Pré-vestibular gratuito terá creche e aulas ministradas apenas por mulheres

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Cursinho popular Marielle Franco quer atender minorias. Foto: Divulgação/Deborah Happ
Cursinho popular Marielle Franco quer atender minorias. Foto: Divulgação/Deborah Happ

Foi pensando em unir minorias e proporcionar aprendizado de qualidade para todos os grupos de mulheres que a professora de matemática Rebecca Sophia Lima Happ, 33 anos, criou o cursinho popular Marielle Franco. O projeto terá sua primeira turma durante o ano de 2020 e quer proporcionar um ambiente acolhedor para mulheres que lecionam.

“Eu sou professora desde 2007 eu entrei no curso de física e matemática na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) exatamente para ser professora. Eu escolhi essa área e, desde que comecei a dar aula, eu sei que existe uma diferença entre ser mulher e homem, principalmente dando aula de exatas”, explica.

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Por conta disso, o cursinho será 100% feito por mulheres e para mulheres. De acordo com Rebecca, a ideia é que as professoras possam realizar todo o trabalho dentro do cursinho sem serem minimizadas, desvalorizadas, deixadas de lado ou até assediadas por colegas de profissão.

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“Todo mundo escuta história de professor machista, que acaba fazendo uma gracinha inapropriada, que fala o que não deveria… eu não estou dizendo que uma mulher não faria isso, mas o ambiente só com mulheres é mais acolhedor. É muito mais difícil um aluno ou aluna que se sente desconfortável com uma professora”, afirma.

Segundo a professora, a ideia do cursinho veio exatamente durante um momento em que as situações de machismo vividas no dia a dia da sala de aula a deixaram esgotada, sem esperança na profissão e triste.

“Eu entrei, em 2019, em uma depressão. Eu queria sair de sala de aula e passei por esse processo pensando o que eu poderia fazer para ressignificar a minha profissão. Nesse processo, eu pensei sobre o que faltava para eu estar mais feliz dando aula. Aí eu pensei em criar um cursinho que fosse totalmente gratuito e que só tivesse mulheres”, explica.

Professora Rebecca é idealizadora do projeto. Foto: Arquivo Pessoal
Professora Rebecca é idealizadora do projeto. Foto: Arquivo Pessoal

Porém, Rebecca queria mais. Ela desejava que o maior número de minorias pudesse ser atendido por meio do projeto. Sendo assim, ela levantou a possibilidade de dar prioridade nas inscrições para mães e para a comunidade LGBT.

Para possibilitar o ingresso dessas mulheres na universidade, o cursinho vai disponibilizar uma creche para as estudantes que tiverem filhos deixarem suas crianças brincando enquanto elas realizam seus estudos.

“Muitas meninas deixam de estudar por ter filhos. Eu acho que é um problema recorrente e nós vemos a quantidade de mães que queriam estudar ou que queriam poder aprimorar algum conhecimento, mas que não podem. Toda proposta da creche vai ser de uma educação não formal. A ideia é proporcionar brincadeiras diferentes para crianças que talvez não teriam essa oportunidade”, afirma.

Segundo ela, as pessoas dispostas a ficar na creche estão sendo selecionadas e serão todas que estão em processo de formação ou formadas em pedagogia para que todas as brincadeiras tenham algum propósito pedagógico.

“Eu acho que nós estamos vivendo tempos nebulosos no Brasil, especialmente em relação à educação. Para você entrar em uma universidade pública, você tem que ter estudado nas melhores escolas. A universidade ainda é elitista. Como professores, nós temos o mínimo de obrigação social de ajudar quem a gente sabe que não teria condições”, afirma.

Pensando exatamente em acolher minorias, o projeto vai ocupar duas salas do Centro de Referência LGBT​ da Prefeitura de Campinas a partir da primeira semana de março de 2020. Os alunos que quiserem se inscrever precisam mandar uma mensagem de WhatsApp para o telefone (19) 99808-5110 ou mandar um e-mail para mariellefrancoprevest@gmail.com​.

Porém, Rebecca alerta para que apenas pessoas que estejam realmente precisando façam a inscrição. “O projeto é para alunos que realmente sentem que precisam de alguma coisa para continuar sonhando”, explica.

O cursinho também está recebendo doações de material didático, livros e até objetos para organizar a sala como carteiras, por exemplo. Quem quiser apoiar o projeto pode entrar em contato por meio da página do Instagram da iniciativa: @prevest_mariellefranco. “Estamos em um momento inicial e não temos muitas coisas. Estamos correndo atrás de tudo e toda ajuda é bem-vinda”, afirma a professora.

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