Apesar de protocolo da FPF, infectologistas apostam em retorno dos jogos apenas no ano que vem

(Fernando Moreno/AGIF)
(Fernando Moreno/AGIF)

Por Ricardo Assis (@RicardoWAAssis)

No início deste mês, trechos do protocolo médico da FPF (Federação Paulista de Futebol) para o retorno do futebol em meio à pandemia do coronavírus foram vazados para a imprensa esportiva. No entanto, segundo Moisés Cohen, ortopedista e presidente do Comitê Médico da Federação, trata-se de um documento ainda em estágio de elaboração. Visando entender a eficácia dos pontos levantados pelo protocolo e os próximos passos para o futebol brasileiro, o Yahoo Esportes conversou com Moisés Cohen e os infectologistas Renato Kfouri e Raquel Muarrek.

Cinco premissas do protocolo da FPF - Foto: Reprodução
Cinco premissas do protocolo da FPF - Foto: Reprodução
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De acordo com trechos divulgados pelo protocolo na imprensa, uma das medidas que está em análise pela federação é a obrigatoriedade do uso de luvas e camisas de manga comprida pelos atletas. De acordo com Renato Kfouri, Diretor Médico da Provaccina Centro de Imunização, não há grandes ganhos nessa medida: “É preciso entender as vias de transmissão. O vírus é transmitido essencialmente de duas maneiras: por via respiratória e por superfícies. Você espirra ou tosse e contamina maçanetas, corrimãos, etc. A pessoa pode colocar a mão nessa superfície e se auto infectar ao tocar os olhos, nariz e boca. Transmissão por barba, cabelo, roupa ou pata de cachorro são absolutamente eventuais. Você pode espirrar e deixar no cabelo, na barba, no cachorro, mas não é assim que se transmite doença respiratória. O grosso de transmissão se faz dessas duas maneiras [respiratórias e superfície]. Você ter manga comprida, ter luva, não acredito que sejam medidas que tragam algum impacto positivo”. Moisés Cohen, questionado sobre a eficácia, afirmou: “Isso ainda vai ser discutido, são sugestões. Tudo que eu puder fazer para diminuir a transmissão do vírus é bem-vindo, desde que não atrapalhe a prática da modalidade. Usar manga longa e luva protege mais? Protege, mas o custo benefício, vale a pena? Então essas questões nós estamos fazendo no fórum médico, para poder dizer se vale a pena ou não. Então isso é algo que não foi discutido a fundo para dizer se vai ser feito ou não. ”

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Também estão em análise pelo comitê médico da FPF medidas de conscientização, que visam orientar os jogadores a não comemorar gols e reclamar perto do árbitro. De acordo com Moisés Cohen, tratam-se de medidas educativas: “A conotação do abraço, do beijo, é muito mais uma questão de responsabilidade social. Quando você vê isso na televisão, a pessoa que está assistindo pode se achar no direito de sair, jogar bola, beijar, abraçar... E não é isso que a gente quer, nós precisamos pensar na sociedade como um todo.”. No entanto, apesar do valor simbólico, não existe uma grande eficácia nas ações: “Você falar perto, não usar máscara, certamente aumenta o risco de transmissão. Agora, se você pretende evitar que as pessoas falem perto, acredito que o jogo nem deveria acontecer. Você fala com jogador, com todo mundo e não fala com árbitro? É esquisito, né? Ou você faz um jogo em que ninguém fala com ninguém, todo mundo mantém 1 metro de distância, ou seja, não tem jogo. Não me parece muito sensato restringir apenas uma pequena única situação do jogo. ” afirma Renato Kfouri.

E se um atleta pegar?

Uma questão que vem preocupando atletas, comissão técnica e todos os envolvidos na prática do esporte são as complicações decorrentes da contaminação pela Covid-19. De acordo com Raquel Muarrek, infectologista do hospital Emílio Ribas, existe a possibilidade de um atleta ficar até um semestre sem treinar por conta das complicações: “Existem discussões de dano pulmonar em doença aguda grave. Pode-se perder, inicialmente, 30% de função pulmonar. No entanto, deve ocorrer uma resolução disso após 30 dias. A maioria dos casos tem resolução completa da imagem, mas é possível ter lesão pulmonar de até 30% sim, em casos muito graves. Existe também a possibilidade de perda de função miocárdica, que pode levar à miocardite em alguns casos. Por ser um tecido muscular, vascularizado, podem ocorrer ações vasculares da Covid. Em torno de 7 à 10% dos pacientes com Covid-19 moderado (casos que requer internação) podem ter alterações miocárdicas. Quando você tem uma miocardite ou pericardite, o atleta tem que ficar pelo menos seis meses sem jogar para não evoluir como uma insuficiência cardíaca. Cada segmento tem que avaliar isso tudo para fazer a liberação para treino e jogo. ”

Moisés Cohen, questionado sobre a possibilidade da contaminação por coronavírus desencadear danos permanentes em atletas afirmou: “ Em medicina tudo existe, 2+2 não são 4. Todos os cuidados que estamos preconizando, não apenas no mundo do futebol, é com o objetivo de evitar a contaminação. ” O presidente do comitê médico da FPF também apontou a irregularidade dos testes para identificar casos assintomáticos no início e reforçou a importância do protocolo. “O assintomático é o grande problema. Ele pode fazer o teste e chegar negativo na concentração, mas ele pode ter feito ele durante um hiato imunológico onde o vírus estava presente e não foi detectado. Aí ele é concentrado, e depois de cinco, dez dias o vírus se manifesta. Teve erro, teve falha? Não, isso faz parte da evolução da própria doença. O único método 100% seguro é fazer os testes, ficar negativo e preso dentro de um quarto. Fora isso, nós precisamos diminuir todas as chances de risco. A máscara é um excelente meio de diminuir o contato, lavar a mão também. Tudo isso será colocado de maneira muito enfática no protocolo. “

O primeiro passo para a retomada do futebol, no entanto, passa pelo retorno aos treinos. No momento, os jogadores vêm treinando em casa com a supervisão da comissão técnica dos clubes. O passo seguinte, ainda sem previsão, é o escalonamento dos treinos. A ideia da Federação, que segue o protocolo adotado por ligas europeias, é iniciar o treinamento individualmente, e gradativamente dividir em grupos ao longo das semanas, visando a liberação dos coletivos na terceira ou quarta semana. “Isso é importante pois é possível que, quando o teste foi feito, o atleta esteja dentro da janela imunológica. Pode aparecer como negativo e o atleta estar contaminado, pois não deu tempo do organismo se manifestar contra. Depois de uma semana, dez dias, a chance disso se manifestar é muito maior. Então por isso é importante separar em grupos nesse período. Se tiver a contaminação, que ocorra em pequenos grupos se ela vier a ocorrer. Quando passar esses sete, dez dias, pode começar a juntar todo mundo, pois a chance passa a ser cada vez menor.” afirmou Moisés Cohen.

Confinamento em hotéis e CT’s

Visando diminuir o risco de contaminação, o protocolo da FPF sugere o confinamento de jogadores, árbitros e comissão técnica durante o andamento da competição. De acordo com Moisés Cohen, o confinamento diminui os riscos, mas não é possível eliminá-lo totalmente: “Completamente, não existe. No entanto, todos que estiverem nesse ambiente de concentração estarão submetidos aos mesmos critérios e cuidados. É preciso adquirir novos hábitos, como por exemplo: limpar o local da alimentação e ginástica com uma toalha de papel com álcool em gel. Se você fizer isso, a chance de contração do vírus é cada vez menor. Todos que tiverem na concentração terão de usar máscaras e seguir os protocolos.” afirmou.

De acordo com o presidente do comitê médico, o confinamento é mais fácil nesse momento, pois faltam poucas rodadas para o final do campeonato. “Seria difícil concentrar para um campeonato inteiro, mas estamos falando apenas do término do campeonato paulista, são 6 rodadas. Na primeira semana teremos 16 equipes concentradas, na segunda semana são apenas 8, na terceira semana são 4, e na quarta apenas 2. Apenas 4 equipes ficarão de fato 3 semanas, o resto já foi pra casa.”

Cronograma para a finalização do Campeonato. Foto: Divulgação
Cronograma para a finalização do Campeonato. Foto: Divulgação

Quando volta?

Questionados a respeito da definição de uma data de retorno, tanto Moisés Cohen como os especialistas foram unânimes: não é possível estipular no momento. “Pergunta do milhão. Não tenho nenhuma base, toda afirmação que nós fizermos, na minha opinião, seria irresponsável. Estamos ainda aprendendo a entender a curva. Pelo que temos de informação, estamos com uma previsão real de que precisamos de pelo menos mais quinze dias para atingir o ápice da curva. Estamos num momento muito ruim, onde as coisas estão mudando. Começou nos hospitais “premium”, mas hoje já está diminuindo nesses hospitais. No entanto, nos hospitais públicos e na rede SUS, está aumentando a cada minuto. As cidades do interior, que antes não tinham casos, agora estão tendo. Tem que chegar o momento em que possamos enxergar que chegamos ao pico e está tendo um controle da situação, aí poderemos conversar: Qual o lugar? Qual a data? Quanto tempo de concentração para treinar e depois jogar? São perguntas de ordem prática, mas que não tem resposta, pois não temos elementos para isso.”, afirmou Moisés Cohen. Raquel Muarrek foi além: “Na minha opinião, jogo mesmo, acredito que só deva retomar no ano que vem. Esse ano a tendência é fazer apenas treinamento escalonado, sequenciado com exames, com poucos jogadores em cada campo. A estipulação de data é para treinamento.”.

Assim como vem sendo de praxe em diversos campeonatos, o protocolo da FPF prega a testagem constante e em massa de todo os jogadores e participantes da comissão técnica. Questionado pela reportagem sobre a possibilidade da FPF custear os testes, Moisés Cohen afirmou: “Olha, eu não posso responder porque eu só sou médico...o dinheiro não está no meu bolso (risos). Obviamente a federação é muito sensível a toda essa questão, o presidente Reinaldo numa reunião chamou a atenção quanto a isso: Se existe uma coisa que não se faz economia, é na saúde. Então estou entendendo que a federação, sensível a isso, deverá evidentemente ajudar os clubes de alguma maneira para que isso seja viável, senão não teremos campeonato. Não sei como será essa ajuda, mas a federação está muito interessada em colaborar para que as coisas aconteçam. Estou orçando e levantando uma série de testes...Todos os dias recebemos uma infinidade de ofertas de testes, máscaras, e eu sou responsável por fazer uma análise, ao menos no primeiro momento, técnica. Se não tenho competência, eu consulto meus pares infectologistas e patologistas e tenho subsídios para chegar a uma conclusão. Depois passarei isso ao setor de compras da Federação para que seja feita a negociação com as empresas. “

Uma das preocupações de Cohen diz respeito a eficácia e qualidade dos testes no mercado. “Infelizmente a grande maioria dos testes rápidos são de baixa qualidade. Colegas de laboratório tem feito esses testes rápidos, e alguns tem assertividade de 38 ou 40%. Ou seja, você tem 60% de chance de fazer um teste e não saber se é um falso positivo ou negativo. Temos que esperar também o pico da curva para saber qual o teste é o melhor para o momento que vivemos da doença.” afirmou.

O protocolo, ainda em construção, contou com sugestões e avaliação dos médicos dos clubes. “Ele foi feito pelo comitê e discutido em uma reunião onde estavam presentes todos os médicos das Séries A1, A2, A3 e do feminino também. Eu tinha 70 médicos reunidos numa segunda a feira à noite, via plataforma de vídeo. Eu primeiro mandei o protocolo aos médicos para que eles lessem e sugerissem coisas. Dentro daquilo, fomos mudando, adaptando, colocando e saiu esse documento que é de confecção do comitê médico da FPF, porém com a participação absolutamente ampla de todos os médicos de clubes da federação. Eu acho que isso dá uma credibilidade, uma validação muito maior para o protocolo que é feito em comum acordo para o benefício do atleta.” afirmou Moisés Cohen.

Ao fim, o presidente do comitê médico agradeceu ao trabalho de todos que participaram da confecção e pregou paciência e estudos antes do retorno do campeonato: “Todos nós queremos futebol, mas precisamos que ele seja praticado com segurança. Não podemos nesse momento sermos inconsequentes e agir pela emoção, paixão. Todos os médicos e clubes tem participação, e eu agradeço aqui publicamente a participação de todos. Não quero nenhuma glória para mim, porque isso foi um trabalho conjunto de todos, e nós nos baseamos em protocolos que já estavam sendo elaborado concomitantemente, como os da CBF, Liga espanhola, italiana, alemã. Entrei em contato com diversos colegas médicos até mesmo da FIFA, que me alimentaram com informações.”

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