Artilheira do Brasileiro só soube que podia ser profissional vendo Marta no estádio

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<em>Gabi Nunes tornou-se a maior artilheira da história do Campeonato Brasileiro Feminino (Bruno Trolo/Corinthians)</em>
Gabi Nunes tornou-se a maior artilheira da história do Campeonato Brasileiro Feminino (Bruno Trolo/Corinthians)

Gabi Nunes tem apenas 22 anos e já escreveu seu nome na história do futebol feminino brasileiro. Há dez dias, a atacante do Corinthians marcou quatro vezes na goleada por 7 a 0 sobre o Sport e se tornou a maior artilheira do Campeonato Brasileiro Feminino, com 40 gols, superando Byanca Brasil, que tem 38 tentos e hoje joga na China.

Vista como promessa desde a base, a atacante e meia esquerda alcançou o recorde mesmo tendo ficado um ano e dois meses afastada dos gramados por conta de lesões graves no joelho, mas voltou bem e aos poucos vai consolidando sua carreira. Mais um desafio superado pela jogadora que foi proibida de jogar entre meninos quando criança, mas que descobriu que queria ser profissional depois de ver Marta no estádio.

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Gabi começou a jogar bola antes dos cinco anos de idade, inspirada pelo irmão mais velho, Roberto Júnior, que também tinha o sonho de ser jogador profissional. Aos sete, em 2005, ela entrou para o time dos meninos da escolinha de futsal do Grêmio Filsan, na Zona Norte de São Paulo (SP). Jogou por alguns meses, mas repentinamente foi avisada de que não poderia mais jogar.

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“Eu lembro pouca coisa, mas meu técnico foi em casa me contar que os organizadores tinham proibido meninas de jogar com meninos. Eu era a única e me destacava entre elas, mas decidiram que não poderia mais atuar com eles”, contou a jogadora do Corinthians ao blog Deixa Ela Jogar. “Foi um momento difícil para mim porque amava jogar futsal e amava jogar lá, e tiraram essa alegria de mim. Chorei bastante, foi como terem tirado doce da boca de uma criança.”

No período em que ficou fora das quadras, Gabi jogava bola nas ruas todos os dias, por paixão, mas até então não pensava em ser profissional. A falta de informações sobre times e competições femininos fizeram com que a garota demorasse para saber que esse era um caminho que poderia ser seguido.

<em>Roberto Júnior ajudou a irmã Gabi nos primeiros passos como profissional (Reprodução/Instagram)</em>
Roberto Júnior ajudou a irmã Gabi nos primeiros passos como profissional (Reprodução/Instagram)

Aos dez anos de idade, voltou a jogar futsal pelo Macabi, do Clube Hebraica de São Paulo, com meninas mais velhas, como hobby. As amigas de sua mãe lhe contavam histórias sobre times amadores de mulheres que pagavam mensalidade para jogar, porém o sonho de ganhar a vida com futebol só tomou corpo há dez anos, quando os amigos santistas de seu pai a levaram para ver um jogo do Santos de Marta no Pacaembu.

“Era um jogo da Libertadores, o estádio estava lotado, todo mundo torcendo. Me emocionou muito ver o tamanho que tinha o futebol feminino, a Cristiane jogando junto, foi bem especial porque nunca tinha visto um jogo feminino ao vivo”, explicou Gabi, que, a partir daquele momento, decidiu: queria ser jogadora de futebol.

Para isso, teve apoio fundamental do irmão. Foi durante um jogo de seu irmão no Vila Guarani de Jabaquara que Roberto Júnior viu o treino principal feminino do Centro Olímpico e perguntou pro então técnico, Arthur Elias, como funcionava aquele clube. Gabi Nunes, então, foi fazer testes e foi aprovada na equipe sub-15.

“Foi onde tudo começou a ficar sério, comecei a crescer no futebol e conquistei tudo na base. Joguei com Cristiane, aprendi muito, a gente tinha um timaço”, lembra Gabi, cujo faro de gols garantiu lugar nas seleções sub-17 e sub-20 e rendeu alguns prêmios individuais. Aos 18 anos de idade, em 2015, foi artilheira do Brasileiro e Paulista pelo Audax – que posteriormente fechou parcerias com o Centro Olímpico e com o Corinthians. Em 2016, conquistou a vice-artilharia na Copa do Mundo sub-20 e recebeu a Chuteira de Prata das mãos de ninguém menos que Marta.

<em>A atacante do Corinthians recebeu a Chuteira de Prata das mãos de Marta em 2017 (Divulgação/CBF)</em>
A atacante do Corinthians recebeu a Chuteira de Prata das mãos de Marta em 2017 (Divulgação/CBF)

“Lembro quando ela entregou o prêmio em Manaus e brincou ‘dessa eu tenho uma’. Ganhar um prêmio que só ela ganhou no Brasil é o sonho de qualquer jogadora”, comemorou a atacante, que também foi chamada por Vadão para treinar com o time que disputou as Olimpíadas e por Emily Lima para alguns amistosos. Uma lesão grave, contudo, interrompeu a rápida ascensão.

Convocada para o Torneio das Nações em 2017, Gabi Nunes sofreu uma ruptura no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em um duelo contra os Estados Unidos, precisou ser submetida a cirurgia e ficou sete meses parada. Não participou da campanha do título da Libertadores 2017, quando o Corinthians fez parceria com Audax pela primeira vez e foi campeão invicto.

Auxiliada pela equipe médica da CBF, a atleta fez o tratamento e se recuperou. Voltou para os campos em março de 2018, mas durante um amistoso entre Corinthians e a seleção sub-20 – o primeiro amistoso desde sua volta –, bastaram cinco minutos em campo para ela sofrer a mesma lesão no mesmo joelho. Teve que passar por cirurgia novamente e ficou mais sete meses sem jogar.

“Foi muito mais difícil porque eu já havia passado por tudo aquilo. É normal da jogadora quando se machuca se excluir e se sentir excluída do futebol, você se sente meio inútil, mas o Corinthians e o time me deram muito apoio, minha família e amigos também ajudaram a manter o foco”, contou a jogadora, que aproveitou o tempo parada para criar uma marca de roupas própria, a GN, hoje gerenciada pelo irmão.

<em>Gabi foi convocada em 2016 e 2017, mas uma lesão pausou a evolução na seleção (Divulgação/CBF)</em>
Gabi foi convocada em 2016 e 2017, mas uma lesão pausou a evolução na seleção (Divulgação/CBF)

Gabi Nunes voltou a treinar no final do ano passado e esteve no banco no jogo entre Corinthians e Rio Preto, que culminou no título brasileiro alvinegro. Depois de um 2018 de fisioterapia e recuperação, a jogadora voltou com tudo em 2019. Ela reconhece que tinha capacidade para estar na lista de Vadão que irá disputar a Copa do Mundo feminina em junho, mas que acabou prejudicada pelas cirurgias e pelo tempo parada.

“As lesões me tiraram muita coisa, mas estou construindo isso de novo, com paciência, e feliz. Os gols contra o Sport e artilharia vieram em um momento importante, depois de muita dificuldade”, conta Gabi.

A artilheira tem talento, mas credita parte do seu faro de gols à formação que teve no Centro Olímpico. “Desde pequena, sempre treinei muita finalização. Graças ao Jonas [Urias] e ao Soro [Lucas Piccinato], [que] me ensinaram tudo da melhor forma possível, hoje sei cabecear e chutar com os dois pés, sei tudo que precisava para ser uma profissional completa”, lembra Gabi. “E muitos dos gols saem de jogadas que eu fiz no treino e repeti no campo. É fruto de treinamento e está dando certo.”

Planos para o futuro

O recorde ajudou a Gabi Nunes a consolidar seu retorno aos gramados e ela se permite voltar a sonhar alto: quer ser a melhor do mundo um dia, mas não quer o título de “próxima Marta”.

“Marta vai ser sempre a Marta, não terá outra jogadora igual a ela. O que eu quero é chegar onde ela chegou, conquistar grandes coisas como ela conquistou e construir uma história legal no futebol feminino, assim como ela fez. Trabalho e treino para isso, para estar entre as melhores”, explicou a atacante, que também planeja jogar na Europa.

<em>A jogadora sonha em jogar na Europa no futuro, mas foco está no Corinthians (Bruno Trolo/CBF)</em>
A jogadora sonha em jogar na Europa no futuro, mas foco está no Corinthians (Bruno Trolo/CBF)

“Já tive propostas, estava quase para sair, mas as lesões não deixaram. É meu sonho de criança, mas farei isso mais para a frente. Agora estou bem focada para jogar aqui”, projeta a atleta, confiante no desenvolvimento do futebol feminino no Brasil com as novas regras da CBF que obrigam times da Série A a manterem times femininos adulto e de base.

“Quando a gente soube que seria obrigatório, ficou muito feliz porque tem que começar de algum jeito. Abriram muitos times de camisa, aumentou número de treinadoras e times na A2 e fico feliz pela evolução, mas tem que ter organização, não dá para fazer de qualquer jeito”, avalia a jogadora. “A gente está vivendo o melhor agora, mas ainda tem muito para melhorar. Temos que construir a cada dia para criar uma situação ainda melhor para as mais novas, para que no futuro esse esporte seja valorizado como a gente merece.”

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