Programa de tabelas Excel vira campeonato mundial com transmissão na TV

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Que tal ligar a TV em um canal esportivo e assistir a uma pessoa usando o Microsoft Excel? Sim, aquele mesmo das tabelas no computador -e com direito comentaristas avaliando os cálculos feitos.

Uma modalidade de esport (esporte eletrônico) com o programa de planilhas apareceu no último ano após ter sido transmitido pela ESPN americana. Bombou no Brasil em agosto, quando o streamer Casimiro assistiu a uma transmissão de um amistoso em seu canal.

O "Microsoft Excel World Championship" ("Campeonato Mundial de Microsoft Excel") é um torneio voltado exclusivamente ao programa de computador, que, convenhamos, não é conhecido por ser lá muito empolgante.

Agora, a segunda edição da competição, iniciada no dia 8 de outubro, aproxima-se da final: será no próximo sábado (12).

Se, assim como Casimiro, você ficou sem entender nada, este texto é para você.

Começando pelo básico: o Excel existe desde a década de 1980, passando por atualizações ao longo do tempo. Ele permite organizar dados em tabelas e fazer operações com essa informação -das mais simples, como somar valores, a coisas mais complexas, como juntar tabelas diferentes ou reorganizar os registros para tirar alguma conclusão.

Uma tabela anotando informações sobre cada jogo de um campeonato de futebol pode ser rearranjada para se extrair quem foi o maior goleador da competição, por exemplo, numa operação consideravelmente simples.

Para usar o Excel em um esport, são criadas várias tarefas desse tipo, e elas funcionam como uma espécie de game de perguntas e respostas.

Não existe limite. Desde que a resposta seja obtida dentro do Excel, a forma como o competidor chega ao resultado não importa. Pontua quem acerta, com questões mais difíceis valendo mais pontos.

Também não tem meio termo: nada de receber uma pontuação parcial por chegar a um valor próximo do resultado esperado. Se acerta, ganha os pontos. Se erra, não. Além disso, o tempo usado para responder às perguntas serve apenas como critério de desempate.

A modalidade é inspirada em torneios menores que existem desde 2012, mas ganhou estrutura e escala global com a FMWC ("Financial Modeling World Cup", ou "Copa do Mundo de Modelagem Financeira"), instituição criada em setembro de 2020 para organizar as competições.

Como o nome da organizadora indica, os primeiros torneios eram voltados ao mercado financeiro. A competição, ainda ativa, é tida como a temporada regular do FMWC, com rodadas ao longo do ano.

Nela, a cada rodada os competidores precisam responder baterias de perguntas sobre três "tarefas", duas ligadas ao mercado financeiro e uma sobre outros assuntos. Cada tarefa é, portanto, um grande problema a ser resolvido, subdividido em uma série de questões.

Para participar, é necessário pagar uma taxa de US$ 20 (R$ 101) por rodada ou comprar um pacote promocional de US$ 125 dólares (R$ 629) pela temporada completa. A inscrição é feita no site da organizadora: https://www.fmworldcup.com/

A ideia cresceu, e, usando essas questões que não exigem conhecimento de finanças, surgiu o campeonato mundial, batizado originalmente de "Excel Open". O formato foi adaptado para transformar a experiência mais televisionável. Virou um mata-mata, e o número de tarefas varia entre uma e duas.

Para entrar no Mundial, os competidores precisam pagar uma taxa de inscrição de até U$ 50 (R$ 252). Os participantes entram em uma etapa preliminar, não transmitida ao público, para que fiquem 128 competidores –compostos por cem da classificatória e convidados.

As premiações não se comparam aos prêmios milionários de alguns esports. Chegam a US$ 7.000 (R$ 35.248) na temporada regular ou US$ 3.000 (R$ 15.106) no Mundial.

Nos campeonatos, os participantes têm uma janela de tempo (a menor, no mata-mata, é de meia hora) para completar a bateria de problemas.

As questões normalmente não são encadeadas. Ou seja, para responder a pergunta 9 não é necessário ter feito da 1 a 8. Com isso, os planilheiros podem –e devem– gerenciar quais priorizar, o que é parte do desafio.

"Nunca consegui resolver todas as questões", diz Daniel Mello, 36, competidor da modalidade. "Vou escolhendo e, se estou demorando muito em uma, passo para a próxima, algo bem parecido com fazer uma prova."

Mello foi o melhor brasileiro no Mundial do ano passado ao chegar à terceira etapa do mata-mata, logo antes das oitavas, ou seja, ficou entre os 32 primeiros. Também compete na temporada regular do FMWC e, até a conclusão desta reportagem, era o segundo colocado do país, 107º no ranking geral com 421 competidores.

Neste ano, Mello não passou da etapa classificatória do Mundial, que avaliou como mais difícil. Foram mais de 500 participantes –os números do ano passado não foram divulgados.

Apenas um brasileiro conseguiu um lugar entre os 128 neste ano, Thomas Silva, mas perdeu logo na estreia.

APRENDIZADO

Embora fama e fortuna não sejam objetivos muito realistas ao virar atleta de Excel, aprender técnicas e ganhar confiança ao usar a ferramenta são resultados mais plausíveis.

"O campeonato de Excel faz sentido mesmo para quem disputa. É diferente de um Counter-Strike, que mesmo quem não conhece consegue ver e apreciar", avalia Daniel Mello. "É um jeito divertido de aprender."

Ele conta que trabalha com planilhas há anos e a experiência no esport ajuda a se sentir mais confortável de que dará conta de situações adversas na profissão.

O passado participando em torneios de outros esports, como Quake e Overwatch, ajuda ao trazer técnicas para manter o foco.

No fim, é um misto de fazer um vestibular e competir em um jogo.

"Em dia de competição, tento almoçar cedo, tomo água, evito comer coisas pesadas no dia anterior, evito redes sociais e distrações. Também aviso a pessoas da família e amigos para não me distrair e deixo o celular longe", conta Mello.

EXPANSÃO

Segundo Andrew Grigolyunovich, fundador da FMWC, há planos para expandir o campeonato de Excel. A empresa negocia mais exibições do torneio com a ESPN americana, além de tentar levar a modalidade para a TV em outros países.

Por enquanto, não há planos de exibição na TV brasileira, mas é possível assistir aos jogos ao vivo no canal da FMWC no YouTube.

"Nosso primeiro evento presencial será em novembro, com a final do desafio estudantil do Excel sendo realizado no Arizona", diz Grigolyunovich. "Conforme a modalidade cresce, podemos definitivamente fazer finais presenciais em um lugar como Las Vegas no ano que vem", afirma.

Há também a ideia de criar afiliadas em diferentes países para realizar competições locais de Excel. Hoje, há pouca participação de competidores de países da América Latina e da África.