Surfistas salvam Prainha da devastação

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Um exemplo de boa convivência entre homem e natureza (Lena Trindade)
Um exemplo de boa convivência entre homem e natureza (Lena Trindade)

Por Emanoel Araújo

Na semana do combate a poluição, o Yahoo Esportes escolheu uma história que envolve preservação do meio ambiente e ação democrática com o surfe de pano de fundo.

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O mais curioso é que tudo isso se passa no Rio de Janeiro, metrópole com mais de 6 milhões de habitantes, que por meio de uma intervenção dos surfistas conseguiu manter – e até ampliar – a conservação da Mata Atlântica.

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Localizado na extrema Zona Oeste do Rio, a Prainha é caminho para quem segue em direção às últimas praias da capital fluminense. O turista que observa a natureza intocada sequer imagina que ainda está na cidade e nem mesmo sabe do trabalho contínuo que os surfistas realizam para manter o cenário daquele jeito: um verdadeiro oásis em meio a cidade.

A vista - logo na entrada – é o cartão postal da Prainha (Divulgação/RioTur)
A vista - logo na entrada – é o cartão postal da Prainha (Divulgação/RioTur)

:: 1989 E OS PROTESTOS

A explosão da construção civil no novo bairro, a Barra da Tijuca, atraiu a especulação imobiliária rumo ao oeste da costa carioca. Uma dessas empresas lançou, em 1989, um projeto ambicioso: a construção de um hotel, um shopping e dois edifícios de 20 andares cada. A perda da cobertura vegetal e as consequências disso ao espaço onde eram (e ainda são) feitos campeonatos e confraternizações do surfe teriam impactos irreversíveis.

Amantes das pranchas ficaram sabendo do projeto graças a uma feliz coincidência. O surfista local Carlos Eduardo Cardoso, o ‘Grande’, vendia sua moto a um funcionário de um escritório de arquitetura. Ao chegar lá, uma maquete chamou sua atenção, pois o vale do desenho parecia muito com o da Prainha. Ao questionar e receber a confirmação do local, ‘Grande’ e os demais surfistas da região foram à porta da construtora no Leblon (Zona Sul do Rio) para protestar.

A briga se transformou em matéria na TV Globo, no programa Globo Ecologia e ganhou repercussão nacional. O caso foi assunto na cidade e as autoridades ficaram pressionadas pela opinião pública. Por fim, ‘Grande’ procurou um aliado que mudaria o destino do local.

Carlos Eduardo, o “Grande”, líder dos protestos contra a especulação imobiliária (Divulgação/RioTur)
Carlos Eduardo, o “Grande”, líder dos protestos contra a especulação imobiliária (Divulgação/RioTur)

:: 1990 E A LEI

Na época vereador pelo Partido Verde, Alfredo Sirkis encontrou uma solução para proteger o espaço. Negociando com os donos do terreno e o poder público, ele promulgou uma lei (nº1.534/90) que transformava a região em uma Área de Proteção Ambiental. Com a assinatura do prefeito Marcelo Allencar, a Prainha era do povo por lei e vigiada pelos surfistas.

:: 1992 E A ASAP

Após o episódio, o lugar ganhou fama pela cidade. O aumento de público significava um cuidado maior com o espaço. Os surfistas então criaram a Associação dos Surfistas e Amigos da Prainha (ASAP), uma espécie de zeladoria da região que teve como primeiro presidente o maior representante desta luta: Carlos Eduardo Cardoso, o “Grande”.

Segundo a ASAP, a associação age como “autoridade local de cunho civil na vigilância da praia e do parque contra o vandalismo, a exploração de recursos naturais e contra o uso inadequado da região da Área de Proteção Ambiental”.

ASAP promove campeonato durante todo ano com ícones do surfe e masters (Nelson Veiga)
ASAP promove campeonato durante todo ano com ícones do surfe e masters (Nelson Veiga)

:: 2001 E O PARQUE

O objetivo dos surfistas, através da ASAP, sempre foi o de promoção social e esportiva. Por meio de campeonatos e atividades (como ioga e meditação) oferecidas na única construção erguida no local, o grupo se fortaleceu ao longo do tempo e teve auxílio do poder público. O comprometimento dos locais ajudou na criação do Parque Natural Municipal da Prainha, que conta com trilha ecológica, mirantes e centro de visitantes nos seu 1,5 quilômetro quadrado de extensão

O parque conta com monitores, geógrafos e engenheira ambiental (Mariel Aragão)
O parque conta com monitores, geógrafos e engenheira ambiental (Mariel Aragão)

:: 2012 E A BANDEIRA AZUL

O início dos protestos, já no distante ano de 1989, teve seus frutos colhidos em 2012. Evitar uma superpopulação em um vale estreito é uma forma de evitar esgoto sem tratamento no meio do mar e a consequente contaminação da água.

Graças a constante luta dos surfistas e frequentadores da região, a Prainha recebeu o selo de Bandeira Azul, que atesta a qualidade da praia e sua importância no meio ambiente. Em todo o país, apenas outros quatro locais contam com esta alcunha.

O orgulho de ter uma das águas mais limpas do país hasteado em uma bandeira (Divulgação)
O orgulho de ter uma das águas mais limpas do país hasteado em uma bandeira (Divulgação)

Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, somente 1,57% da costa brasileira é protegida como a Prainha. As unidades de conservação da natureza (UC’s) são necessárias para salvar o habitat da fauna marinha. O Brasil se comprometeu, até 2020, a multiplicar esse número em dez vezes. A semana – e a história – da Prainha são exemplo de trabalho conjunto de surfistas e poder público, com benefícios para ambos os lados.

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