Primeira repórter trans, Lisa Gomes revela sonho: “Sentar em uma bancada”

·6 min de leitura
Lisa Gomes, primeira repórter trans da TV (Foto: Reprodução/Instagram@lisagomesreporter)
Lisa Gomes, primeira repórter trans da TV (Foto: Reprodução/Instagram@lisagomesreporter)

Por Felipe Abílio (goabilio)

Todos os dias, Lisa Gomes checa o celular ao acordar para saber o que vai encarar nas sete horas de jornada diária de trabalho. Com formação em rádio e tv e jornalismo, ela começou a carreira como repórter no site LGBTQ 'Arrasa Bi’, e hoje atua como uma das principais repórteres do 'TV Fama', da RedeTV.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Siga a gente!

Essa história poderia ser comum para qualquer mulher correndo atrás de seus objetivos, mas Lisa desafia as estatísticas do país. Aos 36 anos, ela é uma mulher trans morando no Brasil, onde a expectativa de vida para essas pessoas é de apenas de 35 anos, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais. “Sou privilegiada, mas corri atrás para me sentir respeitada no meu trabalho, sei da minha representatividade e quero mostrar que é possível para todas.”

Leia também

Com o apoio da emissora em que trabalha, Lisa se tornou a primeira repórter transexual do país, mas ela quer quebrar ainda mais barreiras. “Tenho o sonho de ser a primeira jornalista transexual a apresentar um jornal sentada em uma bancada, tenho certeza de que um dia isso vai acontecer”, diz confiante. “Pode ser outra transexual também, mas a gente precisa ter uma mulher trans no jornalismo diário.”

Nascida em Recife, em Pernambuco, ela deixou a família e amigos há 15 anos, quando se mudou para São Paulo para correr atrás de outro sonho. Lisa, que na época ainda não tinha iniciado a transição, queria ser atriz. Estudou teatro na tradicional Escola Macunaíma, mas com o tempo percebeu que não se sentia confortável nos papéis masculinos que pegava.

Conhecida na noite de São Paulo como Lisa Crazy ou Creuza Creolina, Lisa começou a sua carreira na comunicação ainda como drag queen se apresentando em performances ou como repórter. Nessa época, teve a ideia de montar um quadro de entrevistas como drag para a TV.

“Geralmente, eles pegam transexuais ou gays engraçadinhos para fazer coisas estereotipadas. Bati na porta de todas as emissoras e nenhuma me aceitou. Quando montei o projeto de uma repórter drag e mostrei para a RedeTV, eles aceitaram. Acho que estavam precisando dar uma ousadinha e me encontraram para isso. Viram que eu tinha qualificação e talento para ingressar no jornalismo”, relembra.

Com o tempo — e o quadro dentro do TV Fama dando certo —, Lisa foi se identificando com a alma de sua “personagem”: ela já não conseguia esconder de si mesma a necessidade de ser mulher 24 horas por dia. “Sentia que era diferente dos meus amigos gays desde pequena. A identidade de gênero era um conflito para mim. Mas era muito complicado me assumir como transexual para a família, apesar de ter cabeça de mulher e comportamento de mulher. De fato, estava no corpo errado”, relembra.

E foi a própria mãe que ajudou Lisa a assumir sua identidade transexual. “A minha mãe percebeu que eu não conseguia me aceitar como era, me sentia um óvni. Ela disse que percebia que eu era diferente desde pequena, e que até conversava com meu pai sobre isso na época. Quando decidi transicionar, comecei a conversar com meu pai, meus tios, para que a família se despedisse daquela figura masculina e desse espaço para essa nova mulher, que na verdade era a mesma pessoa.”

Alguns anos depois, dentro do trabalho, ela foi surpreendida por uma proposta. “Como comecei como drag na TV, um dia, o diretor [do TV Fama] falou que precisava que eu fosse a primeira repórter transexual do Brasil. E aqui estou.”

Preconceito na pele

Lisa relembra de situações marcantes da infância. “O pior momento da minha vida foi a escola. A cada a série que você completava, a sala mudava para o próximo andar do prédio. Fui passando de ano em ano e, cada escada que eu subia, sofria agressões, me chutavam, me xingavam. Sofria até chegar dentro da sala. Meu irmão estudava no mesmo lugar. Ele tentava me defender e acabava apanhando também. Passei a subir as escadas só depois que todo mundo já estava nas salas. Esses momentos marcam a gente. Não tem como esquecer.”

Já como repórter de celebridades, a jornalista diz que sabe o que fazer quando sente algum incômodo do entrevistado. “Nunca rolou preconceito escancarado. Geralmente, acontecem casos de estrelismo mesmo. Mas quando sinto um desconforto pelo fato de eu ser uma mulher trans, converso e tento quebrar o preconceito. Às vezes, o entrevistado começa monossilábico, porque acha que vou falar besteira ou fazer palhaçada, mas quando entende que a entrevista é séria, entra no clima.”

E assim Lisa vem conquistando cada vez mais espaço com a forma carismática que conduz suas entrevistas. Para ela, o importante é dar a informação que todos querem saber. “O que mais gosto da minha profissão é isso, me divirto fazendo esse trabalho. Hoje, o TV Fama não abrange só fofoca. Falamos de saúde, por exemplo, quando acontece alguma coisa que se relacione com o assunto. Passamos por todas as editorias. E eu sei fazer meu trabalho em todas elas.”

Lisa, leve e solta

Visando conquistar o público também fora da TV, além de mostrar um pouco mais de seu trabalho, Lisa decidiu estrear o seu próprio canal no Youtube: o 'Lisa, leve e solta’. Nos vídeos, a repórter convida famosos para um bate-papo mais informal. Já foram entrevistadas personalidades como Sula Miranda e Mara Maravilha.

“Fiz o canal a pedidos de alguns fãs. Apesar de ter esse lado mais divertido, no Youtube, faço praticamente o oposto do que estão acostumados a ver na TV. Ali, tenho a chance de conversar mais, explorar melhor as histórias. Quem assiste o canal está conhecendo a Lisa que sabe conversar, fazer uma boa entrevista. Estou bem feliz.”

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos