Prisão de mãe de desaparecido mudou foco da investigação, apontam familiares

Familiares e amigos espalharam cartazes com a foto de Lucas Eduardo na esperança de encontrá-lo | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo
Familiares e amigos espalharam cartazes com a foto de Lucas Eduardo na esperança de encontrá-lo | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Por Paulo Eduardo Dias

“Prenderam ela para mudar o foco das investigações e tentar calar a boca da família”. É com essa frase forte e direta, que Isabel Daniela dos Santos, 34 anos, define a prisão de sua irmã Maria Marques Martins dos Santos, 38, há oito dias. Desde a detenção, a família precisa se dividir entre buscar pelo paradeiro de Lucas Eduardo Martins dos Santos, 14, e dar assistência à mãe do menino, que está presa por tráfico em uma penitenciária de São Paulo. Maria Marques nega que estivesse vendendo drogas quando foi presa em flagrante em 2012.

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Passados 12 dias desde o desaparecimento do menino em uma comunidade em Santo André, na Grande São Paulo, os parentes de Lucas Eduardo se classificam como “arrasados”, “sem comer”, “sem dormir”, “sem trabalhar”, e “sem dinheiro”, mas seguem mobilizados atrás de notícias sobre seu paradeiro. Também vivem na expectativa pelo resultado de um exame de DNA realizado em um corpo localizado em 15 de novembro, no Parque Natural Municipal do Pedroso, que pode ser ou não do menino sumido. O prazo dado no IML (Instituto Médico Legal) para a família de dez dias já expirou, o que aumenta a angústia. 

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O estudante desapareceu nas primeiras horas do dia 13 de novembro, uma quarta-feira, após sair de sua residência, na Favela do Amor, na Vila Luzita, periferia de Santo André, cidade na Grande São Paulo, para comprar um refrigerante em uma quitanda dentro da própria comunidade. Familiares e vizinhos afirmam que Lucas desapareceu após ser abordado por policiais militares. Desde o início das buscas pelo menino, dois PMs foram afastados do trabalho nas ruas, mas seguem atuando internamente e recebendo salário.

Tias, tio e primos de Lucas se reuniram na casa da Tia Leka, como Daniela é chamada, local em que Lucas passava a maior parte do dia usando a internet, para conversar com a Ponte.

Protesto realizado no dia 15/11 cobrando respostas sobre o paradeiro de Lucas | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
Protesto realizado no dia 15/11 cobrando respostas sobre o paradeiro de Lucas | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

O choro constante por parte dos familiares dias atrás, agora dá lugar a um semblante de cansaço, aflição e tristeza, motivado pela falta de informações por parte do Estado. A reportagem questionou a assessoria do governador João Doria (PSDB) se ele tinha conhecimento do caso e se iria se pronunciar, no entanto, recebeu como resposta um telefonema de um assessor informando que o posicionamento seria dado pela SSP (Secretaria de Segurança Pública).

Doria já se pronunciou diversas vezes em casos envolvendo PMs, inclusive homenageando agentes após a morte de 11 pessoas durante uma operação da Rota em Guararema, interior de São Paulo. Ele também criou um prêmio chamado “Policial Nota 10”.

A família de Lucas Eduardo e Maria Marques entende que, após a prisão da mulher, a polícia passou a não mais fornecer informações das investigações para eles, como se estivessem criminalizando a busca e existência deles. “Depois que a polícia prendeu a mãe do Lucas, eles não deram mais nenhuma informação. A família cobra a investigação e cobra o DNA, porque já se passaram os 10 dias prometidos”, diz a irmã da mulher presa e tia do estudante, Cícera dos Santos, 43 anos.

Sobre a prisão, os parentes a classificam como “esquisita”, já que a mulher “sempre morou no mesmo endereço, chegou a trabalhar registrada e levar os filhos até o Poupatempo para obtenção de documentos” e nunca foi importunada ou presa por tal mandado de prisão, expedido em 2017. Ainda segundo os familiares, a mulher chegou a acompanhar Lucas Eduardo para que o menino pudesse tirar seu RG dois dias antes do sumiço, no entanto, acabaram por voltar para casa sem que conseguissem êxito no obtenção do documento. 

“Como o caso do Lucas envolve a polícia, eles querem colocar ela [Maria Marques] como traficante, como se o sumiço do menino tivesse sido por uma dívida no tráfico”, alerta Cícera. 

“Estão querendo difamar a imagem do meu sobrinho. Não é todo mundo que vive na favela que é bandido. A gente vive na favela por falta de oportunidade. Eu mesmo estou desempregado, conto com a ajuda da minha família, de um ou outro vizinho para colocar comida em casa”, afirmou um tio de Lucas Eduardo que preferiu não se identificar.

Enquanto o paradeiro de Lucas Eduardo ainda é um mistério, a defesa de sua mãe analisa seu processo para que possa entrar com um habeas corpus junto ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) ainda nesta semana. O temor da família é de que se o corpo no IML for mesmo do menino a mãe fique sem acompanhar o sepultamento.

“Acabaram com a vida da gente, agora é esperar a resposta do DNA. A Justiça deve uma explicação para gente”, completa Daniela. “Eu só acho que eles decidiram cumprir o mandado da mãe para desestabilizar a pressão na busca pelo Lucas”, concluiu um membro da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, que acompanha o caso e pediu para não ser identificado.

Em nota, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informou que “o caso é investigado pelo Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) de Santo André sob sigilo. A Polícia Militar também apura os fatos por meio de IPM. Os exames periciais estão em fase de elaboração e serão analisados pela autoridade policial tão logo sejam concluídos”.

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