Primeiro acriano em Copas, Weverton superou saudade e fuga da concentração para fazer história

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 15.10.2018 - Retrato do goleiro Weverton, do Palmeiras, convocado para seleção brasileira. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 15.10.2018 - Retrato do goleiro Weverton, do Palmeiras, convocado para seleção brasileira. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)

SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - O técnico Illimani Suares se lembra bem quando recebeu uma ligação inesperada do goleiro Weverton, em meados de fevereiro de 2005.

"Professor, fugi da concentração. Estou próximo de uma estação de metrô", disse ao telefone o hoje goleiro do Palmeiras ao então treinador do Juventus-AC.

Illimani voltava de um passeio em um shopping em São Paulo quando correu ao encontro do pupilo, aprovado poucos dias antes em testes no Corinthians. Ele o acompanhava no período na capital.

"Durante a semana o alojamento era lotado, mas, no fim de semana, os meninos iam para a casa dos parentes ou de amigos. Ele ficou quase sozinho por lá, triste, então resolveu pular o muro e fugir. Quando o encontrei, estava chorando e dizia que queria voltar para Rio Branco. Eu expliquei que muitos gostariam estar no lugar dele, para não jogar fora a oportunidade", conta à Folha de S.Paulo.

A solução encontrada pelo treinador para convencê-lo a permanecer foi ligar para o avô do goleiro, Olavo.

"Ele respeitava muito o avô. Me lembro que me disse: 'professor, dê uns tapas nesse menino e o leve de volta, por favor'". Weverton, então, aceitou retornar.

A decisão de superar a saudade do Acre e de permanecer na capital paulista mudou o destino do goleiro no futebol.

Hoje consolidado no Palmeiras, com uma medalha de ouro em Olimpíadas nas costas, o atleta se tornou o primeiro representante do estado a disputar uma Copa do Mundo ao ser anunciado como um dos 26 escolhidos por Tite no último dia 7.

Weverton trabalhou com Illimani dos 12 aos 17 anos, no Juventus-AC. O treinador o viu pela primeira vez jogando pela escolinha Recriança e ficou impressionado.

"Pedi ao Mimi, um dos maiores entusiastas do nosso futebol acriano, se ele se incomodaria de eu levá-lo. Dava para ver que era muito diferente", conta.

A relação com o pupilo foi como voltar no tempo para o treinador. Na década de 1970, Illimani havia tentado ser goleiro profissional pelo Nacional-AM. Conta ter recebido ainda um convite do Náutico tempos depois, mas optou por seguir cursando a faculdade de direito.

"O Weverton me perguntava coisas muito curiosas, apesar de muito novo. Uma vez ele me chamou para dizer: 'professor, o que preciso para ser profissional fora do Acre?' Eu respondi que era necessário dedicação, foco e um pouco de sorte. E, graças a Deus, ele teve os três", explica.

A grande guinada aconteceu quando o Juventus-AC veio à Araraquara (355 km de São Paulo) para a disputa da Copa São Paulo de 2005.

Até dias antes, Illimani ainda tinha dúvidas sobre a escalação do jovem prodígio de 17 anos ou de Marcos, titular da categoria e com uma Copinha na bagagem.

Ele optou por Weverton, que saiu da estreia contra o próprio Corinthians como herói apesar da derrota por 1 a 0, com um gol sofrido já nos minutos finais da partida.

"Sabíamos que ele era diferente, mas foi uma surpresa quando o Illimani o escalou. O Marcos já tinha uma taça e não havia nenhum indício em treinos que jogaria", relata o ex-meia Cristian Souza, companheiro naquela equipe e amigo pessoal do goleiro.

"Conversei com o nosso preparador físico, o Jorair. Era o único que sabia. Ele me perguntou se estava louco, mas senti que devia fazer isso", lembra Illimani.

Uma série de defesas espetaculares fizeram com que dirigentes do clube paulista o procurassem ainda nos vestiários da Fonte Luminosa. Ele foi convidado para 15 dias de testes e, depois, acabou assinando contrato.

Apesar de nunca ter atuado profissionalmente no agora rival -acabou emprestado até o fim do contrato-, a permanência foi como um marco na carreira antes de deslanchar na passagem pelo Athletico-PR.

Mas a saudade de casa por mais de uma vez quase deixou o jogador pelo caminho.

Durante uma parada do ônibus para a disputa da Copinha, na divisa com Minas Gerais, Weverton ficou pendurado ao telefone com a mãe, Josefa, e acabou esquecido pela delegação. O restaurante ligou para a polícia rodoviária, que parou o ônibus mais de 30 quilômetros depois. Precisaram voltar.

"E quando chegamos no quarto foi a mesma coisa. Eu brinquei com ele que os interurbanos eram grátis. Nós descemos para jantar, jogar um pouco de sinuca, enquanto ele ficou mais de duas horas falando no telefone com a família. No dia seguinte, precisamos todos fazer uma 'vaquinha' para pagar o prejuízo", conta Cristian.

A cada comemoração de título e de decisão, virou comum a cena do jogador envolvido com a bandeira do Acre nas costas. Nela, há o registro orgulhoso: "Weverton, 100% Acre".

Os laços com antigos companheiros, Illimani e amigos são mantidos até hoje em grupos de WhatsApp e nas frequentes visitas à capital do estado, regadas por um tradicional futebol de fim de ano. O goleiro joga na linha -e faz gols.

A maior parte da geração do Juventus-AC não seguiu adiante, mas se sentiu representada ao ver o jogador convocado para o mundial dele. "Realizou todo mundo, emocionou demais. É como se fosse qualquer um de nós", diz Cristian.

No grupo que irá ao mundial, a maior parte nasceu em São Paulo -12 dos 26. O Rio de Janeiro é o segundo, com cinco representantes, enquanto o Rio Grande do Sul tem três atletas.

Aos 34 anos, se alcançar o hexa, Weverton também alçará o Palmeiras à marca de única equipe brasileira a ter um representante em todos os títulos do país. E a bandeira do Acre, sem dúvida, estará novamente com ele no gramado.