'Não tem coisa que pague a liberdade', diz cabeleireiro preso sem provas

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Por Arthur Stabile

“Olha o predinho branco, nega. Tô em casa!”, disse o cabeleireiro Lucas Bispo da Silva, 19 anos, para sua namorada, Letícia Machado, 23 anos, quando o carro em que estavam descia o viaduto que entra na Rua das Juntas Provisórias, no Ipiranga, bairro na zona sul da cidade de São Paulo. Há 38 dias o jovem cabeleireiro de 19 anos não via aquele prédio. Passou esse tempo preso no CDP (Centro de Detenção Provisória) 2 de Guarulhos, na Grande São Paulo, acusado sem provas de roubar uma moto BMW.

Desde quinta-feira (16/1), a família contava as horas depois que o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) considerou que os depoimentos dados pelos PMs que o prenderam entravam em contradição com o da vítima. Os policiais disseram que o reconhecimento se deu dentro de uma delegacia, enquanto a vítima declarou ter sido levada a Heliópolis e, lá, viu e reconheceu Lucas como autor do crime. Um desembargador determinou sua liberdade, com prazo para o alvará de soltura ser cumprido em 24 horas.

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Apesar de o TJ-SP ter libertado o jovem, a Justiça até o momento não levou em consideração provas produzidas pela defesa, como vídeos em que ele entra e sai de sua casa em horários conflitantes com a prática do crime (que aconteceu às 7h30, enquanto Lucas saiu do apartamento às 10h03), depoimento de dois porteiros e duas testemunhas da abordagem que ele sofreu na porta do salão em que trabalha. O reconhecimento também o prejudicou, já que foi feito sem seguir as regras do CPP (Código de Processo Penal).

Lucas segura o bolo em sua homenagem ao ser recebido em casa com uma festa | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo
Lucas segura o bolo em sua homenagem ao ser recebido em casa com uma festa | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Ainda assim, Lucas saiu do CDP às 18h10 desta segunda-feira (20/1), quase cem horas depois de o documento ter sido assinado. Segundo magistrado ouvido pela Ponte, a demora em atender a decisão judicial pode acarretar em abuso de autoridade, conforme inciso 4 do artigo 12 da nova lei. No sábado, a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), administrada pelo coronel Nivaldo Restivo, explicou que “o Centro de Detenção Provisória II de Guarulhos não recebeu o alvará de soltura do preso Lucas Bispo da Silva” até as 19h53 daquele dia. “Após o recebimento, será feita a checagem da existência ou não de outras pendências com a Justiça e, não havendo, o alvará será cumprido e Lucas será libertado”, sustentou a pasta, quando questionada sobre o motivo da demora.

Letícia e a mãe do rapaz, Deusimara da Conceição Bispo, ajudante geral de 49 anos, levaram a notícia no sábado (18/1), quando fizeram a primeira visita no CDP após o tempo de 30 dias do regime de observação – prazo em que os presos não têm direito à visita nem a receber comida dos parentes. A esperança era de levá-lo para casa, o que aconteceu apenas dois dias depois.

As horas pareciam não passar para Letícia na porta da prisão. Esperava uma eternidade para rever seu namorado, que viu apenas uma vez desde o dia 13 de dezembro de 2019. A mistura de ansiedade e alegria de quando chegou no local, às 11h30, deu lugar a uma agonia insuportável pela espera. O irmão do jovem, Fernando, teve que deixar o lugar após mais de 5 horas porque o seu carro estava no rodízio de veículos de São Paulo e poderia ser multado. O sofrimento passou às 18h10, quando Lucas, enfim, passou o portão do CDP e a abraçou.

“Não tem coisa que pague a liberdade”, definiu o cabeleireiro, com as mexas que foram descoloridas dentro da cadeia. Lá, ele fez o que sabe: cortou o cabelo dos presos e juntou R$ 90 em cigarro, a moeda dentro do sistema prisional. Mesmo tendo se virado, preferia não ter passado pela experiência. “Estar preso inocente é ruim. Se tivesse feito alguma coisa eu teria suportado o baque, mas ir preso por uma coisa que eu não fiz foi bem difícil. Graças a Deus minha família está aí, estou saindo e é só esperar a audiência para ser inocentado”, declara à Ponte, ao sair do local.

Letícia (à dir.) e Fernando, irmão de Lucas, em espera interminável na porta do CDP 2 de Guarulhos | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo
Letícia (à dir.) e Fernando, irmão de Lucas, em espera interminável na porta do CDP 2 de Guarulhos | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Assim como Letícia viveu da manhã até o começo da noite desta segunda-feira, Lucas sentiu o tempo pesado ao longo dos 38 dias em que esteve em uma cela. “O dia parece ter 48 horas dentro da prisão, não passa por nada. Tenho a sensação de que fiquei uns três meses lá dentro”, comenta. No caminho para casa, na favela do Heliópolis, uma das maiores da América Latina, atendeu várias ligações de familiares e amigos. A ansiedade era geral em vê-lo.

Em uma pequena pausa, ouviu de Letícia os corres que ela fez para ajudá-lo, seja ao buscar testemunhas para o processo, seja para ir atrás de comidas para levar na visita. “Eu te amo”, ouviu a jovem em resposta.

Durante a espera no CDP, ela ligou mais de quatro vezes para o advogado para confirmar a saída devido a demora. Ligou para a administração do CDP e questionou os funcionários da portaria, que responderam com agressividade. “Nós não sabemos de nada. Pode sair, sentar sua bunda que ele pode sair 19h, 21h”, disseram, retrucando quando ela questionou se havia a chance dele somente nesta terça-feira (21/1). “Aí não é problema nosso”.

Enfim, o Natal

Lucas mal chegou em Heliópolis e foi recebido com abraços. Ele desceu do carro de aplicativo de transporte e logo encontrou três deles, que comemoraram seu retorno. Ao entrar no condomínio, acenou para uma amiga, que disse estar alegre com a sua volta. Ele e Letícia diminuíram o tom de voz ao chegar no apartamento. A abertura da porta veio junto de festa e abraço coletivo.

Os familiares aguardaram durante toda a tarde, agoniados, por aquela volta para casa aguardada há 38 dias. Mara, como é conhecida a mãe, abriu um largo sorriso ao ver os amigos abraçando o jovem. O pai, o autônomo Joé Umberto da Silva, 55 anos, esperou todos darem um abraço para apertar e beijar o filho. “Você não sabe o quanto eu esperei esse abraço”, confessou.

Recepção calorosa de amigos e familiares o aguardava em Heliópolis | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo
Recepção calorosa de amigos e familiares o aguardava em Heliópolis | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

A mesa estava posta com um bolo de chocolate e os dizeres “Lucas, te amamos”. Ao lado, salgadinhos, uma lasanha e um chester no forno. Gabriela Bispo da Silva, irmã de Lucas, já tinha contado à Ponte que a família não comemorou o Natal sem a presença do cabeleireiro em casa. Esperaram até a sua volta para assar o chester e, enfim, começar 2020.

Antes de comer, o rapaz tomou um banho quente, o que não acontecia em Guarulhos. Lá, a água era fria e o tempo contado: um minuto. Quando se lavou com a temperatura quente e demorou apenas cinco minutos, os próprios parentes estranharam. “Nossa, Mara. Só assim para ele tomar banho rápido”, comentou uma parente.

“Agora sim me sinto em casa”, comentou Lucas Bispo, saindo de lá com uma camiseta regata e bermuda, deixando para trás as roupas emprestadas que pegou no CDP: uma camiseta branca, com nome de outra pessoa anotado e alguns rasgos, e a calça jeans que ficou colada no seu corpo. “Estavam de tiração. Pedi para ir com a calça beje lá de dentro, mas não deixaram. Ficou essa aqui, tipo babylook”, comentou, brincando.

Dali para a frente foi só festa. Mais amigos chegaram, o grupo posou para uma foto e o bolo foi cortado. “Agora é voltar a vida ao normal”, disse. Ainda no carro, ele já demonstrava preocupação com seu salão de cabeleireiros. Enquanto cortava o cabelo dos presos, sua cabeça estava no espaço lá em Heliópolis. “Será que cuidaram bem? Quero ir lá mais tarde”, disse a Letícia. “Vai amanhã, curte a família hoje”, ouviu em resposta, concordando.

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