Preocupado com segurança, Qatar busca ajuda de EUA e Reino Unido

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - As estações de trem e metrô do Qatar amanheceram cercadas por grades nesta quarta-feira (16). Da noite para o dia, houve um reforço na segurança e no controle de acesso nos locais que deverão ter maior fluxo de pessoas durante a Copa do Mundo.

Há, também, mais policiais andando nas ruas, a pé e em viaturas, além de agentes circulando dentro das estações e dos vagões do metrô.

Na região de Al Mansoura, a 3 km do centro de Doha, um homem à paisana abordou a reportagem e questionou sobre as impressões a respeito do país. Sem dizer seu nome, mostrou em seu bolso o cordão de um crachá semelhante ao usado por pessoas credenciadas para trabalharem na Copa.

"Você teve algum problema nos lugares por onde passou?", perguntou o rapaz. "Está gostando de sua estadia?", acrescentou.

Como parte da preparação para sediar o torneio, o país convocou centenas de civis, incluindo diplomatas no exterior, ao serviço militar obrigatório para operar pontos de atenção, como estádios e locais de aglomerações.

Os recrutas tiveram treinamento para gerenciar filas, revistar torcedores e detectar contrabando como álcool, drogas ou armas escondidas no cabelo, forros de jaquetas ou até barrigas falsas.

Desde 2014, homens do Qatar com idades de 18 a 35 anos têm feito treinamento com os militares como parte do serviço militar obrigatório introduzido pelo Emir Tamim bin Hamad al-Thani.

Fugir da obrigação pode resultar em um ano de prisão e multa de US$ 13,7 mil (cerca de R$ 72,7 mil).

O Qatar formou, ainda, uma parceria com 13 países e criou uma grande estrutura de segurança. Estados Unidos e Reino Unido estão entre as nações que enviaram homens e meios aéreos e navais. Ao todo, o efetivo contará com 49 mil agentes.

O esquema tem, ainda, um Centro de Segurança Nacional, onde cerca de 15 mil câmeras com tecnologia de reconhecimento facial monitoram todos os oito estádios.

Parte da proteção do espaço aéreo qatari será feita pelo sistema anti-drones SkyDome, fornecido pela DroneHunter, da Fortem Technologies, com sede nos EUA.

"Os acordos técnicos visam identificar e colocar em prática as responsabilidades relacionadas à cooperação das forças armadas dos EUA para fornecer suporte ao evento", disse o Ministério da Defesa do Qatar.

Além disso, o Reino Unido forneceu pessoal antiterrorista, treinamento de busca de locais, planejamento operacional e suporte de comando e controle.

Britânicos e qataris, aliás, possuem parceria de longa data, sobretudo na economia. Em maio deste ano, por exemplo, o governo britânico informou a assinatura de um acordo que permitirá ao Qatar investir até 3 bilhões de euros (R$ 16,5 bilhões) nos próximos cinco anos em setores-chave do Reino Unido, como fintech, veículos de emissão zero, ciências e segurança cibernética.

Em contrapartida, o governo britânico se comprometeu a fazer um "apoio militar significativo durante toda a Copa do Mundo", conforme comunicado do Ministério da Defesa.

Segundo a rede de televisão estatal Al Jazeera, são esperados 1,2 milhão de torcedores durante o Mundial. É quase a metade de toda a população do Qatar, formada por 2,7 milhões habitantes, sendo 380 mil nativos e os demais migrantes.

A força de trabalho estrangeira foi responsável pela construção de grande parte da infraestrutura para receber a Copa do Mundo, num processo que levou o país a ser alvo de intensas críticas de grupos dos direitos humanos por denúncias de situações análogas à escravidão.

Nesta quarta-feira (16), também repercutiu na imprensa internacional a ação de seguranças do Qatar contra o repórter dinamarquês Rasmus Tantholdt, da TV2 da Dinamarca, que foi ameaçado enquanto aparecia ao vivo na televisão. Oficiais se aproximaram dele em um carrinho de golfe, impediram as imagens e disseram que iriam destruir a câmera da equipe.

O profissional apresentou as credenciais para trabalhar na Copa, além da licença para filmar, porém, mesmo assim, os agentes colocaram a mão na lente da câmera.

"Vocês convidaram o mundo inteiro para cá. Por que não podemos filmar? É um local público. Você quer quebrar a câmera? Vá em frente. Vocês estão nos ameaçando", disse Rasmus.

O Comitê Supremo do Qatar pediu desculpas formais à equipe de televisão pelo ocorrido.

Depois do episódio, a assessoria do Supremo Comitê da Entrega e do Legado reforçou em comunicado à imprensa que mesmo os profissionais credenciados precisam de autorização prévia para "gravar imagens e entrevistas, produzir reportagens ou fazer entradas ao vivo no metrô de Doha".

Situações como essas se contrapõem ao principal objetivo dos qataris ao sediar a Copa. Sem tradição no futebol, já que o principal esporte do país são as corridas de camelos, o Mundial faz parte de um grande esforço para melhorar a imagem da nação no exterior e diversificar a economia do país.

A localização geográfica do Qatar é outro fator que preocupa em relação à segurança. O pequeno Estado compartilha um campo de gás com o Irã e uma fronteira terrestre com a Arábia Saudita. Ao sul estão os Emirados Árabes Unidos, com os quais os qataris tem um histórico de rivalidade e conflitos.

A nordeste, está o Kuwait, um estado igualmente pequeno e que, após ser invadido pelo Iraque em 1990, acabou alertando o Qatar sobre os riscos de ser uma nação pequena e sem representatividade internacional na região.

Tudo explica os esforços para garantir que a Copa do Mundo seja realizada sem nenhum problema para os turistas do mundo todo.