Proibição de cerveja na Copa do Mundo desanima turistas no Qatar

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - "Não dá para negar, é evidente que diminui a minha empolgação. Ainda mais sabendo só agora", reclamou o espanhol Diego Guillen, 35, questionado sobre a proibição da venda e do consumo de cerveja nos estádios da Copa do Mundo e em seus arredores.

A decisão, anunciada nesta sexta-feira (18), foi tomada pelo Comitê da Entrega e Legado, que organiza o Mundial. O órgão é liderado pelo secretário-geral Hassan Al Thawadi, próximo à família real. A competição começa neste domingo (20).

"Eu vim aqui para me divertir e agora não vou conseguir. Eu sempre bebo cerveja ou licor quando estou em um estádio", conta o arquiteto espanhol, que desembarcou no Aeroporto Internacional Hamad, de Doha, na tarde de sexta, poucas horas após o comunicado da Fifa sobre a mudança.

Guillen não foi o único que ficou surpreso. Muitos torcedores que chegavam ao país da Copa ainda não sabiam da nova determinação.

Apenas a versão sem álcool da cerveja continuará disponível em todos os estádios.

Apesar de o anúncio ter sido feito a apenas dois dias da abertura do torneio, o mexicano Alan Loredo, 36, já imaginava que isso poderia ocorrer. "É da cultura local, então temos que respeitar", diz. "Mas vai ser difícil não poder tomar uma bebida refrescante durante os jogos, principalmente com o calor que faz aqui."

Já Wayne Hennessey, 35, goleiro da seleção do País de Gales, torce para que o veto não afete o clima de festa nos jogos.

"Espero que não", disse. "Obviamente, todos nós amamos uma boa atmosfera. Os torcedores do País de Gales lá estão nos apoiando como nosso 12º jogador, espero que isso não os distraia de forma nenhuma."

O consumo de álcool não é permitido pela religião oficial do Qatar, o islamismo. Ser visto bêbado na rua é considerado crime. Bebidas alcoólicas só são permitidas em alguns lugares específicos, como bares e restaurantes de hotéis.

Mesmo assim, os preços não são nada convidativos. Os valores são semelhantes em diferentes locais do país. A Budweiser é vendida por 50 riais do Qatar (R$ 73), o mesmo valor que seria praticado no perímetro dos estádios. Já o copo com 500 ml da irlandesa Guinness é vendido por 55 riais do Qatar (R$ 81,04).

Durante a última Copa do Mundo, na Rússia, em 2018, foram vendidas 3,2 milhões de cervejas.

A venda de bebidas alcoólicas passou a ser uma discussão central na Fifa desde que o Qatar foi escolhido como sede do Mundial, há 12 anos, já que a Budweiser pagou US$ 75 milhões (R$ 405 milhões em valores atuais) para ser patrocinadora oficial do evento e ter seus produtos vendidos nas arenas e "fan fests".

Momentos antes do comunicado da entidade, o perfil oficial da marca no Twitter publicou uma frase já com um tom irônico: "Bom, isso é estranho".

Um piloto brasileiro de 38 anos, que mora no Qatar há sete anos e meio e pediu para não ser identificado, porém, não achou "estranho". "Eu já esperava, infelizmente, que seria assim. Só pensei que eles anunciariam isso bem antes", disse.

Para o profissional, os sinais já tinham sido dados em 2019, quando ele acompanhou o Mundial de Clubes no país para ver os jogos do Flamengo. "Foi legal, mas só tinha cerveja na fan fest. Nos estádios, não tinha nada", lembra o carioca, que cresceu acostumado a beber em bares do Rio sempre que ia ao Maracanã.

O piloto conta ainda que foi outra notícia que o surpreendeu meses antes da Copa do Mundo. A de que ele poderia agendar suas férias para a segunda semana de dezembro, bem no meio do torneio. Segundo ele, a demanda de viagens para o Qatar tem sido menor do que as companhias aéreas esperavam.

"Em 2014, eu trabalhava no Brasil e não parava de fazer viagens. Eu ia de um lado para o outro durante o tempo todo do Mundial. Então, eu não imaginava que poderia tirar férias aqui e poder ver os jogos. Mas eu vou assistir, sim."

Segundo a rede de televisão estatal Al Jazeera, são esperados 1,2 milhão de torcedores durante o Mundial. É quase a metade de toda a população do Qatar, formada por 2,7 milhões de habitantes.

Por enquanto, apesar de todo o esquema montado pelo país, sobretudo no transporte público, ainda não é possível notar nas ruas um aumento significativo de pessoas circulando.