cometeu o absurdo de expulsar Taison por conta de sua reação. Um erro que ganhou o carimbo da federação ucraniana nesta quinta-feira (21).

FIFPro não esconde insatisfação

Através de suas redes sociais, a associação internacional de jogadores (FIFPro) manifestou a sua revolta com a suspensão de Taison.

“Estamos muito decepcionados com a decisão da Associação Ucraniana de Futebol de punir Taison com um jogo. Sancionar uma vítima de racismo vai além da compreensão e joga a favor daqueles que promovem esse comportamento vergonhoso”.

Quem tem a obrigação de trabalhar assim?

Segundo apurado pela Goal, Taison não pensa mais em continuar na Ucrânia. O episódio de racismo foi o agravante gigantesco em meio à insatisfação do atacante pela recusa do Shakhtar em negociá-lo com o Milan no início da temporada.

Taison, que abre o Top 10 de maiores artilheiros na história do Shakhtar (48 tentos), tem vínculo com o clube de Donetsk até 2021. E aparentemente até que consiga convencer a sua equipe a negociá-lo, terá que ficar, a contragosto, em um país que tolera absurdos como o racismo.

Afinal de contas, como se não bastasse à FIFA ter um protocolo que não ajuda a punir de forma mais acintosa atos racistas, o Regulamento de Transferência de Jogadores da entidade sequer lista a possibilidade de um atleta tomar alguma ação caso queira, sob contrato, deixar um clube por ser alvo de discriminação.

A punição recebida pelo Dínamo de Kiev? Apenas um jogo com portões fechados e multa equivalente a R$ 87.160,38.

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