Preocupada, esposa de detento liga para cadeia e descobre que ele foi internado com coronavírus

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Eliane Cristina com o marido Evangelista dos Santos. Foto: Arquivo Pessoal
Eliane Cristina com o marido Evangelista dos Santos. Foto: Arquivo Pessoal

Desde o dia 8 de março sem ver o marido que está preso na penitenciária Nestor Canoa, em Mirandópolis, interior de São Paulo, Eliane Cristina dos Santos Almeida recebeu, por telefone, a notícia de que o companheiro tinha sido diagnosticado com coronavírus e ido parar no hospital.

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Eliane ligou para a penitenciária para confirmar um boato que ouviu de uma amiga. “Ela ficou sabendo por um grupo de Facebook que o nosso raio, que é o raio 1, estava isolado”, explica dizendo que esse é o local em que Evangelista dos Santos fica dentro do presídio.

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“Eu liguei de manhã e perguntei do raio, se era verdade que estava isolado. Aí a atendente falou que estava isolado com suspeita de Covid-19. Aí eu não perguntei do meu esposo e desliguei. Mas fiquei com aquele pensamento na minha cabeça e liguei novamente. Eu falei com a atendente e aí ela pediu a matrícula dele. Eu passei e ela pediu para eu esperar”, diz.

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Naquele momento, a esposa do preso já sentiu que havia algo errado. De acordo com ela, quando o familiar fala o número da matrícula do parente, todas as informações sobre a situação do detento aparecem de forma rápida e as informações são repassadas. Porém, dessa vez, a situação foi diferente.

“Eu ouvi ela conversando com outra pessoa, que falou ‘pode falar’. Aí ela voltou e eu perguntei: ‘pode falar o que’? Aí ela falou: ‘o seu marido se encontra internado desde o dia 14 de abril. Ele foi para o hospital com suspeita de Covid-19’. Mas isso já tinha passado seis dias. Aquilo acabou comigo no dia”, afirma em entrevista ao Yahoo.

Depois do choque, Eliane conversou com a chefe da enfermagem para saber sobre o estado do marido. “Ela me passou as informações de que ele ficou dias no balão de oxigênio. Acabou com o meu mundo, né? Ele recebeu alta no dia 28 de abril e, voltando para o presídio, ele ficou mais 15 dias em isolamento em uma ala especial”, relata.

A reportagem teve acesso ao relatório médico em que é confirmado que ele apresentou resultado detectável para Covid-19. Além disso, o documento também diz que ele tem diabetes e é hipertenso. Sendo assim, ele faz parte do grupo de risco.

Em uma carta escrita para a família depois de sair da quarentena, Evangelista relata o que aconteceu com ele e quais sintomas ele teve. “Meu amor, vou te fazer pedido, ou melhor, um apelo: pelo amor de Deus, cuide-se bem e de nossa família. Principalmente do nosso pequeno [neto]. Porque essa doença judia muito mesmo de quem pegar ela. É tanta tosse que você tem até que segurar o ‘pé da barriga’ de tanto tossir e não aguentar a dor”, diz.

Em outro trecho enviado pela família à reportagem, o preso conta o que ouvia dos médicos durante a sua passagem pelo hospital. “Depois de cinco dias, uma das médicas desligou o aparelho e disse: ‘Tente respirar sem o oxigênio’. Eu não aguentei nem 20 minutos. Aí, ela ligou de novo. Eu perguntei para ela: ‘Doutora, eu já estou livre de perigo’? Aí ela disse: ‘Ainda não. Vamos esperar até amanhã de manhã. Se continuar assim o seu quadro teremos que te transferir para uma UTI [Unidade de Tratamento Intensivo]. Mas fique calmo’. Eu tomei mais ou menos umas 90 injeções na barriga para o controle do diabete e da pressão. Aos 10 dias, comecei a respirar”, afirma no texto.

Mesmo assim, ele tenta acalmar a companheira dizendo que a pior parte já tinha passado. “Querida e amada esposa Eliane, é com muita saudades que te escrevo para lhe dizer que já passou o susto e que estou de quarentena por 15 dias. Estou em um quarto isolado. É uma mistura de jaula com cela isolada”, relata.

“Os médicos que cuidaram de mim disseram para eu tomar muito cuidado. Porque quem teve esse Covid-19 uma vez não fica imune. Ao contrário, fica mais frágil a pegar novamente. No meu caso, não soube de onde ela [a doença] veio. Os médicos acham que [eu peguei coronavírus] por causa das doenças que já existem. Ficou mais fácil de contraí-la por causa de uma gripe”, diz o preso em outro trecho da carta enviada à família.

Trecho de carta envidada pelo preso. Foto: Arquivo Pessoal
Trecho de carta envidada pelo preso. Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com Eliane, o marido está preso há quase um ano. No entanto, a pena dele é de 13 anos e 3 meses. “É difícil saber que a pessoa que nunca fez nada errado está aí. Temos comércio próprio e a gente nunca precisou disso. Ele é eletricista de autos e apareceu um carro um dia para ele arrumar. O cara disse que ia viajar pertinho e pediu para ele olhar o caminhão. Ele olhou. Quando ele estava mexendo no caminhão, chegaram [os policiais] e deram voz de prisão”, diz.

Segundo a esposa de Evangelista, o caminhão que ele estava arrumando estava cheio de drogas. “Como estava na oficina do meu marido, foi dado como quadrilha de traficantes. Só que o caminhão estava carregado e a gente não sabia. O caminhão chegou e a gente foi fazer o serviço, né? Desde então, estamos brigando na Justiça para provar a inocência”, afirma.

No último sábado (6), o preso fez 54 anos. Por conta dos vários problemas de saúde, Eliane diz que fica preocupada com o marido. “Ele teve um AVC [Acidente Vascular Cerebral] em dezembro. Ele vinha reclamando de dor de cabeça e um dia foram fechar as portas de tarde, depois do banho de Sol e ele veio a passar mal. Eu só fiquei sabendo depois, em uma visita, no sábado”, relata.

Outro trecho de carta enviada à família. Foto: Arquivo Pessoal
Outro trecho de carta enviada à família. Foto: Arquivo Pessoal

“Ele tinha ficado com problema no braço direito, a boca subiu um pouco, o lábio ficou meio torto... o braço ficou sem movimentação por 12 dias e a perna do lado direito também. Como não tem como fazer fisioterapia, ele fazia com um chinelo velho na mão. Ele botava a mão e ficava movimentando. A boca, quando ele ia comer, caía fora da boca e derramava. Ele não tinha sensibilidade na boca”, explica sobre o AVC do marido.

Temendo pela saúde do companheiro, Eliane tenta fazer com que ele consiga o benefício da prisão domiciliar. No entanto, os dois pedidos feitos pela defensoria pública de São Paulo e por uma advogada voluntária foram negados. “O segundo pedido foi negado esses dias, mas eu não falei para ele. Fico com medo de ele passar mal. Qualquer coisinha a pressão dele já sobe e eu estou morrendo de medo”, afirma.

Na carta, o preso fala sobre o coronavírus. Foto: Arquivo Pessoal
Na carta, o preso fala sobre o coronavírus. Foto: Arquivo Pessoal

Acessando o site do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), a reportagem constatou que os pedidos foram negados nos dias 26 e 27 de maio de 2020. A resposta para as duas solicitações foi: “por se tratar de pedido genérico, não havendo a comprovação que se trata de caso de vulnerabilidade, indefiro o pedido da defesa”.

“Eles alegam que ele já está bem e que a penitenciária tem capacidade de cuidar dele. Eu não vi ele ainda depois do coronavírus. Só sei das coisas por telefone e deles ainda, só sei do que as atendentes me falam. Eu não sei nada pela boca do meu marido. Esperamos muito por esse pedido. Eu acho que eu entrava no processo umas 100 vezes por dia”, diz Eliane.

Segundo ela, tudo o que ela mais quer nesse momento é poder cuidar do marido e saber exatamente o que está acontecendo com ele. “Eu penso que foi um caso de extrema urgência. Ele quase morreu e eu sem notícias. Se ele fez ou não fez, se ele errou ou não errou, a partir do momento que um preso passa mal dentro de um presídio, a obrigação é ligar e avisar a família”, diz.

Na carta, o preso pede para que família se cuide. Foto: Arquivo Pessoal
Na carta, o preso pede para que família se cuide. Foto: Arquivo Pessoal

“A família tem que estar ciente do que está acontecendo. Ou a família só vai ficar sabendo quando ‘olha, ele morreu, vai buscar o corpo’? A família não existe? Vai ser enterrado como indigente? Ele tem família. Ele tem eu, principalmente. Eu sou esposa dele há 17 anos. Eu acho isso super errado”, finaliza.

A reportagem do Yahoo procurou a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) para perguntar sobre a situação do detento e questionar por qual motivo a família só ficou sabendo da doença de Evangelista quando a companheira dele ligou. A pasta não respondeu aos questionamentos.

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